Buenos Aires

Nossa leitora Joana Roquette esteve em Buenos Aires e nos conta como foi a viagem!

Em maio deste ano decidi conhecer mais de perto nossos "hermanos" argentinos e rumei pra Buenos Aires (Bs As) sem saber muito bem o que me esperava por lá, já que se por um lado eu não tinha muitas informações sobre a acessibilidade da cidade, por outro imaginava encontrar uma estrutura urbanística ao menos melhor que a da cidade do Rio de Janeiro, em razão da fama que Bs As ganhou por ser considerada a capital mais civilizada da América do Sul.

Circulando pela cidade 

Puerto Madero e Florida - Buenos Aires

Ao andar pelo centro, onde fiquei hospedada, percebi que o meio fio de algumas calçadas não são rebaixados e sentiria alguma dificuldade de fazer os percursos sem o auxílio de outra pessoa. Como a minha mãe estava comigo, ela pode dar aquela forcinha extra pra me ajudar. Já em toda a extensão de Puerto Madero e da rua Florida – dois famosos pontos turísticos de Bs As -, não vi obstáculos e o passeio por esses lugares foi bem tranquilo. Seguindo pela Florida, que é uma rua bastante extensa, há como chegar na Plaza de Mayo, onde fica a Casa Rosada, outro ponto a ser visitado, sem a necessidade de pegar táxi ou ônibus. Mas o caminho é longo, são muitas quadras. Só me dei conta disso quando minha mãe começou a reclamar do cansaço, porque como uso cadeira motorizada às vezes acabo perdendo a noção de quanto andei.

San Telmo e Caminito - Buenos Aires

Passeei ainda por San Telmo, onde há uma feira de antiguidades bem interessante aos domingos, e por Caminito. Nesses dois lugares as calçadas são bastante estreitas e, como as ruas são fechadas para carros, os pedestres caminham por elas. Acontece que todas têm piso de paralelepípedo, que são menos irregulares em San Telmo, mas bem piores no Caminito. Acho viável andar por essas ruas, mas não é nada confortável, já que os espaços entre os paralelepípedos fazem com que a cadeira pare a todo o instante… Tirei fotos de ambos os lugares, onde é possível ver melhor ao que estou me referindo.

Terminando a viagem, fui visitar o Jardim Zoológico (o segundo maior do mundo) e o Jardim Japonês (lindo!), ambos localizados no bairro Palermo, na minha opinião um dos bairros mais sofisticados da cidade e onde me senti mais confortável para transitar entre as ruas, que possuem calçadas bastante largas e de piso lisinho, lisinho. A entrada nos jardins, tanto para o cadeirante quanto para um acompanhante é gratuita, e é possível conhecer muito bem os dois sem grandes problemas, principalmente o zoológico, que é praticamente todo plano.

Por fim, procurei por banheiros adaptados nos lugares, mas me deparei com pouquíssimos deles. O mais fácil é encontrá-los em shoppings, como por exemplo as “Galerias Pacífico”, no microcentro.

Transportes 

Usei os táxis em algumas ocasiões, para me deslocar para pontos mais distantes do centro. Não soube de nenhuma empresa ou cooperativa com táxis adaptados para cadeirantes (como os que existem em SP e RJ). Acontece que em Bs As há inúmeros táxis do tipo “mini van”, como Kangoo, Berlingo e etc. Quando queria sair de táxi, eu ligava pra recepção do hotel e pedia pra que eles entrassem em contato com a empresa com qual eles têm parceria (qualquer hotel tem esse tipo de serviço) pra pedir um carro grande, com mala vazia (sem gás). Eu usava a expressão que me ensinaram por lá: “camioneta com baú vazio” e sempre vinha um táxi grande em menos de 10 minutos. Como minha cadeira é motorizada e difícil de ser desmontada para entrar em carros menores, achei essa solução ótima, porque assim a cadeira podia entrar inteira nos carros.

ônibus acessível em Buenos AiresA respeito dos ônibus, observei que a grande maioria da frota é adaptada e possui o símbolo internacional de acessibilidade. Acontece que minha experiência pessoal ao tentar pegar um desses ônibus por lá foi péssima. Explicando: enquanto aqui no Brasil (pelo menos no Rio) os ônibus adaptados vêm com plataformas hidráulicas que baixam até a altura da calçada para possibilitar a entrada do cadeirante e depois sobem até a altura do piso do ônibus; em Bs As a coisa é um pouco diferente. Lá os motoristas de ônibus procuram parar bem perto do meio fio e o próprio ônibus rebaixa um pouco, para ficar mais próximo da calçada. Depois disso, abre-se a porta do meio, de onde sai uma rampa bem íngreme e com um pequeno ressalto ao final, já perto do piso do ônibus. Quando eu estava subindo a rampa e me deparei com o ressalto, tratei de avisar a minha mãe pra ficar na retaguarda, pra que a cadeira não tombasse pra trás. Só que ela estava há alguns metros de distância, tirando foto da minha peripécia, e não me ouviu. Conclusão: eu, presumindo que ela tinha ouvido, acelerei com toda a força a minha cadeira, que deu uma cambalhota pra trás e me deixou caída com a cabeça na calçada. De pior foi só o susto mesmo, porque nada demais aconteceu comigo. A observação que acho pertinente fazer é que o motorista do ônibus que eu ia pegar (acabei desistindo de embarcar, depois do ocorrido) não saiu do assento antes de me ver caída no chão. Só saiu do ônibus mesmo pra me ajudar a levantar. Não sei se isso é comum por lá, mas se o motorista tivesse se prontificado a me auxiliar para subir a rampa a estória seria outra. Ah, não há trocadores de ônibus por lá, só motoristas mesmo, porque o sistema de cobrança lá é “automático”, é só colocar moedas no lugar próprio e pronto. A respeito das estações de metrô, não tenho ideia se são ou não adaptadas, mas passei por duas delas e só vi escadas comuns na entrada, portanto acredito que nem todas sejam acessíveis.

Moral da estória: Sem dúvida a cidade de Bs As é uma evolução em termos de acessibilidade se a compararmos com o Rio de Janeiro, só que ainda deixa a desejar sob vários aspectos, como a quase ausência de banheiros adaptados, a despreocupação quanto ao piso em San Telmo e Caminito e quanto ao rebaixamento das calçadas. De toda forma, é um belo lugar pra se conhecer e acho que vale a pena se aventurar um pouco, ainda que para isso tenhamos que transpor esses obstáculos, tão comuns para nós cidadãos cadeirantes brasileiros.

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Fez alguma viagem interessante e quer contar por aqui? Mande um e-mail para maonaroda.blog@gmail.com!

Comentários

Comentários

3 comentários em “Buenos Aires

  • quarta-feira, 8 de julho de 2009 em 23:42
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    Parabéns à Joana pelo relato objetivo, sincero, rico de informações e dicas sobre Buenos Aires! Que outros sigam o exemplo e se animem a compartilhar suas experiências por aqui.
    Não sou cadeirante, mas gosto muito deste blog. É bem realista, ajuda a quebrar preconceitos….Tudo de bom…

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