Quero ser cobrada!

Menina apontandoÀs vezes penso o quanto nós, pessoas com deficiência, somos isentos de seguir toda e qualquer "obrigação" com a sociedade. O que quero dizer com isso é: se não trabalhamos, saímos, namoramos ou dirigimos ninguém vai achar nada demais. Talvez esse seja o "normal" para pessoas com deficiência. É como se a imagem padrão das pessoas em relação aos deficientes fosse a de que eles passam o dia em casa vendo TV e tomando sopa. De vez em quando dão uma saidinha, tipo uma ida na pracinha pra tomar um ar e ver a paisagem.

Mas se algum deficiente resolve "ousar" e sair de casa, trabalhar, estudar e se divertir, vira algo do outro mundo e um exemplo de superação! Talvez venha daí a idéia e imagem de que somos exemplos de superação e heroísmo. Ou o contrário. Não sei. Mas a impressão que tenho é que nada nos é exigido e tudo é perdoável. Se eu quiser ficar em casa coçando, tudo bem, afinal: "Coitadinha, ela é deficiente".

As pessoas ainda não entendem que a falta de desejo não é inerente à deficiência. Se alguém resolver que não quer fazer nada da vida, isso não tem nada a ver com ter ou não uma deficiência, mas sim com a falta de desejo. Ponto. Já vi muita gente "normal" levar uma vida extremamente vazia. E aí? Não, a deficiência não define a pessoa, o que a define são seus desejos.

É claro que ser deficiente num mundo pouco inclusivo e acessível é difícil, e às vezes enche o saco mesmo, mas não vou deixar de buscar o que me faz bem e feliz. Quero ser "cobrada" como todos. Não quero moleza. Como parte do meio em que vivo, quero contribuir e ser parte e não ficar "à parte". Quero exigir e ser exigida.

Abaixo a sopinha com televisão!

12 thoughts on “Quero ser cobrada!

  • 31 de outubro de 2008 em 19:58
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    bem interessante suas palavras… realmente elas têm todo sentido. eu faço a minha parte, eu exijo das pessoas cada qual a sua maneira e às vezes sou taxado de revoltado por isso, como se eu não tivesse o direito de fazer uma reclamação, de exigir algo melhor de ficar nervoso ou outras coisas que as pessoas ditas "normais" fazem… mas é isso ai! beijo!

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    • 31 de outubro de 2008 em 19:58
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      É Christian, as vezes é mais fácil para as pessoas acharem que somos revoltados do que entenderem de que estamos apenas "exigindo" nossos direitos. Mesmo assim não devemos desistir.Bjs,Cris

  • 31 de outubro de 2008 em 09:32
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    Desde antes do acidente sempre achei que tinha ‘dom pra ficar a toa’, mas essas minhas últimas férias do trabalho foi intediante, 1 mês sem produzir foi punk..senti falta da cobrança, dos compromissos. Realmente o que escreveu tem muito valor, se não fosse as rampas muito inclinadas, as calçadas sem preparo eu tinha esquecido que era deficiente físico..

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    • 31 de outubro de 2008 em 09:32
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      Oi André ! Concordo com você e sinceramente acho mais difícil e angustiante ficar sem fazer nada do que trabalhar. Voltar ao mercado de trabalho após o acidente não foi fácil, mas com certeza muito compensador. E realmente, não fossem as barreiras arquitetôicas, também iria esquecer que sou dificiente !Bjs,Cris

  • 1 de novembro de 2008 em 02:29
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    Eu acho que cada um deve ser cobrado na medida que pode, porém ninguém deve ser poupado das cobranças.

    Um exemplo claro do que digo é uma pessoa cadeirante ser cobrada quando a velocidade em que vai ao banco e volta, ou vai de um andar para outro do prédio. Não teria cabimento cobrar dessa forma, mas dentro dos prazos estabelecidos e cabíveis o deficiente deve ser sim cobrado.

    The Best
    http://www.thebest.blog.br

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    • 1 de novembro de 2008 em 02:29
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      Oi Luis, sim, respeitando as devidas limitações devemos ser tratados e cobrados como todos.Bjs,Cris

  • 2 de novembro de 2008 em 18:22
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    Oi, Cris…

    Bem, eu acho que as coisas estão mudando um pouco nesse sentido, felizmente. Era pior antes da pólio ser erradicada. A doença atacava crianças ainda bebês e aí, os pais, devido à falta de orientação, não só se "conformavam" com a fatalidade de seus filhos jamais poderem levar uma vida produtiva, como contribuiam para isso. Era comum ver famílias escondendo o deficiente dos estranhos, um deficiente trabalhar era inconcebível, namorar e constituir família então, nem pensar.

    Eu passei por algumas situações assim, infelizmente. Quando eu tinha uns 12 anos, meu pai me tirou da escola alegando q era bobagem eu estudar, já q eu nunca iria precisar disso na vida.

    Hoje as pessoas estão mais esclarecidas, os próprios deficientes lutam por seus desejos.

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    • 2 de novembro de 2008 em 18:22
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      Oi Rose, as coisas estão bem diferentes sim. Mas ainda se tem um longo caminho na pela frente. As escolas que deveriam ter um papel super importante na inclusão, não desempenham esse papel por falta de estrutura ou informação. Mas acredito que esse quadro esteja mudando e que cada vez mais teremos escolas e cultura inclusivas. Obrigada pelo seu comentário.Bjs,Cris

  • 4 de novembro de 2008 em 07:17
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    Meio atrasado mas nunca é tarde para enxergar.

    Um exemplo é a gratuidade.
    Sempre achei a gratuidade de passagens nos transportes uma abominação. Políticos que criam essas leis hipócritas e sentam-se sobre elas como paxás. O que é pior, constroem toda uma carreira política sobre esse absurdo.
    Que empresa de ônibus vai gastar dinheiro e adaptar seus carros, para no final receber em troca uma "gratuidade"?

    O deficiente físico que consegue sair de casa tem muito mais chance de conseguir trabalho, e quem trabalha não precisa andar de graça pra lugar nenhum. Até porque, como qualquer trabalhador, ele também ganharia o vale-transporte.

    Além do que, pagando as passagens o deficiente tem muito mais voz para cobrar as adaptações, o seu direito de ir e vir.

    As pessoas tem que enxergar além, e perceber que migalha de político nenhum serve para melhorar a vida de ninguém.

    http://bocadiurna.blogspot.com/

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    • 4 de novembro de 2008 em 07:17
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      Oi Marcos, também não sou a favor de política assistencialista. Acho que o melhor caminho é dar condições para que todos tenham acesso não só ao transporte público, como ruas bem adaptadas, etc. Não sou muito fã de ditados, mas tem um que diz que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe. É bem por ai que vejo as coisas.Bjs,Cris

  • 4 de novembro de 2008 em 20:40
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    eu vejo muito no meu dia a dia, um exemplo engraçado, trabalho numa produtora do humaita, e tenho que pegar um onibus e um metro, pois moro em jacarepagua, o onibus tem um que vai pela linha amarela e outro pela serra grajau jacarepagua, pego o linha amarela pois é muito mais rapido, nem uma, nem duas, nem tres vezes, entro no onibus e o motorista eo o cobrador, ao verem um cadeirante sendo colocado no onibus eles dizem, esse aqui é linha amarela, nnao passa no hospital cardoso fontes. o hospital fica na serra. poxa o deficiente nao é doente!!, sera que ele só pode sair de casa para ir se tratar no hospital, trabalhar nao?
    relevo pois sei que eles nao fazem de proposito, foram criados para pensarem assim!!! alguns buscam mudanças, outros aceitam ser desse jeito mediocre.deficiente faz tudo, ama, se diverte e….. trabalha!

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    • 4 de novembro de 2008 em 20:40
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      Oi Julio !Infelizmente muitas pessoas aindam vêem o cadeirante como doente. Mas accho que uma forma que temos de mudar isso é vivendo uma vida "normal". O contato com deficientes que levam a vida "normal" ajuda a diminuir o precobceito e a ignorância. Bjs,Cris

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