Opinião e cotidiano, Transporte

A cara de pau do taxista

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Taxi com símbolo Há duas semanas atrás, chamei um rádio-táxi para uma saída noturna. Quinze minutos depois ele chega. Eu embarco, colocamos a cadeira na mala e partimos. Até aí, nada demais. Mas logo que o carro entra em movimento, o taxista me pergunta se eu avisei à central de rádio-táxi que levaria uma cadeira de rodas na viagem. Mesmo estranhando o questionamento, respondo que sim.

Foi então que começou a sequência “Joselito-sem-noção” do taxista. Ele pega o rádio e confirma com a central que o pedido indicava uma cadeira de rodas. Começa a reclamar com a atendente para que ela preste mais atenção nos pedidos e que avise quando o passageiro for cadeirante. Nesse momento eu me seguro no banco e penso: “Ferrou! O cara vai me chutar pra fora do carro!!!”. Então ele me tranqüiliza dizendo que eu não tenho culpa dessa situação (Ufa!), e que a questão é que ele normalmente não leva cadeirantes, mas como é bonzinho – ao contrário de alguns colegas seus, como ele mesmo afirmou – não ia me deixar na rua esperando outro táxi num sábado à noite.

Diante da minha cara de “concordo com tudo que o senhor falar, desde que eu saia vivo deste táxi”, ele começa a explicar o motivo do anti-cadeirismo. Disse que em uma ocasião teve que pegar uma senhora cadeirante dentro da garagem do prédio, e como a entrada dessa era baixa e o carro alto, teve que tomar muito cuidado e o carro “quase” raspou no portão. Apesar do movimento constante da minha cabeça para cima e para baixo em sinal de aprovação, o “bem intencionado” taxista ainda tentou me sensibilizar contando outro episódio onde sofreu nas mãos dos malvados cadeirantes.

Segundo ele, um cadeirante que tinha acordado com o pé esquerdo (ou seria a roda?) resolveu descontar no pobre taxista toda sua ira. Fiquei esperando ele dizer que o cara era revoltado por usar cadeira de rodas, mas dessa vez houve um breve silêncio. Num ímpeto de coragem e tremenda ousadia – tinha acabado de ver um filme do Charles Bronson – aproveitei a brecha e disparei:

“Ah, mas acordar um dia com raiva da vida pode acontecer com qualquer um, né? Independente de usar cadeira de rodas…”

“É”, ele concordou, “Pode acontecer com qualquer um”.

Mudo de assunto rapidamente, conto umas piadas e conversamos sobre amenidades. Logo chegamos ao destino, pago a corrida e me despeço do taxista, mas não sem antes dizer:

“Tá vendo, nem todo cadeirante é mal humorado!”

E ele: “É, pode ser”.

Saio tocando minha cadeirinha e anoto o número do táxi no celular para nunca mais pegá-lo.

Sobre o autor / 

Eduardo Camara

Se não está viajando, está pedalando. Muitas vezes, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

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