Deixa eu dar uma voltinha?

Bêbado na cadeira de rodas caído no chão - fonte Google ImagesTenho um amigo no trabalho que, vez ou outra, me para no corredor da empresa, aponta para minha cadeira e dispara: “deixa eu dar uma voltinha?”. E é claro que eu, como bom amigo que sou, já deixei algumas vezes.
Aliás, a maioria dos meus bons amigos já deu umas voltinhas na minha cadeira. Basta eu sair dela e sentar num sofá que os sujeitos, depois de umas duas ou três cervejas, sentam na cadeira e começam a andar pra lá e pra cá. Nada como um pouco de cerveja para descontrair. Eu acho aquilo engraçado, até gosto dessa intimidade e da naturalidade com que eles andam na cadeira, e só peço para lembrarem de trazerem ela de volta. A única diferença pro amigo que pede a cadeira no trabalho é que ele está sóbrio e nossos outros colegas de trabalho também. E é justamente com esse povo que nos divertimos mais!

Quase todo mundo acha um absurdo quando ele passa com a minha cadeira pelo corredor. Já eu, só fico triste por não poder ver a cara de horror dessas pessoas, porque quando ele chega e me conta, caímos na gargalhada!

Também lembro de um dia, em que eu o ensinava a empinar a cadeira. Ele, com um medo danado – o bicho é muito cagão! – tentava empinar a cadeira e colocar o pé no chão ao mesmo tempo, enquanto eu dava as instruções sentado numa cadeira de escritório. E num é que numa hora ele capota pra trás e fica como uma tartaruga com o casco virado pra baixo?

Nessa hora, como bom amigo que sou, corri para pegar o celular e tirar uma foto dele estatelado no chão. O brabo é que estava sem minha cadeira e o celular estava longe. Resultado: ele que ficou me sacaneando, porque eu não conseguia pegar o celular. Fiquei com raiva? Claro que não! Rimos ainda mais da situação ridícula. Ele de costas no chão, se escangalhando de rir, e eu tentando pegar o celular antes dele levantar!

Hoje não estamos mais na mesma equipe nem no mesmo andar, mas volta e meia nos encontramos no elevador lotado e ele pede, para espanto dos que estão em volta: “deixa eu dar uma voltinha?”

Eduardo Camara

Se não está viajando, está pedalando. Muitas vezes, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

19 thoughts on “Deixa eu dar uma voltinha?

  • 27 de maio de 2009 em 09:23
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    Dado, acredito que é dessa maneira que as barreiras vão se quebrando, não é?

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    • 27 de maio de 2009 em 09:23
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      Fala Evandro! Se não forem as barreiras, então pelo menos umas costelas, né? 🙂 Abração!

  • 27 de maio de 2009 em 10:04
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    Eu sempre fiz parte do odioso grupo de pessoas que ficam bizoiando os cadeirantes, nao por pena ou preconceito, mas sim pq sempre tive curiosidade em saber como essas pessoas conseguem de fazer tudo naquela cadeira, por admiracao e incredulidade mesmo!!e e claro, eu sempre quis dar uma voltinha!! mas sei la, deve ser estranho uma desconhecida chegar na maior cara de pau e perguntar se pode se sentar na SUA cadeira!!! hahaha…de repente, e ate uma cantada comum ne??

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    • 27 de maio de 2009 em 10:04
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      Oi Priscila! Odioso? Poxa, não é pra tanto… 🙂 E acho que só conseguimos fazer de tudo com a cadeira pq… precisamos! Acho que isso aconteceria com qualquer pessoa na mesma situação. E olha, cantada pedindo para dar uma voltinha eu nunca recebi, mas pra sentar um pouquinho no colo e descansar… 🙂 Abraços, Eduardo.

  • 27 de maio de 2009 em 17:13
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    hahaha eu me acabei de rir com esse tópico.
    Mas Edu, quanto desprendimento! Eu ODEIO que peguem minha cadeira. Muita possessividade minha, será? E a minha é daquelas automáticas, aí já viu. O povo acha q é uma especie de video game. Eu fico mega irritada.
    E uma dica: próxima vez, segure o celular qdo passar pra outra cadeira e não perca a foto!!!

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    • 27 de maio de 2009 em 17:13
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      Mila, deixa de ser possessiva, hehehe!!!Mas é claro que não deixo ninguém aloprar com minha cadeirinha. É só uma voltinha, no máximo! 🙂 Beijos!

  • 26 de maio de 2009 em 19:52
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    huahuauhauha, deve ter sido engraçado, pena que não rolou a prova material! Esses tombos não tem como não ser esquisito, o cara tentando proteger a cabeça e as pernas no ar indo direto pra uma cambalhota. Eu aprendi rapidinho a empinar, de bike eu andava qualquer tanto empinando em uma roda, tinha muito equilíbrio. Aliás, tinha não, tenho!

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    • 26 de maio de 2009 em 19:52
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      Rapaz, vc acredita que eu andava muito de bike, mas empinava com certa dificuldade? Não sei se com a cadeira é mais fácil ou foi a necessidade mesmo, ehehe! E sobre a prova material, tô providenciando… Eu sempre ofereço a cadeira pra ele quando saímos para beber depois do trabalho, ehehe! Abração!

  • 28 de maio de 2009 em 01:02
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    Tenho uma tia cadeirante e sempre tive vontade de dar uma voltinha na cadeira dela, mas como sou muito pesado (e alto tb), fico com medo de estragar a cadeira.

    Eduardo, da próxima vez tente tirar fotos, rs!

    Abraços a todos!!!

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    • 28 de maio de 2009 em 01:02
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      Gustavo, vou mostrar pro meu amigo todos os comentários daqui pedindo fotos. Acho que depois disso, ele vai até se voluntariar para tomar um tombo 🙂 Abraços!

  • 29 de maio de 2009 em 07:34
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    Adorei o texto.
    Tenho um grande amigo que usa muletas pois teve um cancêr em uma das pernas.
    No setor que trabalháva-mos, os funcionários tinham uma média de idade em torno de 23 anos.
    O pessoal pedia para usar as muletas, escondia as muletas, faziam uma série de brincadeiras.
    Em nenhum momento havia maldade nas brincadeiras e o meu amigo não era visto como deficiente.
    Bom, até hoje continuamos amigos.
    Parabéns mais uma vez pelo texto.

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    • 29 de maio de 2009 em 07:34
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      Obrigado, Monica! No meu atual trabalho o pessoal é mais sisudo e não brinca muito, tirando o que sempre pede pra dar uma voltinha! Já mas no anterior, volta e meia eu sentia a cadeira super pesada e tinha alguém atrás segurando enquanto eu andava pelo corredor. Sempre levei na boa e me sentia como todas as outras pessoas, que sacaneavam e eram sacaneadas. Abraços, Eduardo.

  • 28 de maio de 2009 em 19:57
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    Hauhauh!
    Adorei o texto! Realmente deve ser uma situação engraçada ficar olhando pra cara de espanto das pessoas, vendo você tratar aquilo com naturalidade.
    Todas as vezes que precisei andar de muleta por algum acidente, meus alunos adoravam brincar com elas. Tinha sempre um pai que mandava parar, dizendo que isso atraía. Só risos mesmo!
    Adorei o blog tb! Parabéns

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    • 28 de maio de 2009 em 19:57
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      Valeu, André! As crianças sempre encaram a cadeira de forma super natural. Os pais é que estragam! Obrigado pela visita e abraços!

  • 1 de junho de 2009 em 22:21
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    Nossa, me identifiquei totalmente com a foto do post! Recentemente fui pra Buenos Aires e testei como era usar o ônibus de lá (bus, pra eles), até pq lá há muito mais ônibus adaptados do que aqui, mas isso é um assunto a parte. Enfim, tentando subir a rampa que sai do ônibus para a calçada (lá em rampa, ao passo que aqui é uma plaraforma hidráulica) minha cadeira simplesmente deu uma cambalhota para trás e cai com a cabeça no chão da calçada. Minha mãe, desesperada, veio logo me socorrer e eu acabei entrando num certo desesperado tb, até pq me machuquei em uma país (pra mim) desconhecido, sem saber pra onde ir caso tivesse comlplicações em decorrência da queda. Até hoje, ainda bem, não senti nada de mais grave, mas já posso relatar que deu cambalhota de cadeira, ainda que involuntariamente! hehe

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    • 1 de junho de 2009 em 22:21
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      Oi Joana! Nunca capotei para trás na rua com a cadeira, mas já dei uma de super-homem algumas vezes por causa de buracos nas calçadas 🙂 Por sorte, nem eu nem você nos machucamos, mas teve gente que não foi tão feliz assim. Depois lê o recado que te mandei sobre BsAs. Conta suas aventuras por lá, menina! Beijos, Eduardo.

  • 5 de junho de 2009 em 21:33
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    Pois eu sou como a Mila, cadeira de rodas, pra mim, são as minhas pernas e ninguém nem mesmo a minha sobrinha me pediu emprestado. Depois estraga e quem arca com o "preju" sou eu, né?! E dinheiro aqui em casa ainda não está dando em árvore. Sou possessiva sim e com muito orgulho!!! 😉

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    • 5 de junho de 2009 em 21:33
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      Mônica, pense que "emprestar" a cadeira pra alguém pode representar um ato de grande confiança e amizade 😉

  • 5 de junho de 2009 em 21:35
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    Pena que eu não tinha chegado a ler o comentário do Thadeu que achou que ser "politicamente correto" é um saco. Tenho muito que aprender com ele e com vocês também… 😉

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