Notoriedade indesejada

HolofotesDepois de alguns anos andando de cadeira de rodas pelas ruas do Rio, percebi o quanto sou notado por onde passo. Ah, se a Preta Gil soubesse disso… Bem mais eficaz do que tomar caldo na praia! Brincadeiras à parte, qualquer cadeirante que se preze já deve ter percebido que não dá para sair por aí no anonimato.

Tudo bem que não há uma gangue de paparazzi atrás da gente, mas em praticamente todo canto que eu vou, algum conhecido acaba me vendo passar.

Na época da faculdade, recém cadeirudo, isso incomodava um bocado. Acostumado às últimas fileiras do auditório, fui obrigado a assistir as aulas a um metro de distância dos professores. O maldito auditório tinha degraus e era o único lugar aonde a cadeira chegava. Antes, eu podia me atrasar, sair mais cedo e até faltar sem que ninguém desse conta da minha existência. Depois de cadeirante, virei figurinha carimbada: todos me conheciam pelo nome e, sabe-se lá o porquê, aumentaram as expectativas em relação a mim. Talvez fosse a semelhança com o Professor Xavier (do X-Men), ou a crença de que a lesão medular tivesse gerado super poderes, como uma forma de compensação.

E nas noitadas? Quanto mais tarde e mais bêbado fico, e quanto mais podre o lugar onde estou, maior a chance de alguém me ver. Claro, você deve estar pensando, isso acontece com todo mundo. Tudo bem, camarada, mas quando se é cadeirante, pode multiplicar a probabilidade por 3. No mínimo! Até porque, é muito mais fácil ver uma cadeira de rodas na missa de domingo do que em um boteco imundo, às 4 da manhã, com as portas fechando. Com todo respeito aos cadeirantes que vão à missa aos domingos, é claro.

Mas também tem seu lado positivo. Se você for gente boa (e modesto) como eu, a exposição pode te ajudar. Muitas pessoas se aproximam para um bate papo, comentando que te viram outro dia, circulando por ali ou por aqui, e você pode aproveitar a ocasião para fazer novas amizades, vender uma idéia ou simplesmente passar o tempo enquanto o metrô não chega ao destino.

Se for mais esperto, pode até conseguir transformar essa super exposição em um meio de vida. Pleitear uma vaga no próximo Big Brother, freqüentar festas com os ricos e famosos e aparecer nas revistas de fofocas.

Taí, acho que vou montar na minha cadeirinha, correr pra praia e tomar um caldo…

Eduardo Camara

Se não está viajando, está pedalando. Muitas vezes, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

15 thoughts on “Notoriedade indesejada

  • 5 de março de 2008 em 09:45
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    Muito bom!
    Com certeza somos mais notados que um E.T.

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    • 5 de março de 2008 em 09:45
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      Pois é Evandro… Eu só esqueci de complementar o post falando sobre um dos principais motivos pelos quais isso acontece: a falta de acessibilidade. Eu acredito que os problemas de acesso são os grandes responsáveis pelas pessoas com deficiência acabarem ficando em casa. Abraços, Eduardo.

  • 5 de março de 2008 em 11:19
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    Dado,
    Muito boa sua colocação nesse post, adorei!
    É nesses olhares do dia a dia que percebemos como as pessoas ainda não estão acostumadas com isso…
    O fato de usar uma cadeira vira um tipo de referência praticamente inevitável!
    Beijo amigo!

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    • 5 de março de 2008 em 11:19
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      Obrigado, Gabi… Como falei para o Evandro logo abaixo, melhorando a acessibilidade, não seremos mais vistos como ETs por aí! Beijos, Dado.

  • 6 de março de 2008 em 10:44
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    Concordo plenamente, sou cadeirante a 12 anos e fiz faculdade após a cadeira, passei pela mesma situação, sempre gostei de ficar nas fileiras lá de trás e depois da cadeira ficou mais difícil. Porém, sempre que chegava adiantado dava para arrumar as cadeiras e ir lá pra trás, por outro lado quando chegava atrasado era horrível, tinha que ficar ali na frente mesmo sobre todos os olhares, mas tudo bem, a gente se supera.

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    • 6 de março de 2008 em 10:44
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      Oi Aloisio! Então você sabe exatamente o que eu passava. E quando tinha que sair no meio da aula? Mais uma vez, o centro das atenções. Abraços!

  • 7 de março de 2008 em 22:51
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    Fala Dado,
    Muito engraçada a parte dos super-poderes. 😀
    Cuidado só por andas tomando essas cachaças, bebida e direção não combinam 🙂
    Parabéns mais uma vez pelo blog . Tá bombando

    []s
    JV

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    • 7 de março de 2008 em 22:51
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      Amigo JV, vou levar um bafômetro na próxima noitada, só como precaução 🙂 Abração!

  • 7 de março de 2008 em 20:31
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    Eduardo, nota 1000 o blog, a sua iniciativa mas acho que é "otimista" demais achar que melhorando a acessibilidade, não seremos mais vistos como ETs por aí. Não me ocorre agora a melhor forma de explicar o que eu acho…
    Somos vistos como ETs pór aí? Sim.
    mas não é por falta de acessibilidade, pelo menos, não só por isso.
    Deu para entender onde eu quero chegar?

    Resposta
    • 7 de março de 2008 em 20:31
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      Obrigado, Fernando! Concordo com você que melhorar a acessibilidade não resolve tudo, mas ajuda um bocado, assim como nossas próprias atitudes. E também concordo que algumas pessoas, independente de todas as ações, continuarão nos olhando como alienígenas. Prefiro ignorá-las 😉 Abraços!

  • 25 de março de 2008 em 00:24
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    Olá, estou conhecendo o blog de vcs agora e me "reconhecendo" em cada post… qto a questão da notoriedade indesejada, concordo plenamente!desde q m tornei cadeirante há cerca d 1ano e meio, e venho pensando mto sobre o assunto… cheguei a conclusão d q as pessoas olham por diversos motivos: curiosidade, procurando algo diferente, admiração pela superação, ou até mesmo crítica (já ouvi q deveria ficar em casa, q é lugar de "gte c/ problema")Então, resolvi não tentar adivinhar o pensamento alheio e na maioria das vezes ignorar! mas, tem horas q não é nada fácil… Uma história curiosa vivenciei há 1 mês, qdo fiz minha 1a viagem de avião pós-acidente. No desembarque, era a última a sair, aguardando minha cadeira retornar. A maiora das pessoas não saiam sem antes dar uma olhadinha básica p/ aquela "criatura" q teve de passar p/ a poltrona no colo… E a resposta era: "Sou apenas uma deficiente física fazendo turismo!!!"
    Parabéns pela iniciativa!

    Resposta
    • 25 de março de 2008 em 00:24
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      Oi Valéria, muito obrigado pelos elogios e seja bem-vinda! No começo da minha reabilitação eu me sentia um pouco incomodado com esses olhares, mas hoje levo numa boa. E quando fazer uma pergunta indiscreta, solto uma resposta estapafúrdia. É engraçadíssimo! Abraços, Eduardo.

  • 31 de março de 2008 em 10:40
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    Só faltou dizer: Filma nó Galvão!!!auehauehauheauhea,isso é uma cronica, com fato cotidiano de qualquer cadeirante… ahuaheuhea essa semana mesmo uma menina que diz que sempre se topamos no corredor da faculdade apesar de nao ter percebido muito pq sao varias pessoas me adicionou no orkut querendo uma amizade pelo que me pareceu… ahauhauhauhea muito bom esse texto!!!!

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  • 31 de março de 2008 em 10:50
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    Ah! e detalhe auehaueha sempre saio durante as aulas na faculdade e com os professores me olhando com aquele ar debaixo para cima…kkkkkkkkkk e os meus colegas de sala que nao converso muito tbm, auehauehaiheau mas eu saio pq amigos meus da sala me levam pro caminho da matação de aula =P auehauhsiaheae ahhhh contando tbm que chego atrasado nas aulas todoooooos os dias auehauea e nao sei pq ainda sou percebido sabe kkkkkkkkk lalalala

    Obs: sou cadeirante de nascença

    Resposta
    • 31 de março de 2008 em 10:50
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      E conforme a Bianca escreveu no post de hoje, o "Acima do Bem e do Mal", as pessoas nem devem reclamar por você chegar atrasado. Afinal de contas, você é cadeirante! 🙂 Abraços,Eduardo.

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