Entrevista com Flávia Cintra

Flávia Cintra é consultora de inclusão e dá palestras em grandes empresas sobre os direitos das pessoas com deficiência. Ultimamente é mais conhecida por ser a pessoa que tem ajudado a atriz Alinne Moraes a interpretar, da forma mais real possível, a personagem Luciana da novela Viver a Vida.

Além de tudo isso, Flávia também é mãe de gêmeos e assim como nós tem um blog próprio. No seu blog, ela transcreveu uma entrevista, que achamos muito bacana e resolvemos reproduzir aqui também. Leiam e visitem o blog da Flávia!

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A história da Luciana pode mudar vidas?
“Claro. Tem gente em casa achando que se a pessoa perde os movimentos, a vida acaba. E o pior: a família acredita. Começa a tratar a pessoa como inválida. Minha sorte é que, em 1991, quando sofri o acidente, na minha família ninguém nunca duvidou de que eu poderia, apesar das dificuldades, ter as minhas conquistas”.

Como você ficou tetraplégica?
“Foi num acidente de carro. Eu voltava com meu namorado de uma viagem pra Serra da Bocaina, um lugar lindo. Era feriado prolongado. Na estrada, depois de uma curva, tinha uma moto e um corpo no chão. Meu namorado foi desviar do corpo e acabou passando por cima da moto, perdeu o controle do carro e a gente capotou. Foi muito rápido e eu estava usando cinto de segurança – senão, não sei o que teria acontecido. Fui socorrida pela ambulância que vinha resgatar a vítima do acidente anterior. Meu namorado, graças a Deus, teve só escoriações leves”.

O namoro acabou logo depois?
“Nós ainda namoramos por mais um ano e pouco e depois terminamos, por outras questões. Talvez, mesmo se eu não tivesse sofrido o acidente, esse namoro teria acabado. Ele era mais velho: eu tinha 18 e ele tinha 30 anos. Ele era afetivo, parceiro, até hoje tenho um carinho enorme por ele. E ele foi fundamental na época.”

Quem mais foi fundamental?
“Minha família. Minha irmã mais nova foi tão presente que, aos 11 anos, decidiu a profissão que iria seguir: fisioterapia”.

E como vocês pagaram a infra-estrutura hospitalar?
“No primeiro momento, fiquei num hospital particular em São Bernardo do Campo, o lugar mais próximo do acidente. Para isso, meu pai se virou, porque a gente não tinha plano de saúde. Ele vendeu os dois carros que tinha e conseguiu resgatar um dinheiro que estava preso no Plano Collor. Depois, passei a frequentar a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). Eu morava em Santos, não tinha carro, e vinha fazer reabilitação em São Paulo com a ambulância da prefeitura”.

Toda semana?
“Todo dia! Minha mãe parou a vida dela. Pediu licença no emprego para cuidar da filha e me acompanhava em tudo. A gente superou essa fase sem ajuda de mais ninguém. Vivíamos com o salário de professora da minha mãe. Meu pai ajudava como podia. O acidente nos reaproximou. Na dor, a gente se uniu”.

Quanto tempo durou o período de dor?
“Dor física, uns três ou quatro meses. Dor emocional durou mais – acho que um ano. Não um ano chorando, mas um ano de luto, de reelaboração”.

Luto?
“Sim, porque de uma hora pra outra, você passa a viver numa condição que você nunca previu e nunca planejou. E começa a se perguntar: ‘Por que isso foi acontecer comigo?’. A gente vive numa cultura católica forte. Fiz dez anos de terapia pra me livrar disso. O mundo gira em torno da culpa, do pecado e da punição”.

E como saiu do luto?
“Entendi que estar nessa nova condição não é castigo é uma fatalidade. Eu não estava sendo castigada por nada. Eu passei por uma situação fatal que gerou consequências”.

Na novela, a gente sente a angústia da Luciana, na horizontal. Como foi pra você?
“Eu passava todo o meu tempo chorando pelas coisas que eu não podia mais fazer: andar na rua, dançar, correr, ficar ofegante de cansaço físico, jogar vôlei na praia, sentir o pé afundando na areia… Essa sensação de sentir o pé afundando na areia com o peso do corpo é uma que até hoje eu sinto uma saudade”.

Quando começou a acreditar na sua recuperação?
“Eu ainda estava na AACD fazendo reabilitação e, em uma das sessões de terapia ocupacional, pedi para a terapeuta uma peça de adaptação para eu segurar o batom. Como ela era uma alemã brava, ela me deu o batom, colocou o espelho na minha frente e perguntou: ‘Qual é a dificuldade?’. Nessa hora me dei conta de que não tinha tentado! Consegui passar na frente dela e chorava: de medo dela e de alegria de ter conseguido! Daí comecei a fazer uma lista de tudo o que eu podia fazer”.
Como ficou seu lado afetivo nesses anos em cadeira de rodas?
“Eu tive vários namorados até casar e ter filhos”.

Onde conheceu seu ex-marido?
“No trabalho. Eu era chefe dele, quando fui vice-presidente do Instituto Paradigma, em 2006. Felizmente, foi a presidente da empresa quem o contratou (risos)”.

É diferente a paquera de um cadeirante?
“A paquera não, mas a deficiência seleciona quem vai te paquerar. Porque o cara está vendo que eu estou na cadeira de rodas e, se ele vem falar comigo, já vem sabendo que eu não quebrei o pé”.

Mais alguma diferença?
“Tem: é a falta do bumbum. O bumbum tem uma apelo sexual muito grande, no Brasil. Se você está sentada o tempo todo; o cara não vê o bumbum. Daí você tem que usar outros recursos: explorar pernas, colo, braços. O bumbum ele só vai ver depois que a coisa foi para ‘os finalmente’. O bumbum é o prêmio depois que você cria intimidade”.

Você sente prazer, no sexo a dois ou mesmo sozinha?
“Eu tenho uma característica particular: a minha lesão foi incompleta e, por isso, recuperei a minha sensibilidade total. Existem pessoas que não recuperam, mas elas também sentem prazer com o outro. Um amigo meu fala que o orgasmo acontece entre as orelhas – no cérebro – e não entre as pernas”.

Como foi a gravidez?
“Maravilhosa! Fiquei grávida no susto. A gente planejava para um ano depois e aconteceu. Eu nem sabia que podia ficar grávida! Estava me preparando pra casar e tivemos que antecipar tudo. Fui morar junto. Ele queria acompanhar a gravidez e ela foi tranquila e saudável”.

Ser cadeirante te impediu alguma coisa?
“Até o sétimo mês, foi tudo normal. Daí eu comecei a ter desconforto. Minha barriga era gigante e comecei a ficar muito mais tempo na cama. Ficava sentada… Eu tinha seguro médico, mas ele não cobria a Maternidade São Luís. E a UTI neonatal deles era uma coisa que me preocupava, porque eu precisava – eram dois prematuros a caminho. Liguei lá, falei: ‘Minha situação é essa. E estou falida de grana e queria pagar em dez anos’. Marquei uma reunião com o diretor clínico, Alberto D’Aurea. Ele me ouviu e no dia seguinte me disse que estava tudo ok. Perguntei: “Mas onde eu assino, quanto vai ser por mês?’. Ele respondeu: “Não, você não vai pagar'”.

Quais as principais adaptações de uma casa para um cadeirante?
“É colocar rampa no lugar de degrau, ter portas mais largas e um banheiro espaçoso para poder entrar e se mexer”.

Como você se locomove no dia a dia?
“Eu não dirijo, mas tenho uma pessoa que dirige pra mim”.

E o que falta no mundo lá fora, pra quem é cadeirante?
“Acessibilidade. Se eu não tenho carro, como ando na rua? Com ruas esburacadas, guias não rebaixadas? Como subo no ônibus? Como vou de metrô? Como é nas empresas, para receber funcionários? Se temos acesso a tudo isso, a gente promove o convívio, e o contato tira a ideia de que ser cadeirante é o fim do mundo”.

Você se acha forte?
“Não sou frágil. E minha força não é privilégio meu. Anos antes disso acontecer comigo, eu pensei: ‘Se eu perdesse os movimentos, eu morreria’. Mas quando perdi, morrer nem passou pela minha cabeça! A gente não sabe do que  é capaz! A gente só descobre quando a vida te põe à prova. Você não sabe o quanto você é poderosa, você só sabe na hora que enfrenta uma situação difícil e você tem que superar. Aí você descobre o quanto é forte”.

Como a família pode colaborar?
“Permitindo que a pessoa experimente, tente fazer as coisas sozinha. Porque vira automático! Você diz: ‘Quero água’ e já vem o copo de água. E não é por mal. É que o comportamento do cuidar fica condicionado. Cuidar é necessário, mas se passa do limite, vira uma situação de subestimar a pessoa deficiente”.

Mas é difícil saber o limite.
“Lógico que é! A pessoa tem que observar. Se a pessoa consegue cortar o bife sozinha, deixe-a. Não a trate como criança. Se ele não consegue amarrar o sapato, amarre pra ele. Ou sugira que, para ser independente, passe a usar um sapato que não precisa amarrar”.

E com relação aos amigos?
“Eles também acabam ficando superprotetores. A grande dica é sempre perguntar. E a convivência vai te dando as respostas”.

Financeiramente, você se considera estável?
“Ainda não. Eu pago todas as minhas contas e vivo com dignidade”.

Consegue guardar dinheiro?
“Não, mas preciso! Tenho dois filhos. E não quero que falte nada pra eles. Meu único medo na vida é de eles precisarem de alguma coisa que eu não possa dar”.

10 thoughts on “Entrevista com Flávia Cintra

  • 2 de fevereiro de 2010 em 11:19
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    A Flávia é uma pessoa que brilha. Toda vez q a vejo, ou leio, sinto uma luz. Que bom que ela tá passando tudo que aprendeu, para que novela se aproxime da realidade.
    Beijo a todos do blog. Andei sumida, mas tô sempre lendo, viu?

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    • 2 de fevereiro de 2010 em 12:03
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      Oi Mila, não a conheço pessoalmente, mas acho que Flávia deve ser uma pessoa muito bacana mesmo.
      E obrigada pela presença fiel 🙂 O Mão na Roda agradece! beijos!

  • 2 de fevereiro de 2010 em 20:34
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    Eu acho muito bacana a novela falar sobre isso. Pras pessoas que não conseguiram se encontrar de novo depois de um acidente, pra todo mundo ficar sabendo que existe vida, ativa, útil e feliz depois de uma lesão destas.
    E a melhor coisa, acho que vai ser as pessoas pararem de achar que a pessoa com deficiência que continua a vida é um iluminado. A minha grande descoberta é que eu continuei praticamente a mesma pessoa. Mudou a forma, não o conteúdo.
    Eu sempre falo que é a vida que não permite outra opção. Ela só conjuga no imperativo: viva! E a gente acaba tendo que obedecer…
    beijo grande!

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    • 3 de fevereiro de 2010 em 11:51
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      Tici,
      Concordo com vc. Acho que o melhor de tudo nessa novela é levar essa visão pras pessoas. E adorei seu comentário final: “Eu sempre falo que é a vida que não permite outra opção. Ela só conjuga no imperativo: viva! E a gente acaba tendo que obedecer…”
      Muito bem colocado!!!
      beijos

  • 2 de fevereiro de 2010 em 22:45
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    a terapeuta ocupacional que atendeu ela na AACD foi a mesma que a minha o nome da alemã era tão complicado que todos só a chamavam de “Fran”.

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    • 3 de fevereiro de 2010 em 11:49
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      Oi Christian,
      Agora fiquei curiosa pra saber o nome dessa terapeuta, hahaha!
      beijos!

  • 3 de fevereiro de 2010 em 19:14
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    o nome dela é “Françoise Sauron”

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    • 3 de fevereiro de 2010 em 22:27
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      Ih! Mas tá longe de ser alemão esse nome! Parece francês! beijos!

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  • 20 de fevereiro de 2010 em 10:37
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    “Um amigo meu fala que o orgasmo acontece entre as orelhas – no cérebro – e não entre as pernas”… esta trexo da entrevista me deixou bem confortada !
    A algum tempo me relaciono com um cadeirante e ainda não chegamos nos finalmente ,mesmo ja tendo uma grande intimidade com ele,creio que por falta de conhecimento de minha parte! Por isso estou buscando tirar todo tipo de duvidas q tenho a respeito da vida sexual de um paraplegico que é o caso dele e esta entrevista me ajudou muito .Obrigada

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