Exemplo de superação – deixemos isso pra novela das oito

Como contei em alguns posts atrás, nosso grupo se reúne vez em quando, pra um chopp. No nosso último encontro surgiram algumas histórias de vida – calma, gente, nada dessa coisa melodramática de “como sofri e dei a volta por cima após meu acidente, blablabla” menos auto-ajuda, por favor. Era um contando das agruras pra assistir às aulas da faculdade, que não tinha elevador, era outro falando da dificuldade de usar banheiro em certos lugares e por aí vai. Se algum repórter de programa de tv nos ouvisse, já estaria se coçando pra fazer uma matéria sobre exemplos de superação e histórias de sucesso. Ai, ai. Como isso me irrita.

Por outro lado, fiquei ali de fora, ouvindo aquilo tudo e me perguntando: “Cara, como é que esse povo tem saco e força pra ficar exigindo melhorias e ainda consegue correr atrás das coisas, ao invés de pedir pensão do governo e ficar em casa assistindo tv?” Logo percebi que a resposta estava na minha cara: se você é uma pessoa com a cabeça saudável, pensante, mas que por qualquer motivo que seja possui uma limitação física, não tem erro, você vai inventar um jeito de passar por cima dela pra continuar vivendo. Assim é a vida. Quem não sai do lugar, perde espaço pro cara do lado. É a lei do mais forte. Sem falar que, se você ficar parado em casa, enlouquece, né não?

Mas eu mesma já pensei várias vezes: “Se fosse comigo, não conseguiria. Jogava a toalha. Entrava em depressão (Acho até que, no meu caso, isso é bem provável, já que não bato muito bem da cabeça, hehehe). Desistia de vez!” Tudo balela! Pare e pense quantas vezes você já não passou por um tanto assim de situações, que achava impossíveis de reverter, nas quais você se sentia impotente e tinha certeza que a ladeira era dali pra baixo? Mas ainda assim, em algum momento, você se levantou e foi? Você se sente algum herói por causa disso? Diferente das outras pessoas?

E esse era o ponto onde eu queria chegar. Olhar pra pessoa com deficiência e imaginá-la como herói, como um exemplo a ser seguido, a transforma em diferente. E uma pessoa diferente, vai ter sempre muito mais dificuldades de se misturar na multidão. Ela está lá, no seu pedestal exemplar e você aqui, admirando a sua força de vontade (humpf!). Então vamos parar com essa palhaçada de exemplo de superação e deixar isso pros Jornais Nacionais e Globos Repórteres da vida. Que tal? 

Agora, se algum dia você precisar de um exemplo a seguir, olhe pra si mesmo. Com certeza você já se superou N vezes e sabe muito bem como repetir a dose, concorda? Quer exemplo melhor?

15 thoughts on “Exemplo de superação – deixemos isso pra novela das oito

  • 30 de abril de 2009 em 21:37
    Permalink

    Perfeito, Cris! Costumo responder que todo mundo tem capacidade de se recuperar de um grande trauma, e que provavelmente acabariam se virando de um jeito ou de outro caso algum dia adquirissem uma deficiência. A única diferença é que nós, cadeirantes, fomos forçados a testar essa hipótese 🙂 Beijos!

    Resposta
    • 30 de abril de 2009 em 21:37
      Permalink

      Oi Eduardo! Mas nem reconhece um texto da sua namorada, hein? hehehehehe. Brincadeirinha! Ainda bem que você gostou! beijos, Bianca

  • 1 de maio de 2009 em 12:47
    Permalink

    Bem, desta vez eu vo discordar bastante desse blog parceiro. Acho que o tom contra as histórias de superação que, por sinal, conto várias, foi um pouco exagerado. A meu ver, é fato que a pessoa com deficiência chegar a um cargo de chefia, por exemplo, em um país tão desigual, tão rude em condições básicas de acesso, é uma vitória e serve de espelho. Não estou dizendo que somos de um grupo ungidos e que devemos estar em um pedestal, mas viver com deficiência é muito, muito diferente do que viver com uma mancha na perna. Avalio que é preciso, sim, mostrar os casos de SUPERAÇÃO como forma de conscientizar sobre: "olha o que temos de passar e fazer para ser…. normais". Sinceramente, vou continuar mostrando casos como o do poeta fábio, da tabata, do billy, da natália… não posso concordar que eles são melodramáticos. Concordo, sim, que a TV torna tudo piegas e joga todos numa vala comum, mas se "irritar" com histórias de sucesso de gente que colhe tantas porradas…. sei lá…. achei complicado. Beijos

    Resposta
    • 1 de maio de 2009 em 12:47
      Permalink

      Oi Jairo,queria primeiro me desculpar pelo seu comentário não ter aparecido aqui no blog. Ele foi bloqueado pela ferramenta de blogs do Globo, provavelmente pelo uso da palavra “porradas”. Só percebemos isso hoje. Foi mal.Entendo seu ponto de vista, mas discordo em parte. Concordo que a vida de uma pessoa com deficiência não é igual à de pessoas “normais”. Concordo que por conta disso, existam milhões de dificuldades a serem transpostas, coisas que parecem bobas para os “normais”, às vezes são problemões pra quem tem uma deficiência. Mas o que quis dizer é que não acho que exultar as histórias dessas pessoas seja o caminho para a inclusão. Inclusão, a meu ver, significa tratar todos como iguais. E a partir do momento que transformamos pessoas com deficiência em “heróis”, elas deixam de ser iguais. Continuam à margem. Acho muito mais eficaz mostrarmos soluções de acessibilidade do que contarmos que essa ou aquela pessoa penou, penou e conseguiu. Isso não é bom. O ideal seria (continua…)

  • 1 de maio de 2009 em 16:20
    Permalink

    Muito legal Cris.
    Essa é a posição posição que eu defendo. Por isso detesto políticos hipócritas que vivem às custas da "causa" dos deficientes físicos. Criam leis paternalistas, onde a gratuidade dos ônibus são um dos maiores exemplos, que funcionam como entraves na vida de quem precisa trabalhar e andar numa cadeira de rodas ao mesmo tempo. Como vamos cobrar adaptações no ônibus se não pagamos passagens? O curioso é que se trabalhamos, ganhamos o vale transporte como todo mundo, ou seja, tem gente se elegendo e viajando para Europa com o dinheiro das passagens aéreas, graças a essa aberração.

    Resposta
    • 1 de maio de 2009 em 16:20
      Permalink

      Concordo com tudo que você escreveu, Marcos. Tb detesto políticos, jornalistas ou qq um que viva em função de falsas causas. Tb não sou a favor de leis paternalistas. Não incluem. Inclusão é tratar todos como iguais. bjos, Bianca

  • 2 de maio de 2009 em 00:45
    Permalink

    Bianca, o segredo é muito simples: no fundo, o que todo mundo busca é viver melhor. Isso pode até parecer egoísmo, mas é a essência da sobrevivência. Vivemos para sermos felizes, seja olhando para o próprio umbigo ou fazendo bem aos outros. Não vivo para ser exemplo para ninguém, apenas supero os problemas que vão surgindo enquanto busco meus objetivos. Cada um pode julgar se o seu objetivo compensa o esforço de superar os desafios. Ema, ema, ema, cada um com seu problema…. 😉

    Resposta
    • 2 de maio de 2009 em 00:45
      Permalink

      Disse tudo, Nick! Disse tudo! Por isso q achei importante escrever esse post. Tb acho que cada um supera o problema q o impede de sobreviver. Como vc mesmo disse, vivemos para sermos felizes, para termos prazer. A não ser que vc tenha alguma tendência a depressão, vai correr atrás do que te faz bem com unhas e dentes. Ema, ema, ema, cada um com seus "pobrema"!

  • 3 de maio de 2009 em 22:14
    Permalink

    Desde o começo eu pensei e penso assim: "nasci sozinha e definitivamente vou morrer sozinha e oque acontecer no meio desse caminho é lucro"… Mas concordo com todos. E por acaso vocês já notaram nas novelas, quando acontece alguma coisa com um personagem tipo dele virar cadeirante como Reinaldo Gianechini, aparece a escada e depois cortam a cena e ele já está deitado lá em cima no quarto. Depois de alguns capítulos o cara se recupera e começa a andar como se nada tivesse acontecido com ele? E na última novela das 19:00 hs que tinha o "excelência" o Jonhny Hebert andava com uma cadeira motorizada e ainda suvia escadas. Um absurdo! As novelas não mostram a realidade da coisa deixando os outros acharem que é muito fácil fazer uma transferência da cadeira de rodas para o carro ou mesmo para a cama… Não é possível que eu sou a única a assistir novelas e reparar nesses detalhes. :-S Meio "sem nada há ver com oque que foi comentado antes", né?!

    Resposta
    • 3 de maio de 2009 em 22:14
      Permalink

      Oi Mônica, tb sempre achei péssima a abordagem que as novelas dão aos personagens com deficiência. Muito fora da realidade! Até já escrevemos alguns posts sobre isso. Parece que a Band foi a única que inovou e colocou uma atriz cadeirante de verdade atuando, A Tabata Contri, mas fora isso é sempre uma decepção. bjos, Bianca

  • 3 de maio de 2009 em 22:26
    Permalink

    Não sei se escreví os nomes dos atores certo… Mas é oque eu reparo. E quando os outros acham que é SUPER, HIPER, MEGA simples para nos arrumarmos. Não sei quanto a vocês, mas qualquer atividade por mais simples que seja se antes eu demorava 10 minutos hoje gasto 60 minutos… Voltando para o assunto do texto, e eu que ADORO cozinhar resolví procurar um curso de gastronomia para mim (só que em Paris, o famoso "Le Cordon Blue") e eles me responderam que as bancadas de lá são de maiores do que 1 metro. Se na França é assim, como é que eu vou fazer aqui em Belo Horizonte??? Eu ADORO cozinhar ao contrário da minha diarista que mesmo eu pagando por fora e ensinando para ela como se faz uma "canja de galinha" ainda ficou horrível. Exigente? Não, nem um pouquinho é que a minha mãe passou muito mal segunda-feira passada e eu fiquei preocupada com ela, só isso… Mas a minha decisão vem de muito tempo atrás, eu fui criada meio que pra ser "Amélia" e nunca achei ruim disso. 🙂

    Resposta
  • 4 de maio de 2009 em 08:16
    Permalink

    Gente, esse blog tá cada vez melhor!

    Resposta
    • 4 de maio de 2009 em 08:16
      Permalink

      Valeu Ivone! Que bom que vc está gostando! bjos, Bianca

  • 5 de maio de 2009 em 20:54
    Permalink

    Bianca, a única vez que eu ví como um portador de deficiência física consegue subir escadas sem ter uma cadeira elétrica foi naquele filme: "Um lugar chamado Notting Hill", que tinha uma mulher cadeirante (não sei se você chegou a ver esse filme, senão é muito interssante, vale apena pegar na locadora! É um dos meus prediletos) que o marido dela a carrega escada acima. O nome dela era Bel e no final quando eles resolvem correr atrás do prejuízo, ela mesma fala para eles a deixarem e irem sozinhos, mas o marido dela fala: – Nem pensar!!! Você viu esse filme??? Beijossssssssssssssssssssssssssss 🙂

    Resposta
  • 13 de maio de 2009 em 23:21
    Permalink

    (continuação da resposta ao Jairo)
    O ideal é que ela não tivesse, em momento nenhum, que passar por essas dificuldades. E penso assim em relação a todas as instâncias da sociedade, não apenas em relação às pessoas com deficiência. Não sou a favor desse tipo de idolatria. Isso só separa, não une. Espero não ofender, nem gerar uma briga aqui. É só mesmo uma exposição de idéias. Fique sempre à vontade para comentar, ok? Beijos!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *