A importância de sentir-se útil
Eduardo Camara - segunda-feira, 9 de junho de 2008 - 12:38
Há pouco mais de uma semana, duas alunas do curso de psicologia da PUC foram até a empresa onde trabalho para conversar comigo sobre como é meu dia a dia por lá, se eu tive dificuldades para conseguir emprego e mais outras questões relativas a trabalho e pessoas com deficiência.
Acabei falando muito – como de costume –, mas depois fiquei com a sensação de que poderia ter abordado melhor alguns assuntos.
Poderia, por exemplo, ter falado mais sobre como trabalhar foi importante para mim há 9 anos atrás. Na época eu era estagiário e também fazia alguns trabalhos como free-lancer, o que me rendia o suficiente para meus gastos do dia a dia, saídas e pequenas viagens. Quando me tornei cadeirante, naturalmente, tive que me afastar temporariamente do estágio. Um mês depois, quando mal tinha começado meu tratamento de reabilitação, me deram um ultimato: ou voltava pro estágio ou cortariam a bolsa. Como ainda não tinha condições de trabalhar, acabei perdendo aquela fonte de renda justamente no momento em que mais precisava dela.
O pior de tudo é que, como estagiário, eu deveria ter um seguro contra acidentes pessoais, mas meu contratante não o tinha feito. Acabei saindo com uma mão na frente e outra atrás. Pensei em entrar na justiça, mas como o estágio era na própria faculdade, no NCE/UFRJ, e ainda teria que freqüentar aqueles laboratórios durante alguns anos para me formar, decidi não comprar a briga e me tornar “inimigo”, até porque eu precisaria da boa vontade deles para que rampas e outras adaptações fossem feitas na faculdade. Arrependo-me amargamente, pois fiquei sem o seguro e o NCE não moveu uma palha para fazer as adaptações que eu precisava.
Mas voltando à época do começo da reabilitação, no início de 1999, eu estava fisicamente, emocionalmente e financeiramente dependente. Não era capaz sequer de sair sozinho da cama para cadeira, não fazia mais estágio e era incapaz de encontrar um rumo. Sentia-me um completo inútil.
A grande virada começou quando um amigo me indicou para um projeto como free-lancer. O cliente ficava em São Paulo, e eu poderia realizar todo trabalho a partir de casa, usando meu computador, o telefone e a Internet para me comunicar. Até as reuniões seriam virtuais. E teria também flexibilidade total de horários, o que era estritamente necessário por causa das aulas na faculdade e sessões de reabilitação. Bati um papo por telefone com o tal cliente e fechamos o projeto, que começou logo em seguida. O cliente nem sabia que eu usava cadeira de rodas e isso foi muito bom para mim. Eu tinha sido contratado por ser um profissional bem recomendado, e não simplesmente para ajudarem um “pobre jovem recém cadeirante e precisando de dinheiro”. Sim, fez toda diferença! O projeto durou meses e foi um sucesso, mas o melhor de tudo mesmo foi voltar a trabalhar, ser tratado como profissional, ganhar meu próprio dinheiro e me sentir útil. Foi um dos meus primeiros grandes passos para independência.






Comentário feito por Christian Matsuy
sem dúvidas… apesar de trudo, temos que agir com a razão e se organizar o quanto antes… comecei a trabalhar ainda no colegial que fiz cadeirante e já digitava trabalho p/ um montão de gente, não fiz estágio, mas sempre fui atrás do meu din din… passei por uma situação idêntica, me contrataram e não sabiam que eu era cadeirante!
Comentário feito por Cristiana Costa e Silva
Concordo, voltar ao mercado de trabalho também foi excencial pra mim. Pena que ainda seja difícil para a maioria dos PPD’s, pois envolve ter vagas disponíveis, deslocamento, acesso, etc.
Muito bom o texto !
Abçs,
Cris
Mão na Roda respondeu:
Cris, também acho que o principal problema para as pessoas com deficiência é a falta de acessibilidade. Sem acesso, fica muito difícil estudar e trabalhar. Transporte público acessível já! Abraços, Eduardo.
Comentário feito por Leandro Ribeiro
É importantissimo trabalhar,o ditado que diz:O trabalho edifica o homem;é bastante verdadeiro!!
Abraços!!
Comentário feito por MarciaSDCorrea
Pois é, Eduardo. Acho que o processo de reinserção na sociedade passa muito por aí: sentir-se útil. Assim, a deficiência vira, na medida do possível permitido pela acessibilidade, apenas algo a mais.
Mas que ninguém se engane pensando que nascer com uma deficiência torna tudo mais fácil. Embora se tenha, em teoria, pelo menos, mais tempo para aprender a lidar com ela, as situações são praticamente as mesmas, especialmente no que depende da postura do outro ou da sociedade como um todo.
Mão na Roda respondeu:
É, Marcia… Se tivéssemos mais acesso, muito mais coisas seriam permitidas! E também concordo que há grandes dificuldades para pessoas com deficiência, independente dela ser de nascença ou adquirida. Nenhuma das duas situações é fácil. Abraços, Eduardo.
Comentário feito por andré mesquita gil
cabeça vazia, oficina do diabo..