Espaço do Leitor – Experiências de uma novata no mundo das 4 rodas

Recebemos na semana passada um email da nossa leitora Aline, contando como foi seu primeiro encontro com Dudu, cadeirante com quem anda "de rolo". Ela é "andante" e se surpreendeu bastante com a reação das pessoas ao seu encontro. Achamos o texto bastante legal e por isso, resolvemos publicá-lo aqui.

"Oi, gente! Vou escrever sobre assuntos que vocês já abordaram aqui. Mas que posso fazer se só encontrei o blog agora? É que conheci, há pouco tempo, um cadeirante que fez meu coração acelerar, e aí, já sabem… Desde então, fico intrigada com a curiosidade mórbida das pessoas e com o preconceito com que olham para um cadeirante.

Confesso que, apesar de observadora, sou muito desligada para certos assuntos, por isso me surpreendo com a curiosidade da galera. De um modo geral sou discreta e não costumo fazer perguntas que julgo “íntimas”, como por exemplo, “Quanto você ganha?”. Tem coisa que, definitivamente, não é da conta de ninguém.

Bem, no dia que conheci o Dudu, olhei pra ele e o achei um gato. Ponto. Lembro que estávamos num show, o vi chegando e pensei “que cara lindo, que olhar lindo”. E minha preocupação foi descobrir se ele estava acompanhado. Sim, porque não dava pra azarar um cara acompanhando, né? O "detalhe" da cadeira eu só vi depois. Depois que descobri que ele não estava acompanhado. Depois que trocamos alguns olhares, um sorriso. Depois, enfim, de todos os passos de uma azaração. Passei a noite acompanhada de um homem, não de um cadeirante.

Mas as pessoas do local ficavam me olhando e pareciam querer dizer: "Puxa, tão bonita e vai escolher logo um cara assim?" ou "Deve estar encalhada mesmo, né? Catou logo o aleijadinho". Sério, em duas horas recebi tantos olhares e tantos tapinhas nas costas… Até que ele me disse pra ir me acostumando, pois é assim: todos acham cadeirante bonzinho. E acompanhante também. Acho que foi nessa hora que me lembrei "ih, é! ele é cadeirante".

Apesar de ter sido o 1º cadeirante que conheci, todas essas reações me chamaram a atenção. Os que passavam perto da gente davam um tapinha nas costas dele. Como quem diz: “Nossa, como é bom ver que ele tenta ser igual a todo mundo, né?". Pô! Ele não "tenta" ser que nem todo mundo. Ele sabe que tem uma lesão medular, sabe que está preso pra sempre numa cadeira de rodas e também sabe que ainda não morreu. Qual o espanto de ver um cara de 36 anos na noite carioca?

Bem, fiquei encantada com ele e, claro, comentei com outras duas amigas: “conheci um carinha super legal”. Uma delas, depois de uma semana, me perguntou se havíamos marcado alguma coisa. Diante da minha negativa, ela sugeriu: "Convida ele pra dar uma caminhada na praia, tem feito umas noites tão lindas". Então, expliquei que pra ele é meio complicado "caminhar na praia". Foi impressionante a cara de espanto dela. E das demais pessoas em volta, porque todos em nossa mesa ficaram sabendo que eu estava de rolo com um cadeirante.

Não perguntei sobre o acidente logo de cara, pois sabia que seria um papo que surgiria naturalmente. E também porque em 2004 sofri um acidente de moto e a coisa mais detestável nas primeiras semanas era atender aos telefonemas e explicar pra um, pro outro, pro outro… no final do dia, havia contado a história 150 vezes. Paciência não é muito meu forte, então, quando alguém do trabalho me ligava e perguntava, dizia logo: chama todo mundo aí e põe no viva-voz. Só então contava pro departamento todo de uma vez.

Como disse, minha experiência com um cadeirante é recente, mas já deu pra sacar que o preconceito é imenso, as informações são poucas e ainda tem muita gente mal-educada. E ainda dizem que foi o lesionado que perdeu a sensibilidade… Qual o problema em se pensar duas vezes antes de fazer um comentário maldoso, uma pergunta indiscreta ou mesmo ser monotemático e só conversar sobre um assunto (o acidente, no caso)?

Dentre esse monte de chatice, tem uma que até me faz rir, essa história de pensarem que cadeirante é bonzinho ou que eu, por estar ao lado dele, sou praticamente uma voluntária do "Viva Rio" e estou me esforçando pra fazer este mundo melhor. É tão difícil assim entender que eu gosto do cara e pronto? Madre Tereza de Calcutá? Eu?!

No dia dos namorados, "roubei" uma figura do blog de vocês e coloquei-a no meu com os dizeres: "para ele, com carinho". Recebi um monte de comentários, sempre com o tom de: "que pessoa incrível você é…". Nem publiquei todos porque talvez ele não gostasse. Mas duvido que tantas pessoas iriam comentar, se eu fosse amarradona num roqueiro e colocasse a figura de uma guitarra lá. Duvido!

Ah! E que ele não é assim tão bonzinho, não… me trata como qualquer outro ficante que tive. Inclusive com as esnobadas esporádicas. Ele é homem, né? Não virou um homem bozinho quando sentou naquela cadeira.

Escrevi pra caramba. Acho que tava precisando desabafar e falar um pouquinho de como algumas coisas me causam estranheza.

Beijo pra todos.

Aline

PS: Será que se eu andasse com uma plaquinha "Tomo antidepressivo", as pessoas me dariam tapinhas nas costas?"

Comentários

Comentários

16 comentários em “Espaço do Leitor – Experiências de uma novata no mundo das 4 rodas

  • quarta-feira, 8 de julho de 2009 em 13:43
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    Oi Aline e todo pessoal do blog!
    Não sou cadeirante mas acompanho esse mundo pois nasci perto de 2 tios com deficiencia. Por isso sei bem o que minha mãe (irmã deles) e meus avós passaram com preconceitos, olhares, julgamentos, etc.
    Porém, o que tenho pra falar pra vcs é que nem tudo está perdido, pois eu, quando vejo por exemplo um casal como você e seu namorado, o que eu sinto é orgulho e alegria por saber que mais gente, assim como eu, deixou de lado os pré-conceitos, e está curtindo a vida ao lado de gente que pra maioria é digna de pena, mas que na verdade são seres humanos comuns, admiráveis, dignos de dar e receber amor, e com todos os seus defeitos e qualidades!
    Portanto, certamente no meio de tantos olhares, alguns são olhares de alegria e esperança de que um dia, todo mundo vai viver plenamente a vida, livre de qq barreira social, arquitetônica, etc!
    Beijão!

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    • quarta-feira, 8 de julho de 2009 em 13:43
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      (continuação da resposta acima)O que eu faço é olhar, seja para o gatinho, seja para outro cadeirante, como uma pessoa, que nem os verbos intransitivos: não precisam de complemento, sabe? Não é uma pessoa com deficiência. É uma pessoa.

  • quarta-feira, 8 de julho de 2009 em 13:50
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    Ahhh e acho também que o "tapinha" nas costas não precisa necessariamente ser encarado como algo ofensivo! Na verdade pode ser encarado com oum grande "Parabéns, cara! No meio de milhares ou milhões de deficientes fisicos desse Brasil, você é um que está aí, curtindo sua vida, mesmo tendo que enfrentar tantas dificuldades!". Eu, aqui dentro de mim, dou mesmo meus parabéns a todas as pessoas portadoras de deficiencia que saem de casa e VIVEM, pq nem eu mesma sei se seria capaz e conheço muita gente que não é capaz! Nós, que não temos deficiencias físicas e visíveis, já temos vários dos nossos bloqueios bobos com a vida, não namoramos ou não saimos pq estamos "gordos" ou "feios"… Admiro sim, assim como admiro as pessoas ditas "normais" que são desencanadas e não perdem tempo com bobagens!
    Parabéns pra todo mundo!
    Beijos de novo!

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    • quarta-feira, 8 de julho de 2009 em 13:50
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      Flávia,claro que há pessoas que resistem ao primeiro (e até compreensivo) impulso de sentir pena de quem está numa cadeira de rodas e as enxergam como uma pessoa. Você aprendeu isso em casa e certamente sabe como são chatos os olhares de pesar. Em relação aos inúmeros tapinhas nas costas, não encarei como algo ofensivo, mas como uma forma de preconceito disfarçada, sabe? Sim, porque as pessoas adoram falar em superação, em dar a volta por cima, mas nem sempre é assim: mesmo com mil problemas, um "andante" sai de casa e vai à festas, não é? Por que não pode ser assim com um cadeirante? Não acho legal tratar um cadeirante (ou um sobrevivente de um câncer, ou um surdo-mudo, ou um deprimido, ou qualquer um de nós que tenha passado por algo traumático) como um super-heroi. Super heroi era o Betinho que lutou tanto para diminuir a fome de milhões de brasileiros.O que eu faço é olhar, (continua abaixo…)

  • quinta-feira, 9 de julho de 2009 em 22:35
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    Aline,

    Que ruim que o rolo acabou…
    Mas que bom que trouxe coisas boas…

    Como costumo dizer: pra frente é que se anda…
    Ou rola, empurra, vai de cadeira, carro, onibus, a pé, de bicicleta, monociclo… ultimamente só não ando sugerindo avião… rs
    O importante é ir…

    Beijinho!

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    • quinta-feira, 9 de julho de 2009 em 22:35
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      Ju, to vendo os preparativos do show do Roberto Carlos e me deixei influenciar na resposta. Então, se acabou e eu fiquei um pouquinho triste, não tem problema: SE CHOREI OU SE SORRI, O IMPORTANTE É QUE EMOÇÕES EU VIVI. Beijão

  • sexta-feira, 10 de julho de 2009 em 08:09
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    Oi Aline. Desculpe mas eu não concordo muito com o que vc disse não… Numa boa, eu acho que admirar uma pessoa, ter orgulho dela, dar "Parabéns" pra essa pessoa de forma alguma significa achá-la um super-herói. Isso é a coisa mais nobre do mundo, não ter pena, não ter preconceito, não ter nada além de uma simples e pura admiração. Admiração que não é sentida apenas por um cadeirante, por um sobrevivente de um cancer, mas tb por pessoas que sabem encarar a vida de forma saudável e gostosa! Mesma admiração que eu tenho pelos meus avós que lidaram com os DOIS filhos deficiences de forma linda! Tanto que um deles tem 61 anos e minha vó 82, e cuida dele com o maior amor do mundo até hj (ele é deficiente fisico e mental também). Superou todos os medicos que não queriam cuidar dele por qq outra doencinha, dizendo a ela que se desse por satisfeita se ele morresse "amanhã" pq já tinha vivido demais pra condição dele… Isso é admiração, orgulho! Mas ela tem mil defeitos e está longe (MUITO LONGE) de ser super-mulher!

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  • sexta-feira, 10 de julho de 2009 em 08:19
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    E ao contrário do que vc pensa, muitos "andantes" cheios de problemas não saem não! Nem vão a festas, se enfiam num buraco de depressão e se "protegem" do mundo. Isso pode acontecer com um andante que passe por problemas, que podem até ser pequenos na opinião de outras pessoas, e com cadeirantes tb, com qq pessoa. E eu tb olho num primeiro momento pras pessoas apenas como pessoas, sem complementos. Jamais daria um tapinha nas costas de ninguém, só falei aquilo tudo pq acho que todo mundo, sejam portadores de deficiencia ou não, deve tentar olhar pras reações das pessoas nem sempre como algo pejorativo ou como preconceito mascarado… Lógico que alguns casos são mesmo, mas outros nem tanto e já estamos tão condicionados a viver na defensiva (eu tb me incluo nisso) que deixamos de perceber estes casos que não são preconceituosos.
    Enfim, não quero discutir não, estou só batendo um papo aqui no blog, mas respeito a sua opinião, apenas não concordo 100%. Bjs!

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    • sexta-feira, 10 de julho de 2009 em 08:19
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      Flávia, não imagino que ninguém iria concordar comigo. Aliás, fiz que nem você: passei por aqui, li alguns posts, comentário e resolvi escrever sobre uma coisa que acabara de me acontecer. A Bianca gostou do texto e publicou. Antes pediu-me autorização mas nem precisava: foi um prazer dividir uma experiência com outras pessoas. Faço isso todos os dias no meu blog. E é lá que também saio da defensiva: exponho meus pontos de vista, leio os comentários, reflito e muitas vezes modifico meu ponto de vista. Beijo grande.

  • sábado, 11 de julho de 2009 em 20:40
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    OI aline!

    Pois é guria, tem cada situação que só rindo..

    Meu nome é Milton, sou cadeirante também sei o que tu passou. Mas com certeza como mulher ele te fez feliz afinal somos chamados de "especiais"! eheheh!!

    abraço

    Resposta
    • sábado, 11 de julho de 2009 em 20:40
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      Milton, um segredo: ele é que me faz sentir especial.

  • segunda-feira, 13 de julho de 2009 em 13:59
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    Adorei!!! Gostei muito mesmo do texto e acho q mais deles deveriam ser colocados no ar. Realmente, é assim mesmo. Mas vale sempre frisar que o cadeirante é um homem como outro qualquer, assim como a cadeirante. Podem ser super legais na relação, mas tb dar perdidos, dar tocos, etc.

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  • quarta-feira, 15 de julho de 2009 em 09:28
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    Aline, comigo tb é assim. Gente q nunca vi passa e dá tapinha nas costas do meu marido. Não sei pq ele não candidata a vereador, se todos q dão tapinha votassem nele, já estava eleito. Pior qdo vem um desconhecido puxar papo, perguntar do acidente, qdo ele vai voltar a andar e claro sempre termina dizendo q se for a tal igreja ele "se cura" rapidinho. Ele tem muito mais paciencia do que eu pra essas coisas. As vezes, educadamente eu digo para o inconveniente: com licença, o senho pode, por favor, encher o saco de outro?

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  • sábado, 1 de agosto de 2009 em 19:32
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    Oi Aline!

    Como você escreve ben! Gostaria de poder ler seu blog. Qual é o endereço dele?

    PS: no mais minha opinião já foi expressa por outras pessoas nos diversos comentários acina. Por isso seria redundante expressá -la aqui.

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  • quarta-feira, 7 de outubro de 2009 em 01:00
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    Aline! Simplesmente amei seu post, morri de rir. Pareceu um "mini flashback". Já passei muuuito por isso e várias vezes já disse "Não sou a Madre Tereza!!!!" Eu namoro um cadeirante há quase 6 anos e é incrível como todas as pessoas do círculo de amizades da família dele, não os amigos dele em si, os amigos dos pais, me amam, sem nem me conhecer! Pode isso??? Eu já cansei de dizer que não sou a "namorada do Felipe, sou a Camila!!!" Mulher como qualquer outra e que estou com ele simplesmente porque ele lindo e gostoso. Ponto final! Não é caridade!!!!! Dá vontade de gritar isso não dá? Nossa… E como eu me irrito em festas, bares, qualquer lugar onde as pessoas olham daquele jeito que tu sabe qual… até hoje me irrito! Encaro, faço cara feia e quando estou naqueles dias, chamo atenção da pessoa. Vou tatuar na testa "não sou santa" Acho incrível como as pessoas são preconceituosas. Há pouco tempo decidi que vou casar com ele… Já estou me preparando psicologicamente com as caras que vou ver na festa. Imagina?

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