À procura de um lar

Página de classificadosLogo no início do meu namoro, eu trabalhava como freelancer e tinha tempo para resolver questões particulares no horário comercial. Sendo assim, me ofereci para ajudar minha cara metade cadeirante em sua busca por um lar doce lar. Sabia que precisaria checar se o apartamento era acessível, coisa e tal. Mas só me dei conta do quanto a tarefa seria difícil, quando recebi dele A LISTA. Confiram:

1) Acesso na entrada – esse item me pareceu óbvio e eu já esperava por ele. Mas não sabia que seria tão difícil de encontrar. Prédios sem nenhum degrau na entrada ficam no topo da lista. E esses são muito raros de se encontrar. Alguns possuem rampas, muitas vezes só na entrada de serviço. Mas a maioria delas possui inclinação inadequada e a pessoa com deficiência fica dependendo do porteiro para entrar e sair de casa. Chato, não? Prédios com escadas como única opção de entrada eram automaticamente descartados.

2) Elevador – Esse item também não me surpreendeu. E acho que nem preciso me estender com explicações, certo?

3) Cômodos com boa área para circulação – Se o edifício fosse aprovado nos dois itens acima, eu já poderia me preocupar com o interior do apartamento. Amaldiçoei minha memória, todas as vezes que saí de casa sem uma trena. Nunca tive uma boa noção de espaço, por isso, em alguns apartamentos, ficava realmente sem saber se aquele quarto com uma cama ou aquela cozinha com fogão e geladeira teriam espaço o suficiente para a circulação de cadeira de rodas. Por sorte eu estava sempre munida de uma câmera fotográfica.

4) Portas – Essa pra mim era a parte mais difícil. Sem uma trena na bolsa, cheguei a medir a largura das portas com papel higiênico. Em raríssimos casos encontrei uma porta de banheiro pela qual a cadeira de rodas poderia passar. Vocês sabiam que portas de banheiro são mais estreitas do que as demais? Pois é. Eu não sabia disso. Se existe alguma explicação? Nenhuma! É assim que se aprende na faculdade de arquitetura e é assim que se faz por aí. Será que é pra economizar madeira?

5) Pia do banheiro – O ideal é que o banheiro tenha uma pia sem bancada ou armário embaixo. Assim, o cadeirante consegue usá-la de frente. Caso contrário, só de ladinho. É claro que, no desespero, a gente abre uma exceção. Mas muitos apartamentos foram descartados por conta desse item, pois o tamanho e a posição da bancada também impediam a circulação pelo banheiro. E eu que sempre achei armários embaixo da pia super práticos e muito mais bonitos do que apenas aquela cuba com pé…

6) Espaço próximo ao vaso sanitário – Além de conseguir circular pelo banheiro, o cadeirante também precisa conseguir passar da cadeira pro vaso. Se o banheiro não possui espaço para essa manobra, o apê já está riscado da lista.

7) Chuveiro – Mais uma vez, o vilão é o banheiro. Pasmem, mas esse é o cômodo que faz toda a diferença na hora da escolha, e o chuveiro ideal não fica de fora. Como seria ele, então? Simples: sem portas em Blindex, sem murinho de contenção de água, de preferência no mesmo nível do chão, assim a pessoa consegue entrar com a cadeira de rodas e lá dentro passar para um banco sem problemas. Eu disse simples? Ops! Força de expressão! Ah, sim! Uma banheira até dá pra enganar, mas é bastante trabalhoso entrar e sair dela todo dia.

8) Largura dos corredores – Acreditem, já visitei apartamentos com corredores internos tão apertados que uma cadeira de rodas não passaria por eles. Mas só passei a reparar nisso depois que comecei a ajudar meu namorado na busca.

E foi com essa listinha em mãos que saí a procura do apartamento perfeito. Se encontramos? Nada ainda! Nunca pensei que poderia ser tão complicado…

Atualização de 08/03/2008: Chegamos a encontrar um apartamento que já vinha todo adaptado. Seu último morador havia sido um cadeirante. Era perfeito! Seu único defeito: de tão bom, até pessoas sem deficiência se interessaram. E o primeiro que chegasse à imobiliária com tudo em ordem, levava! Infelizmente não fomos nós os campeões dessa corrida.

9 thoughts on “À procura de um lar

  • 6 de março de 2008 em 10:05
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    É constrangedor dizer: é obvio que não vai encontrar, casas e apartamentos para cadeirantes são transformados após a chegada do cadeirante, ninguem faz uma obra pensando na possibilidade do inquilino ser cadeirante.
    Acho que deve colocar um anuncio: (alugo residencia adaptada para cadeirante)

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    • 6 de março de 2008 em 10:05
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      Oi Tânia, logicamente não esperamos encontrar um apartamento todo preparado para um cadeirante, mas se ele tiver boa parte desses requisitos, o resto a gente adapta. O banheiro, geralmente, é o cômodo que precisa de mais reformas. A idéia do post era apenas mostrar as dificuldades, pois a maioria dos apartamentos não tem nem condição de ser adaptado. Obrigada pelo comentário! Abraços, Bianca.

  • 7 de março de 2008 em 13:22
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    Bianca, fui lendo o post e me identificando. Quando saí a procura de nosso apartamento, fui reparando nas coisas mais óbvias e meu namorado dizendo mais um monte de itens. Realmente, o banheiro é o pior. O box tem sempre uma muretinha, a pia está sempre com um armário na parte de baixo. Um saco mesmo! Fui lendo e querendo saber, esperando um "happy end". Mas estou na torcida. Minha casa tb n está perfeita. Fazemos alguns marabarismos na hora de escovar os dentes e tomar banho. Mas pelo menos a minha imobiliária é bem solícita e disse q o q sair do "nosso bolso" está autorizado. Tem algo sensacional lá q é uma meia rampa… quem construiu ficou com preguiça e sí fez metade… na hora de entrar, é sempre delicado. Reformas já! Boa sorte na sua busca.

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    • 7 de março de 2008 em 13:22
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      Obrigada, Jaqueline. Ainda estamos à procura, mas sabemos que alguma coisa vai aparecer. Reformas serão necessárias, com certeza, mas já estamos contando com isso. Esbarramos por 2 vezes em apês já adaptados, mas acabamos não conseguindo ganhar a corrida. Quando o apartamento é bom, o primeiro que chega, leva! Vc deve saber disso. Uma verdadeira competição. Abraços, Bianca

  • 10 de março de 2008 em 13:14
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    Estranho é a "luta" do governo em favor de portadores de necessidades especiais ou deficiência. Pedem que concursos tenham vagas para deficientes, que prédios públicos sejam acessíveis, que carros adaptados tenham desconto de impostos (está certo isso?), mas nunca li nada sobre a moradia. Não sei de lei ou projeto-de-lei que obrigue construtoras a oferecer um mínimo de unidades acessíveis a pessoas assim.
    Em tempo, quem estuda ou trabalha com construção civil sabe que as portas dos BWCs são menores porque as esquadrias representam uma parcela significativa do acabamento do imóvel.

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    • 10 de março de 2008 em 13:14
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      Pois é, Marcos, também nunca ouvi falar sobre obrigação de adaptar um mínimo de unidades de alguma construção. Só vemos isso acontecer com banheiros de empresas, mas moradia que é bom… Edifícios novos já costumam ter adaptações nas suas entradas, mas não sei de nenhum onde essa preocupação se estenda aos apartamentos. Sei que isso aconteceu com alguns apartamentos da vila do Pan. Mas, ironicamente, não adaptaram o número suficiente para receber todos os atletas do Parapan… Ou seja, a "luta" do governo é sempre pela metade. Abraços, Bianca. (Complemento do Eduardo: existem algumas iniciativas isoladas sobre a questão. Entre elas estão a adaptação de um percentual de casas em conjuntos habitacionais construídos pelo governo, isenção de IPTU, obrigação de constuir pelo menos as áreas comuns acessíveis, etc. Vou tentar fazer um "post" sobre o assunto!)

  • 13 de março de 2008 em 11:35
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    Muito boa a sua listagem.
    Acessibilidade deveria ser materia obrigatoria dentro de sala de aula nos cursos de arquitetura e engenharia civil.

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    • 13 de março de 2008 em 11:35
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      Também pensamos assim, Jonny, mas infelizmente, a matéria ainda é eletiva… Pode? Abraços, Bianca

  • 19 de abril de 2008 em 23:26
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    Pessoal, também sou cadeirante e formado em engenharia civil. Tenho uma boa experiência com adaptações de ambientes, se alguém quiser trocar uma idéia (é grátis, não estou fazendo propaganda de serviço, ok?) mande um post… Já passei por todas essas dificuldades para procurar um apto. e posso afirmar: já que vc vai ter que reformar para ficar do seu jeito, o melhor negócio é procurar um apto. detonado num prédio bom… o resto vc constrói com o dinheiro que sobrou…

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