Opinião e cotidiano

Acima do bem e do mal

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símbolo de acesso sobrevoando Semana passada, recebemos um email da leitora Márcia Corrêa que nos despertou para uma discussão sobre a qual já tínhamos pensado em escrever. A história que ela descreveu, só nos incentivou a trazer logo o assunto para o blog. Confiram um trecho:

“O cenário foi uma conhecida casa de espetáculos no Rio de Janeiro. Ao chegar no local, depois de entregar o ingresso, me encaminhei para a funcionária encarregada de vistoriar as bolsas, que gentilmente recusou minha ‘oferta’. De imediato imaginei que ela fosse fazer o mesmo com as demais pessoas, por razões que sequer consegui formular naquele momento, tamanha minha surpresa. Mais espantada ainda fiquei ao perceber que eu seria a única pessoa ‘liberada da inspeção’.”

Já não é a primeira vez que ouço histórias como essa. O próprio autor do nosso blog já passou por situação parecida, ao ser parado numa blitz policial. Assim que explicou ao “seu guarda” que precisava montar a cadeira para sair do carro, foi prontamente liberado da revista. Mas não sem antes de receber do policial um olhar de compaixão – que todo cadeirante deve conhecer bem – acompanhado de um pedido de desculpas.

Refletindo sobre o ocorrido, mais adiante no seu email, nossa leitora levanta questões bastante pertinentes e muito importantes:

“Tal fato me sugeriu dois pensamentos distintos: o primeiro, que todas as pessoas com deficiência são, genuinamente, acima do bem e do mal e que, dentre os 14,5% da população com algum tipo de deficiência, não existe um que seja capaz de atos ilegais, como portar uma arma ou qualquer objeto que ofereça risco a outras pessoas. Ou que ‘tadinhos, já que tiveram a oportunidade de vir a um evento cultural, não vamos atormentá-los com um inconveniente dessa natureza’. O que, para mim (em ambos os casos), só evidencia a existência de um ‘preconceito às avessas’, (…)”

Já pararam pra pensar sobre isso? Por que nos sentimos tão desconfortáveis diante de pessoas com deficiência a ponto de os isentarmos de uma simples inspeção dos bolsos ou batida policial? Por que seriam essas pessoas acima do bem e do mal? Por que ainda insistimos em tratar as pessoas com deficiência como os coitadinhos que precisam eternamente ter muita força de vontade, ajuda e apoio?
Com certeza a ausência de acessibilidade na maioria dos espaços urbanos e a falta de esclarecimento e educação da população são grandes responsáveis por essa visão distorcida. Se o cotidiano das pessoas com deficiência não fosse tão cheio de obstáculos, elas simplesmente se misturariam a todos nós “anônimos” com muito mais facilidade.

Para finalizar gostaria de citar mais algumas palavras de nossa leitora:
“… ainda acredito que alguns aspectos da vida em sociedade precisam urgentemente de uma reformulação, sob o risco de sermos vistos eternamente como ‘aqueles que precisam de apoio’”.

Que tal refletirmos a respeito? O que podemos fazer para que a situação mude?

Obrigada Márcia e obrigada leitores! Continuem contribuindo sempre!

Sobre o autor / 

Bianca Marotta

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19 Comentários

  1. Maria Enide Aranha Luz quarta-feira, 2 de abril de 2008 em 21:31 -  Responder

    Outro dia, numa fila de banco, a pessoa da frente, q era idosa, quis ceder seu lugar p/ mim , q sou cadeirante. Certamente, ela deve ter ficado com pena de mim.
    Obviamente, recusei, pois ela tb tinha o direito de estar na fila especial.
    Muito bom esse blog.

    Eduardo

    abril 2nd, 2008 - 21:31
    Mão na Roda respondeu:

    Oi xará! Isso também acontece bastante comigo. Em muitas ocasiões, acabo até abrindo mão desse direito. Volte sempre! Abraços, Eduardo.

  2. PedroP quinta-feira, 3 de abril de 2008 em 10:01 -  Responder

    Bom, eu acho que esse comportamento não está motivado por nenhum preconceito… acho que as pessoas querem ser gentis, e não serem mais um obstáculo a ser superado pelos cadeirantes. O tratamento entre as pessoas deve ser igualitário, e não identico… Acho que ver com maus olhos essas gentilezas e até os desconfortos é uma injustiça, porque, no fundo, o que move as pessoas que têm essas atitudes são sentimentos bons, e a vontade de ajudar, por mais que não façam isso de uma maneira desajeitada e envergonhada. Talvez se aplique a máxima "o que vale é a intenção"… Um grande abraço a todos e parabéns pelo ótimo blog!

    abril 3rd, 2008 - 10:01
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Pedro, o que achamos é que muitas vezes, esse tipo de gentileza, apesar de ser bem intencionada, não é legal. Porque continua colocando a pessoa com deficiência como o coitado e aquele que precisa de cuidados. Quando o que ela quer é ser considerada mais um anônimo. A imagem do cadeirante é que continua distorcida e isso, sim, é um preconceito. Entendo sua colocação, entendo que em muitos casos a intenção é boa. Mas nem todas as boas intenções são saudáveis. Percebe? Super obrigada pelo seu comentário e pelos elogios ao blog. Continue participando! Abraços, Bianca.

  3. Valéria Aliprandi quinta-feira, 3 de abril de 2008 em 17:38 -  Responder

    Já passei pelas duas situações: ser e não ser revistada… mas confesso q prefiro a primeira, pois confere uma certa sensação de "somos todos iguais" por parte da sociedade. As situações q mais m marcaram foram no aeroporto do Galeão no RJ, onde a segurança não só m revistou, como à minha mãe tb q estava usando uma bota ortopédica daquelas de velcro, olhando dentro da bota. Achei MTO CORRETO! A outra situação e mais gritante foi no PAN e ParaPan, onde não fui revistada, nem confiriram meu ingresso, tanto no Maracanã, qto na Arena Olímpica. Num evento desta proporção foi imperdoável. Não se pode colocar em risco assim a segurança das pessoas!!! Afinal, pq eu não poderia ser uma "mulher bomba"… rsss

    abril 3rd, 2008 - 17:38
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Valéria, eu quase escrevi isso no post, mas achei que poderia ser um pouco demais. Mas é por aí mesmo, porque é que cadeirantes não podem ser homens-bomba? Ou traficantes? Ou participantes de algum grupo criminoso? Imagina se descobrem que pessoas com deficiência não costumam ser revistadas por aí. O que vai ter de gente se fazendo de cadeirante, pra entrar armado em banco, festa etc e tal? Já imaginou? hehehe. Brincadeiras à parte, acredito que nenhuma pessoa com deficiência se sinta ofendida por ser considerada igual às demais. Nem para o bem, nem para o mal. Como vc mesma disse a sensação de ser igual é o que mais importa e gratifica. Obrigada pelo comentário! Abraços, Bianca.

  4. Ludmilac quarta-feira, 2 de abril de 2008 em 20:47 -  Responder

    Oi, Bianca e Dado! O blog tá ótimo, gente! Tô lendo e adorando. Fazia um tempão que eu não vinha. Parabéns!
    Bjs,
    Lud

    abril 2nd, 2008 - 20:47
    Mão na Roda respondeu:

    Oi oi! Que bom que você está gostando! Continue voltando! E sempre que quiser, dê opiniões e idéias. bjos, Bianca

  5. Marcos Vinicius Pereira sexta-feira, 4 de abril de 2008 em 19:19 -  Responder

    Não me lembro a época que ocorreu, mas se procurar no site do O Globo, deve ser fácil de encontrar. A polícia já prendeu um ladrão de carros que só tinha um braço aqui no Rio de Janeiro. Tá, não é cadeirante, mas é portador de deficiência (é certo falar assim? ou seria de necessidade especial?) e mostrou o quão bonzinho ele era!

    abril 4th, 2008 - 19:19
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Marcos! Já presenciei um assalto à mão armada dentro de um ônibus em que um dos assaltantes também só tinha um braço. E, há uns dois ou três anos atrás, um paraplégico – e cadeirante – participou de um assalto a banco em São Paulo. A grande questão é que a deficiência não torna as pessoas melhores ou piores. Ah, o termo mais recomendado hoje em dia é "pessoa com deficiência". Um abraço e obrigado pela visita, Eduardo.

  6. vania lima ferraz domingo, 6 de abril de 2008 em 14:19 -  Responder

    Olá,

    Não sou cadeirante, no entanto, sou leitora assídua desse maravilhoso blog, que presta um serviço da maior relevância. O meu interesse em lê-lo, é para conhecer um pouco sobre a vida de vocês e de que forma todos os não-cadeirantes podem se situar dentre desse universo. Acho que é fundamental não haver distinção – temos que nos conscientizar que somos todos iguais. As deficiências físicas são as visíveis. Há uma enorme variedade de "pontos fracos" nos seres humanos em geral-nem sempre caractrizados como deficiências – e, talvez por isso, não sofra tanto preconceito.

    abril 6th, 2008 - 14:19
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Vania, ficamos sempre felizes quando conhecemos mais uma pessoa sem deficiência entre nossos leitores. Quando criamos o blog, escolhemos escrever de forma leve e descontraída, para tentar amenizar ao máximo os preconceitos. E comentários como o seu, só nos deixam mais empolgados. Obrigada e cotinue participando! Abraços, Bianca

  7. Luiza Coimbra segunda-feira, 14 de abril de 2008 em 11:16 -  Responder

    Descordo de que pessoas com deficiências físicas sejam pessoas acima do bem e do mal. No bairro em que eu morava quando jovem isso lá pelo meado da década de 80 tínhamos um vizinho deficiente físico, não era usuário de cadeira, teve paralisia infantil e ficou com a perna direita menor e tinha muita dificuldade para caminhar e isso não o impediu de trilhar pelo caminho da criminalidade. Ele era o terror do bairro. A própria bandidagem não o perdou pela briga do "ponto". Infelizmente o mataram.

    abril 14th, 2008 - 11:16
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Luiza, é exatamente isso que queremos dizer com nosso texto. Pessoas com deficiência são como todos os outros seres humanos, tem qualidades e defeitos. A deficiência física não faz delas automaticamente heroínas ou boazinhas. E você nos trouxe um bom exemplo disso. Obrigada pelo comentário! Abraços, Bianca.

  8. Lu terça-feira, 22 de abril de 2008 em 19:06 -  Responder

    Oi, Bianca.
    Parabéns pelo blog.
    Lembrando que alguns bancos já foram assaltados, justamente por não revistarem cadeirantes. Assim como carrinhos de bebês, cadeiras de rodas foram usadas para esconder armas para assalto. Falhas no treinamento do pessoal da segurança bancária, fruto dessa mentalidade medíocre que a maioria ainda tem a respeito de pessoas que precisam de cadeiras de rodas para se locomoverem e não do olhar de pena e pieguice das pessoas.

    abril 22nd, 2008 - 19:06
    Mão na Roda respondeu:

    Já pensei várias vezes nessa hipótese. Se eu fosse "do lado mal da força" essa seria uma brecha que, com certeza, eu aproveitaria. Ponto para os seguranças sem preconceitos. Abraços, Bianca.

  9. Rose Vieira quinta-feira, 24 de abril de 2008 em 02:32 -  Responder

    Isso me fez lembra de uma notícia publicada e posta em debate numa comunidade do Orkut (talvez o Dado se lembre disso). Era sobre uma mulher q deu queixa de um cego na delegacia por assédio sexual, após ele ter passado a mão ou bengala (não lembro direito) no seu traseiro.

    A maioria do comentários foi de revolta contra a mulher por "pensar mal" do ceguinho, coitado, é cego…

    O fato é q ninguém considerou q a única pessoa q não foi preconceituosa foi justamente a vítima.

    abril 24th, 2008 - 02:32
    Mão na Roda respondeu:

    Essa notícia é ótima! E o ceguinho só se aproveitou desse preconceito às avessas! Tenho um amigo que diz que quando ficar velho, vai aproveitar para fazer várias besteiras, usando a desculpa de que está esclerosado. Sim, isso existe! Bjos, Bianca.

  10. Margareth Fernandes de Azevêdo Cruz segunda-feira, 8 de setembro de 2008 em 11:34 -  Responder

    Nunca fui revistada nem em aeroportos, nem em shows e fiquei imaginando que um traficante de ou até de armas poderia muito bem usar uma cadeira de rodas para está praticando um crime. Outra coisa que acho estranho é quando tem muita gente num local ou impedindo minha passagem, e peço licença para passar a pessoa pede desculpas mesmo estando costas. Como ela poderia saber que eu estava atrás. Nós temos que circular mais para que a população se acostume com a nossa existência e que nos tratem com mais igualdade.É uma luta diária. Temos que vencer o pior preconceito que são os dos parentes, que sempre colocam obstáculos paranõ sairmos, mas aos poucos isto está mudando.

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