Tchauzinho, pedras portuguesas!

O ano era 1993, e a cidade do Rio de Janeiro havia se transformado em um enorme canteiro de obras. Era o Projeto Rio Cidade em ação. Lembro-me de, na época, ter lido um texto de Danuza Leão, onde ela dava graças a Deus por terem acabado com as pedras portuguesas nas calçadas de Ipanema. Dessa forma ela poderia circular tranqüilamente sobre seus saltos agulha, sem mais ter medo de levar um tombo.

“Como assiiiiiim???”, me perguntei revoltada, “Que perua é essa, que quer acabar com um dos maiores símbolos da cidade, só para não cair do salto?!”

Quase 15 anos depois, tenho que confessar, que concordo plenamente com Danuza. Só que o meu motivo agora é outro.

Chão de pedras portuguesas esburacado

Pedras portuguesas são muito bonitas, quando vistas de cima. Formam desenhos belíssimos nas calçadas e trazem um colorido a mais para a cidade. Mas convenhamos, só quando vistas muito de cima. Aqui embaixo a coisa já deixou de ser bela há muito tempo. Pra começar, a manutenção dessas calçadas não é uma tarefa simples. É preciso um bom profissional, que as calce direitinho, de forma bem plana e fixa. Senão o resultado a gente já conhece: calçadas esburacadas e irregulares. Ótimas formadoras de poças em dias de chuva, e causadoras de acidentes. Sem falar no lixo e fezes de animais que ficam acumulados nos buracos onde faltam as pedras.

Pessoas com deficiência, idosos ou aquelas que, com freqüência, guiam carrinhos de bebê ou de feira é que conhecem bem o problema! Essas sabem muito bem o que é circular por uma calçada de pedras portuguesas mal cuidada. Mesmo quando ela não apresenta buracos, os desníveis são motivos para preocupação e desconforto.

Chão de pedras portuguesas mal colocadasE não é só da funcionalidade que estamos falando. Que atire a primeira pedra (pode ser portuguesa mesmo), quem nunca deu de cara com pontos pretos no meio do traçado branco ou mesmo de preenchimentos feitos com cimento, acabando com o desenho da calçada. E não vamos esquecer do valor da manutenção, que é muito mais alto do que o de consertos de pisos de cimento ou concreto.

Em outubro de 2007, foi promulgada a lei 4.658, que prevê que todas as pedras das calçadas do Rio, exceto as localizadas na orla marítima, sejam trocadas por piso antiderrapante. Sou completamente a favor! Queria saber que fim levou essa história…

E pra quem achar que estou sendo radical e polêmica, temos bons exemplos de calçadas que sofreram modificações, como as avenidas principais de Ipanema e Leblon. Em alguns pontos dessas ruas, as pedras portuguesas ainda estão presentes, e onde há mais movimento, o piso foi trocado. Assim, a circulação por lá ficou muito mais tranqüila e agradável.

E não pára por aí. A lei de tombamento é mais forte que a de nº 4.658, citada acima. Ou seja, pode ficar tranqüilo quem defende nosso símbolo internacionalmente conhecido. Nas áreas tombadas o chão de pedras portuguesas continua existindo e nas demais ruas teremos calçadas mais democráticas e transitáveis. A cidade ficaria muito mais maravilhosa, não acham?

15 thoughts on “Tchauzinho, pedras portuguesas!

  • 14 de janeiro de 2008 em 10:42
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    Andar de cadeira de rodas ( especialmente se as rodas forem em borracha maciça) em uma calçada de pedras portuguesas é uma tortura. Alem de parecer pilotar um liquidificador desgovernado, existe a permanente sensação de que uma hora uma das rodas vai enganchar em algum buraco e a gente vai cair de cara no chão. Mas, seja qual for o piso, a manutenção é fundamental. Um piso de concreto rachado por uma raiz de árvore pode ser um obstáculo formidável.

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    • 14 de janeiro de 2008 em 10:42
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      Oi Sergio! As pedrinhas e irregularidades no piso realmente são um inferno para cadeirantes. Eu fico no eterno dilema de usar rodinhas infláveis, e mais confortáveis, ou as de borracha maciça, mais leves e ágeis. Já perdi a conta das vezes em que quase caí por causa de problemas nas calçadas. Por muita sorte, os tombos foram poucos e sem gravidade. Abraços, Eduardo.

  • 14 de janeiro de 2008 em 11:08
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    Sou curitibano e moro no Rio há um ano e meio. Lá em Curitiba, novas calçadas em pedras portuguesas são proibidas. O CREA-PR trabalha de forma muito intensa quando o assunto é acessibilidade. Pisos escorragadios estão banidos. As pedras portuguesas são muito bonitas, mas depois de alguns anos ficam extremamente escorregadias, sendo problemas principalmente para os idosos; e se a manutenção não for adequada, também se torna problema para cadeirantes.
    Bianca, se vocês forem algum dia a Curitiba, nos deixem saber da experiência, pois acredito que lá vocês verão um bom exemplo do respeito a todos.

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    • 14 de janeiro de 2008 em 11:08
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      Olá Marcos, muito bom saber que em Curitiba assuntos como acessibilidade são mais levados a sério. Assim já temos mais um destino de viagem acessível. Se passarmos por aí, algum dia, com certeza escreveremos aqui. Abs, Bianca

  • 14 de janeiro de 2008 em 12:22
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    Eu chamo esses miniobstáculos de pedrinhas assassinas. Elas ninguém faz nada. Elas continuam infernizando nossas vidas (principalamente quem porta deficiência física, que é o meu caso).

    Outro enorme problema são as calçadas. na verdade, a altura delas. Que dificuldade! Mora, hoje, em Vila Isabel, onde as calçadas são imensos paredões. Nem mesmo sendo para-atleta.

    Esse tema dá uma ótima pauta.

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    • 14 de janeiro de 2008 em 12:22
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      Oi Luís, realmente a altura das calçadas é outro problema que merece um post. Bem lembrado! Abs e volte sempre, Bianca

  • 14 de janeiro de 2008 em 14:20
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    Pedra portuguesa é um horror mesmo! Deve ser a coisa mais linda do mundo em locais com um topografia linear… Mas no Rio 40 graus deveria ser banida! Elas ficam soltas, acumulam sujeira, acabam com saltos, vão ficando imundas por conta de falta de limpeza eficiente. Sou completamente a favor de sua retirada. Desta forma, será menos uma coisa que o cadeirante tem q pensar antes de sair de casa.

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  • 14 de janeiro de 2008 em 18:31
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    eu odeio pedras portuguesas. ate criei uma comunidade no orkut com esse nome e logo ela ganhou mais adeptos do que eu esperava. pelo mens uma vez por ano eu torço o pé nas malditas, que, nas ruas de bairros, são um transtorno para pés, carrinhos e tudo mais. na praia ou em locais historicos, tudo bem. pq o rio cidade nao estendeu para os demais bairros o que fez em copacabana, calçadas planas, sem as malditas?

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  • 15 de janeiro de 2008 em 12:19
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    Discordo das opiniões abaixo. As pedras portuguesas são um marco na cultura brasileira. Se o problema é manutenção, então que se faça a devida manutenção nas pedras. Colocar cimento no lugar delas é de um mau gosto terrivel. Nós vivemos dizendo o quanto os paises la fora possuem belas urbanizações e conservação de seus lugares históricos. Essas pedras estão intimamente ligadas a nossa história. Felizmente nós vivemos em uma sociedade cuja a maioria da população não é velha ou deficiente. Não temos que destruir as ruas por causa de uma minoria, basta uma adaptação. As pedras portuguesas são belas, só precisam de mais atenção das prefeituras.

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    • 15 de janeiro de 2008 em 12:19
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      Bom, como foi dito no texto, as áreas tombadas da cidade permaneceriam com as pedras portuguesas. Também citamos exemplos de bairros onde a mistura de tipos diferentes de calçamento resultou numa ótima solução visual e prática. Quanto a não pensar em idosos e pessoas com deficiência, preciso discordar categoricamente de você. Podem ser minorias, mas também são cidadãos. Abs, Bianca

  • 18 de janeiro de 2008 em 10:27
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    Gente, falando em pedra portuguesa… Não resisto em deixar mais um post. Com este debate todo no Rio sobre IPTU, a nossa pedrinha se tornou uma atriz principal. Nas matérias de tv, só dá ela! São imagens e mais imagens de calçadas ferradas, cheias de buracos, pedras soltas e dispersas… Mais um exemplo de que, aqui, esta moda não rola.

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    • 18 de janeiro de 2008 em 10:27
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      Será que depois de todas essas reportagens, as pessoas vão se tocar de que pedras portuguesas já tiveram seu tempo? Abs, Bianca

  • 31 de janeiro de 2008 em 16:44
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    Sei que o Mão na Roda dirige-se essencialmente aos cadeirantes. Por que não tratar de questões ligadas aos surdos e deficientes auditivos também? Conto duas historinhas para reforçar.
    Uma amiga, surda e portadora de retinose pigmentar (síndrome que afeta a visão), há alguns anos, disse-me que votou no nossa atual alcaide por conta do Projeto Rio Cidade. Pedi para ela ser mais clara. Qual não foi minha surpresa quando falou que tinha dificuldade de caminhar nas calçadas esburacadas e de pedras portuguesas desalinhadas por conta de sua (dela) deficiência. Taí: a reforma das calçadas facilitou demais o caminhar de minha amiga.
    No caso dos surdos e deficientes auditivos, um dos problemas é com o metrô, que insiste em não colocar luzes sinalizadoras da hora de fechamento das portas e partida das composições.
    Conclusão: sei que já evoluímos muito, mas precisamos evoluir muito mais.

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    • 31 de janeiro de 2008 em 16:44
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      Oi João! Até na entrevista que demos para a TVE perguntaram se o blog abordava as questões relativas às outras deficiências. A resposta sincera é que decidimos não abordar, por enquanto, pois é um assunto bastante amplo e que pouco conhecemos. Logo, corremos o sério risco de escrever MUITA besteira. Mas sempre tentamos verificar uma coisa ou outra, como pisos táteis e cardápios em Braille, por exemplo. Ah, as calçadas esburacadas são péssimas pra quem tem baixa visão! E eu nem tinha reparado que o metrô não tem aviso luminoso. Lamentável… Abraços e obrigado pela participação! Eduardo

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