Opinião e cotidiano

Será que mudamos?

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Sabe, quando você acorda, fica olhando pro teto e pensando na vida? Pois é, outro dia eu estava assim, e fiquei divagando sobre o quanto mudei depois da lesão. Como eu era e pensava antes, e como sou agora. Será que mudei mesmo? Ou apenas amadureci? Não dá pra pensar que ao se passar por um evento desses, se sai impune. É claro que há uma mudança. Mas será que mudou quem eu era, ou apenas acentuou determinadas características?

Já ouvi muita gente falando que antes da lesão era uma pessoa feliz, e depois ficou triste e deprimido. Acho que não preciso ficar discursando sobre o quanto a vida muda após uma lesão medular. Mas será que a pessoa era realmente tão feliz assim, ou apenas idealiza por se ver numa situação cheia de limitações?
As coisas mudam sim, mas não me sinto infeliz e miserável. Fico enlouquecida com a falta de acesso, transporte público, calçadas sem rampas e falta de respeito com as vagas marcadas. Mas não com a lesão. Talvez sublime isso pelo fato de que é algo irreversível. Não adianta ficar lutando. Não vou sair andando por aí, então vou me irritar e me preocupar com o que posso mudar.

Mas voltando as mudanças. A reação da pessoa e o tempo de resposta de cada um é diferente. Conheci pessoas que em menos de 6 meses já estavam voltando às suas atividades e retomando suas vidas. E conheço outras com anos de lesão que ainda não superaram. Continuam reclamando como se a deficiência fosse maior que a vida. Uma pessoa que já tinha atitude independente e era dona de sua vida, não vai manter a mesma postura depois de uma lesão? Talvez sim, talvez não. Mas acredito que essa postura venha da escolha que fazemos diante de qualquer situação limite: ou lidamos com isso e seguimos em frente da melhor maneira possível, ou vamos ficar remoendo algo que não tem solução, e aí sim fica difícil ser feliz.

Sobre o autor / 

Cris Costa

15 Comentários

  1. Enciclopédia_BFR segunda-feira, 10 de agosto de 2009 em 13:54 -  Responder

    Faço minhas as suas palavras.
    Parabens pela lucidez.. a vida não quer saber se estamos felizes ou tristes.. ela apenas passa. Quando nos damos conta, 8 ou 10 anos já se foram..
    abraços!

    agosto 10th, 2009 - 13:54
    Mão na Roda respondeu:

    É isso ai, o tempo não para e temos que fazer de tudo pra aproveitar a vida da melhor forma. Bjs, Cris.

  2. Marcia de Souza Dias Correa segunda-feira, 10 de agosto de 2009 em 15:10 -  Responder

    Oi, Cris!
    Enquanto lia seu texto, pensava no meu pai.
    No finzinho do ano passado, descobrimos que ele é doente renal crônico! Depois de alguns dias no CTI e um baita susto inicial, muitas recomendações e orientações para a alimentação. Somados a três sessões de hemodiálise/semana.
    E quer saber? Ele lida muito bem com tudo. Reorganizou todo o resto de acordo com o tempo livre que tinha e pronto!
    No fundo, acho que a tal opção a ser feita é inerente a qualquer momento de nossas vidas na qual nos vemos obrigados a olhar pra trás e saber que dali em diante há que se reorganizar a vida… Pra quem casou ou descasou, pra quem trocou de emprego, de país, pra quem virou pai/mãe. E pra quem passou a ter uma deficiência também…
    E eu ainda acho que simplifico demais as coisas… Será? rsrsrs

    agosto 10th, 2009 - 15:10
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Marcia, acho que as pessoas é que complicam demais, rs. Muito legal a postura do seu pai. Conheço pessoas que não teriam a mesma atitude. E sim, a escolha é diante de qualquer situação! Bjs, Cris.

  3. JAQUELINE MORAES segunda-feira, 10 de agosto de 2009 em 15:52 -  Responder

    Cris, boa abordagem esta de pensar se a pessoa era realmente tão feliz antes da lesão. Acho que as mazelas da vida nos entristecem, mas não devem jamais tirar nossas alegria de viver. Acho que o triste sempre será triste… oinde quer ou como quer que esteja!

    agosto 10th, 2009 - 15:52
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Jaqueline, também penso assim. Mas há quem discorde. Bjs, Cris.

  4. Christian Matsuy terça-feira, 11 de agosto de 2009 em 13:40 -  Responder

    eu tinha um estilo de vida muito diferente antes da lesão, foi uma mudança extremamente radical pra mim. Mas desde o início fui buscando as alternativas e me adequando a situação de cadeirante e em um ano eu estava ativo, saindo, estudando, e outras coisas mais.

    agosto 11th, 2009 - 13:40
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Christian, eu demorei um pouquinho mais, rs. Mas acho que o importante é isso: se adaptar e seguir em frente. Bjs, Cris.

  5. Rosana palermo Schweter terça-feira, 11 de agosto de 2009 em 17:18 -  Responder

    Olá, pessoal do "Mão na roda",
    Já passei por situações difíceis que me transformaram emocionalmente, como todos nós, creio eu. Porém, até agora, nada que me alterasse fisicamente. Mesmo assim, penso muito sobre isso por causa da minha convivência com deficientes.
    Quando li o que a Cris escreveu: "Mas será que mudou quem eu era, ou apenas acentuou determinadas características?" Bateu direto nas minhas próprias reflexões.
    O conformismo com a situação física imposta pela lesão tem se mostrado mais eficaz do que ficar se lamentando. Bola pra frente! Concordo com você, mas pergunto: E o conformismo emocional? Pouco se fala sobre ele, não?
    Às vezes tenho a sensação que o esforço é tão grandioso para se incluir nos espaços físicos que se deixa um pouco de lado os esforços para se colocar no mundo das relações sejam elas profissionais, pessoais, relacionais.
    Vi o caso de um jovem que preferiu pedir demissão do que enfrentar uma situação difícil no trabalho.
    O que vocês acham?

    agosto 11th, 2009 - 17:18
    Mão na Roda respondeu:

    Oi Rosana, acho que independente de deficiência, fugir do problema ou fingir que ele não existe não resolve nada. Situações dificeis sempre vão existir, em qualquer área da nossa vida. E, pelo menos pra mim, a única forma de seguir em frente é lidar com a situação. Quanto a se relacionar, tem pessoas que precisam de um tempo maior pra poder se entregar a um relacionamento. O que não pode é ficar evitando qualquer situação para sempre. Bjs, Cris.

  6. Denise Barbosa Barreto quinta-feira, 13 de agosto de 2009 em 22:16 -  Responder

    Não é a toa que eu digo que vc é meu orgulho !!!
    Amei o texto !
    Bjks

    agosto 13th, 2009 - 22:16
    Mão na Roda respondeu:

    Valeu De! Bjs, Cris.

  7. Jairo Marques quinta-feira, 13 de agosto de 2009 em 15:23 -  Responder

    Belo texto… beijos

    agosto 13th, 2009 - 15:23
    Mão na Roda respondeu:

    Obrigada Jairo! Bjs, Cris.

  8. Eduardo Camara quarta-feira, 26 de agosto de 2009 em 00:35 -  Responder

    Cris, na minha opinião não mudamos… No máximo damos um tempo que, como vc falou, varia de pessoa para pessoa. E sobre essa questão da felicidade, acho que é a velha mania que temos de culpar alguma coisa quando algo não vai bem. Para quem tem uma deficiência, ela é a coisa mais óbvia a culpar. Beijos!

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