Acessibilidade, Opinião e cotidiano

Sim, o local tem acesso

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Local com degraus coloridosUltimamente, os finais-de-semana têm me gerado assunto para posts. Por um lado, acho isso positivo, pois significa que temos saído bastante, por outro lado… Bom, eu ia dizer que por outro lado era ruim, pois os temas quase sempre são críticas a algum comportamento, mas não, vou me manter positiva e dizer que ao menos temos tido assuntos pra refletir. Pois então, esse domingo não foi diferente e chego a achar engraçado o que vou relatar aqui.

Já virou rotina pra nós, toda vez que somos convidados para algum evento, fazermos a pergunta básica: “o local é acessível”? Infelizmente essa pergunta ainda precisa ser feita, mas espero que algum dia ela não seja mais necessária. Enquanto esse dia não chega, vou colecionando os vários conceitos de “acessível” que descubro cada vez que a formulo.

Como vivemos num país em que a maioria das pessoas tem seu salário certinho para quitar todas as contas no final do mês, a resposta que mais ouço, quando faço essa pergunta é: “Sim, sim, é super acessível. A cerveja lá é baratinha.” Acreditem. Essa é freqüente! E já a ouvi de muita gente que sabe que meu namorado é cadeirante!

1º Conceito para acessível -> barato.

Existem também aquelas pessoas que sabem do que estou falando, mas que não têm muita noção do que seja um local com acesso e também respondem que sim, o local é acessível e meu namorado não encontrará problemas em entrar ou transitar por lá com sua cadeira de rodas. E lá vamos nós, felizes da vida, agradecendo pelas boas almas que constroem estabelecimentos com rampas e elevadores, só pra darmos de cara com cinco degraus na entrada (Ah! O que são cinco degraus, né?) e mais uma série de níveis e desníveis dentro do lugar. E nem precisamos falar sobre banheiro adaptado, né? Quem precisa dele?

2º Conceito para acessível -> apenas alguns degraus na entrada, mas nenhuma escadaria

Este fim-de-semana não foi diferente. Um grande amigo meu me convidou pra uma feijoada em Santa Teresa. No email, ele dizia com todas as letras: “o local tem acesso”. Fiquei me perguntando como é que alguém achou um lugar em Santa Teresa com acesso para cadeira de rodas? Um milagre! (Para quem não conhece, Santa Teresa é um bairro do Rio, situado todo num morro, formado por milhões de ladeiras estreitas de paralelepípedo, trilhos de bonde e sobradinhos no estilo português. Uma verdadeira Lisboa). Lógico que fomos com dez mil pés atrás, sem acreditar que poderia ser verdade. E tínhamos razão pra desconfiar. No alto da ladeira, ficava o tal sobrado. Porta estreita, degraus altos por todo lado, buffet no segundo andar, mas uma linda varanda, na qual tudo acontecia. Ufa! Depois de passar por todos os obstáculos, meu namorado conseguiu chegar à tal sacada na qual ficaria “preso”, enquanto eu subia para fazer os pratos pra gente. Mas pelo menos o espaço era bem amplo e a vista era bonita à beça! Meu amigo, que é muito educado, se desculpou horrores e disse que tinha se esquecido da montoeira de níveis da tal casa. Ele tinha certeza de que o local era acessível. Até brincou na saída com um dos donos: “Vocês não vão ganhar o selo de acessibilidade!”.

3º Conceito para acessível -> O núcleo da festa acontece em um local acessível, apesar do resto do local não o ser. Afinal de contas, por que o cadeirante vai querer circular por todos os ambientes?

Mais uma vez a gente se diverte, pede ajuda e espera que as pessoas presentes entendam a diferença entre acessível e “com uma ajudazinha dá pra entrar com cadeira de rodas”.  Quem sabe não tinha um arquiteto entre os convidados que entendeu o recado?

Sobre o autor / 

Bianca Marotta

5 Comentários

  1. Christian Matsuy segunda-feira, 21 de julho de 2008 em 14:07 -  Responder

    Coincidência…
    Esse fim de semana também fui convidado para um almoço, nem me reocupei pois falaram – "fulano mora em um apartamento, é tranquilo!" bom eis que chego e realmente tudo tranquilo, peguei o elevador e na hora que saí no hall do andar dele quem disse que minha cadeira passava? é até sacanagem chamar aquilo de hall, e o elevador dos fundos DESLIGADO. tive que retirar as rodas da cadeira e fazer a curva bem apertadinho!

    Abraços!

    julho 21st, 2008 - 14:07
    Mão na Roda respondeu:

    O pior é que os prédios atualmente são cada vez mais apertados. O cadeirante que tem amigos que moram em apartamentos recém-construídos mal consegue se mover por ele. Só fiquei com uma dúvida: como vc conseguiu fazer a curva sem as rodas da cadeira? bjos, Bianca

  2. Maria Enide Aranha Luz segunda-feira, 21 de julho de 2008 em 19:47 -  Responder

    "Acessível", com selo de acessibilidade nota 10 e tudo, tb é o fórum da minha comarca (Santo Antônio de Pádua-RJ).

    Quando se chega ao prédio do fórum, a primeira coisa com que o cadeirante se depara é um degrau. Além disso, não há banheiros acessíveis ao cadeirante, pois as portas são muito estreitas.

    Sei que o prédio atual é antigo e que há projeto p/ a construção de um novo fórum, que, certamente, terá acesso facilitado, mas quem concedeu esse selo de "acessibilidade nota dez" só podia estar de gozação…. Com certeza, nunca deve ter sentado em uma cadeira de rodas.

    Eduardo.

    julho 21st, 2008 - 19:47
    Mão na Roda respondeu:

    Realmente uma piada! Gostaria de saber quem é que concede esse selo… Aliás, é um bom tema para um post: o selo de acessibilidade. bjos, Bianca

  3. Christian Matsuy quinta-feira, 31 de julho de 2008 em 17:21 -  Responder

    olá Bianca!

    Respondendo a sua pergunta, tive que tirar as rodas traseiras dentro do elevador, e dai alguém vai carregando a cadeira igual "carrinho de mão", pra fazer a curva não dá trabalho não!

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