Que mané ”força de vontade”!

Homem abrindo a camisa e mostrando, por baixo, uma outra camisa com o símbolo de acesso - assim como o super-homemQuase todo dia escuto a frase “É isso aí, campeão!”. 

Campeão? Será que é o espírito olímpico? Não…

A questão é que basta sair de cadeira de rodas por aí para receber todo tipo de elogios – merecidos ou não. Qualquer coisa trivial que você faz é encarada como um dos doze trabalhos de Hércules. Você chega na padaria, compra meia dúzia de pães e o cara ao seu lado, com cara espantada, o olha como se você fosse um super herói, ou o primeiro homem a pisar em Marte. E o cadeirante, se sente como o primeiro marciano a pisar na Terra.

É claro que há um esforço adicional para encarar um mundo que foi feito para pessoas que andam e estão dentro de um determinado padrão, mas para quem adquiriu uma deficiência, depois do “choque inicial” ela é cada vez mais um detalhe, uma característica lembrada principalmente quando se depara com a falta de acessibilidade ou uma atitude preconceituosa. E quando falo em atitude preconceituosa, lado a lado estão os que acham pessoas com deficiência incapazes e os que nos consideram anjinhos puros e exemplos de força de vontade e superação. Também tenho direito de ser "mauzinho", ok?

Gosto de sentar com amigos à beira de uma mesa de bar depois do expediente, reclamar de coisas simples e cotidianas como o chefe chato (é apenas hipotético, ok chefinho?) ou o trânsito intenso que peguei na ida pro trabalho, além de me divertir falando um monte de besteiras. E também sou cheio de defeitos, e não me considero – nem de longe – exemplo para nada. Tomo meus porres e, nessas horas, os exemplos de superação e força de vontade vêm da Bianca e dos amigos que me agüentam!

Afinal de contas, por que eu seria um exemplo de superação? Simplesmente por sair de casa, trabalhar e pagar minhas contas?

Eduardo Camara

Se não está viajando, está pedalando. Muitas vezes, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

11 thoughts on “Que mané ”força de vontade”!

  • 19 de agosto de 2008 em 22:12
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    excelente post Dado, acho que muitos "se viram" dentro dele. Aliás uma vez assisti uma entrevista de alguém que não era cadeirante nem nada, mas não me recordo o que tal pessoa fazia, enfim ela dizia a mesma coisa.. que as outras pessoas a seguiam de exemplo, essa coisa de ser um ícone de alguma coisa e dai ela retrucou da mesma forma: "Heróis e exemplos não podem errar; e eu quero poder fazer coisas erradas!"

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  • 20 de agosto de 2008 em 14:56
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    Eu sempre acho q esta atitude das pessoas está ligada a uma culpa social. Ninguém prepara a calçada, pensa em como ser menos preconceituoso ou cria uma mentalidade de aceitação global das diferenças. Pelo contrário, as pessoas fingem que isso não existe. Quando vc cruza com um deficiente, vc endeusa a pessoa. "Nossa, ela conseguiu sobreviver a este mundo!" – este é o pensamento. Enfim, temos muito o que pensar e que mudar.

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  • 20 de agosto de 2008 em 15:29
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    Perfeito como sempre, Eduardo. Não sei se faz alguma diferença nesse caso, mas a minha deficiência é congênita, não adquirida. Também convivo todo o tempo com olhares e gestos de admiração. Acho estranho quando pessoas que eu nunca vi na vida me cumprimentam na rua sem razão aparente. Por exemplo, às vezes, quando saio com a camisa do meu time e vem alguém me dizer alguma coisa sobre ele, como se fosse um fato "curioso" eu torcer pra um time.
    Lembrei da minha formatura, ano passado, quando, no final, um sujeito (provavelmente pai de um outro formando) me cumprimentou e disse que eu era um "herói" por ter chegado ali. Herói por quê? Só porque eu estudei e tive o privilégio de ter pais que sempre me apoiaram e puderam pagar bons colégios e faculdade pra mim? Ele não sabia que a minha parte, na verdade, foi a mais fácil.

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  • 19 de agosto de 2008 em 19:53
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    adorei, me sinto igual a você a respeito desse tema, acho até que vou fazer uma camiseta dessa: como A SUPER PARAPLÉGICA, rsrsrs…

    Luciana

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    • 19 de agosto de 2008 em 19:53
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      Oi Luciana! A camiseta ficou legal, né? Acho que já tenho fantasia para o próximo carnaval! Abraços, Eduardo.

  • 21 de agosto de 2008 em 09:03
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    Sou tetraplégico e serventuário da Justiça fluminense. Ontem, no cartório onde trabalho, um advogado me disse que viu no programa do Serginho Groisman um quadro sobre superação, sobre pessoas que venceram dificuldades e ele queria me indicar para participar desse programa.
    O advogado disse que eu era um exemplo, que muitas pessoas em perfeitas condições físicas não têm nem a minha capacidade intelectual nem a minha força de vontade, etc.
    Educadamente, agradeci, mas disse que não gostaria de participar de nenhum programa de televisão.

    Eduardo Aranha

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  • 21 de agosto de 2008 em 09:21
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    Olá, Eduardo e demais leitores.
    Espero que não entendam como falta de educação ou arrogancia da minha parte discordar, em partes, da sua posição. Não que eu trate um cadeirante como super-herói mas um exemplo de superação sim. Eu vivo colocando impecílios na minha vida e se estivesse numa cadeira de rodas imagino que não teria metade do ânimo que vejo nos meus amigos cadeirantes, pois enchergaria dificuldades infinitas. Não é preconceito, nem exaltação mas existe sim uma admiração por encararem as dificuldades do mundo adaptado pra pessoas andantes, falantes e "enxergantes"…

    O blog é show! Parabéns pra vocês!
    Abraço

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  • 20 de agosto de 2008 em 19:25
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    Dado, frequentemente eu leio aqui coisas que me lembram da época da comuna do Amaury e suas sandices..lembra?…rs

    Esse seu post é uma delas. Uma vez uma mulher abriu um tópico pra enaltecer o heroísmo de nós, pobres super-heróis que teimam em viver como simples mortais. Daí, como sempre, resolvi me manifestar pra dizer que não existia heroísmo nenhum em viver minha própria vida, comum e normalmente, como qualquer um. E vc sabe o que veio depois, né…só faltaram me apedrejar, me acusaram de grosseria com a moça boa intencionada..rs

    Sabe que até sinto falta daquela época? Eu me divertia um bocado arruamndo briga com aquelee povo.

    Bjo, querido

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  • 21 de agosto de 2008 em 19:14
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    Acho que de fato, a princípio, há esse olhar diferenciado em relação ao cadeirante e ele acontece muitas vezes sem querer. Mas no convívio mais próximo com um cadeirante, a gente percebe que não existe diferença. Parabéns pelo post!

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  • 1 de setembro de 2008 em 11:13
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    Os andantes que fazem esse tipo de comentario acabam assumindo as dificuldades que um cadeirante passa pela falta de acesso. Hoje não é tão comum ter cadeirantes por aí e é por isso que o insentivo as pessoas a saírem de casa é bem vindo. Concordo com você em relação ao HERÓI, esse estatus de herói vem um pouco carregado de super correto, ético, perfeito..que não pecamos(sou cadeirante) e não e bem por aí..

    Se eu vou pro céu eu não sei, mas que eu tenho um terreno no céu eu tenho..(ganhei do pastor de uma igreja aqui da esquina) kkkkk

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  • 1 de setembro de 2008 em 19:01
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    Então sua fala me chamou atenção por dois motivos: o primeiro é porque gosto desse tema do preconceito velado diário a que somos submetidos, nós portadores de alguma dificuldade motora ou deficiência. Segundo, pela negativa de superação. E aqui ,gostaria de dizer que embora para nós não pareça existir superação, mas com certeza temos que admitir que sobreviver em ambiente que não foi projetado para nós é algo de muito, muito elogio. Você comentou sob seus hábitos cotidianos, tais como ir a padaria. Pois é já se deu conta de como essa ida seria prazenteira e menos desafiadora se os balções das padarias fossem baixos, permitindo acesso e uma melhor escolha, independente da boa vontade e dos olhares curiosos? Então vamos admitir somos heróis sim! Os nossos desafios são diários, e monstruosos. O que não tem nada haver essa nossa habilidade em superar obstáculos com os nossos defeitos. Que diga-se de passagem são tantos ou maiores que os nossos desafios diários. Um abraço. Eliana

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