Opinião e cotidiano

Os cadeirantes e os “eventos da ONU”

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Conheci um mineiro que uma vez disse assim pra mim: “ Toda vez que tento marcar qualquer programa com o pessoal aqui do Rio, me sinto organizando um evento da ONU”. O que ele quis dizer é que pra marcar qualquer coisa no Rio você precisa sempre fazer mil ligações pra cá e pra lá (atualmente trocas de emails e torpedos). Você combina um local com o primeiro amigo e quando vai avisar ao segundo, ele diz que não curte o tal bar escolhido. Aí liga de volta pro primeiro e remarca. Quando vai falar com o terceiro, ele diz que costumava frequentar o tal local com seu/sua ex e não tá a fim de más recordações. Aí surge uma terceira opção, que você precisa repassar para os dois primeiros amigos. E assim vai…

Tive que concordar com o mineirinho.

Esta semana me dei conta de uma outra coisa, se um ou mais dos amigos convidados é cadeirante, a complexidade do tal evento da ONU, precisa ser multiplicada por, no mínimo três. E não porque cadeirantes sejam mais chatos, o motivo aqui é de força maior. Se o carioca já tem mania de ser seletivo, imagina quando ele se vê na obrigação de excluir uma porção de lugares, por pura e simples falta de acesso. A conversa segue assim:

– Olha, o lugar é acessível, tá? Rola uma rampa na entrada.
– Beleza, mas tem banheiro adaptado?
– Ih, não!
– Hmmmm. Poxa, beber chopp sem poder tirar água do joelho, fica difícil.
– Tá, então vamos naquele outro da semana passada.
– Por mim tudo bem.

Toca a ligar pra galera e remarcar. Aí meia dúzia não concorda, porque o local virou figurinha repetida. O outro cadeirante da galera sugere, então, uma pizzaria que foi avaliada pelo Mão na Roda (jabá, jabá!). Todo mundo concorda, menos uma fulaninha que está de dieta e não quer comer pizza.

No final das contas, metade vai, metade fica em casa ou… os cadeirantes dão seu jeito, põe os rabos entre as pernas, aceitam uma “ajudazinha” pra subir as escadas e evitam beber muito, que é para a bexiga aguentar a noite toda.

Agora me explica: por que é que a fulaninha que está de dieta manda mais que o cadeirante que não tem como chegar ao local com independência? Por que é que o cadeirante é sempre a pessoa que precisa abrir exceções?

Deu pra entender agora que sem acessibilidade fica difícil gerar inclusão social? Até quando isso vai durar?

Sobre o autor / 

Bianca Marotta

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21 Comentários

  1. Cris quinta-feira, 4 de março de 2010 em 18:13 -  Responder

    Muito bom! Tava lendo o texto e pensava o mesmo: mas pq a criatura que tá de dieta tem tanta prioridade? rsrsrs. Mas é isso mesmo, quando a gente tenta marcar é sempre uma lenga porque tem pouquíssimas opções. Já tá na hora dos estabelecimentos se adequarem. E ainda bem que não tem ninguém de dieta por aqui, rsrsrs. Bjs, Cris.

    março 5th, 2010 - 13:51
    Bianca Marotta respondeu:

    Pois é, Cris. Imagina então se o cara além de cadeirante estiver de dieta! Complicou, né? Acho que cadeirante tb tem direito de querer frequentar qualquer lugar como todo mundo.
    beijos

  2. Eduardo Camara quinta-feira, 4 de março de 2010 em 19:08 -  Responder

    Perfeito! Ontem mesmo, quando juntamos os 3 cadeirudos do blog, tivemos esse problema e acabamos indo em um dos únicos bares acessíveis aqui do Rio, o Manuel e Juaquim do Largo do Machado. Ah, se os outros bares soubessem da clientela que estão perdendo… Mas acho que a coisa só vai pra frente quando eles começarem a receber MULTAS da prefeitura por não serem acessíveis. Beijos!

    março 5th, 2010 - 13:49
    Bianca Marotta respondeu:

    Confesso que nosso encontro é que me deu inspiração pra esse post! E concordo com a aplicação das multas! E tem que ser beeeeem altas! Só assim que os empresários aprendem… Infelizmente.

  3. Kenia sexta-feira, 5 de março de 2010 em 09:18 -  Responder

    Olás!!
    Aqui em BH passamos por isso também, o pior é que aqui os deficientes não são tão unidos como aí.
    Mas já estamos evoluindo, apasso de tartaruga mas estamos. rsrs
    Abs.

    março 5th, 2010 - 13:46
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Kenia,
    Infelizmente o passo aqui tb é de tartaruga. Mas se a gente não tentar, nem sai do lugar, né?
    beijos!

  4. TANIA SPERONI sexta-feira, 5 de março de 2010 em 10:35 -  Responder

    Em Porto Alegre? A mesma coisa.
    A gente até já sabe, quando liga e pergunta se é acessível e a respostas vem: Um breve silêncio e tem rampa.
    Nem vamos sabemos que é furada.
    A solução é a gente sair da toca, botar a boca no trombone e largar mão da amiga gorda e chata da dieta, ela que vá fazer cirurgia de redução de estômago,hehehehe.
    Beijos

    março 5th, 2010 - 13:45
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Tania,
    O pior é quando a amiga não é gorda. Se fosse gorda, dava até pra entender. Mas e quando estamos falando daquela chatinha magrela, que acha que precisa perder 0,5 cm de cintura? Aí é dose, né? Fica em casa comendo saladinha, querida! 😛
    Brincadeiras à parte, só mesmo multando ou deixando os empresários bem constrangidos pra coisa mudar de figura.
    beijos!

  5. Brunna Melazzo sexta-feira, 5 de março de 2010 em 13:30 -  Responder

    adorei o blog e voltei…

    li o texto, li os comentários e to aqui quebrando a cabeça pra selecionar ao menos 5 lugares acessíveis em Uberlândia pra poder comentar!!
    IMPOSSÍVEL!!
    de todos os bares frequentados, e não são poucos, posso citar o Choop Time, que apesar de ter uma escada na entrada, tem entrada lateral livre e banheiros adaptados, os demais, só na base da ajudinha mesmo ou bebendo pouco!

    já no quesito diversão não etílica, vale uma estrelinha enferrujada para o shopping da cidade, que tem estacionamento reservado, rampas, elevadores, banheiros, mas que para assitir um cineminha sossegado, vc tem duas opções ¬¬ ou vc contrata um guincho para subir e assistir um filme em uma poltrona boa, ou vc fica colado na tela do cinema!

    mas o que não vale é ficar dentro de casa, e que nem disse a Tania ali em cima, a gorda e chata da dieta que vá fazer cirurgia de redução de estômago.

    =*

    março 5th, 2010 - 13:37
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Brunna,
    Péssima a acessibilidade dos estabelecimentos de Uberlândia, hein? Que chato!
    Mas achei legal o tal do Choop Time ter ao menos se preocupado. Se puder mandar pra gente algumas fotos do loca, seria bacana.
    E continue assim! Não desanime. Colocar a cara na rua é nossa arma mais poderosa!
    beijos!

  6. Brunna Melazzo sexta-feira, 5 de março de 2010 em 14:13 -  Responder

    Na próxima vez tiro fotitas do lugar.

    mas fui injusta no meu post e exclui um dos “pontos turísticos” da cidade, o Praia Clube!

    Esse merece fotos e um post exclusivo! hehehehe… me comprometo em mandar as fotos! por enquanto vai o site:

    http://www.praiaclube.com.br/instituicao.php

    esse sim merece 5 estrelinhas douradas!!
    mega estrutura, suuuuuuuper acessível!
    único pecado, é só para associados ou convidados de associados (me comprometo [2] a tirar convites pra quem quiser conhecer!)
    destaque para piscina semi-olímpica aquecida que tem uma cadeira elevador pra facilitar a entrada de cadeirantes!

    mas se for pra colocar na balança, uma cidade com mais de 600mil habitantes e 2 locais acessíveis, É POUCO!!

    Bjoss!
    =*

    março 12th, 2010 - 16:27
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Brunna,
    Que bacana esse clube, hein? Estou aqui aguardando as fotos!
    Mas vc tem toda razão, 2 lugares é quase nada, para uma cidade com esse porte!
    beijos

  7. Tici Poubel sábado, 6 de março de 2010 em 18:19 -  Responder

    tem que ser como o dado falou, multa! Tem que perder o alvará e os lugares novos só podem receber autorização pra abrir se tiverem acesso. As leis tem que ser rígidas, porqe por livre vontade ninguém faz… Mesmo com lei, as vezes não fazem. Então tem que ter fiscalização, tem que ter a gente reclamando mesmo.
    O que não dá é pra ficar sem o chopinho.
    beijo!

    março 12th, 2010 - 16:29
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Tici,
    As leis até que são boas, sabia? O problema é não existir fiscalização. A gente percebe que a coisa funciona por debaixo dos panos, quando moramos numa cidade onde, por lei, nenhum alvará pode ser liberado, se o local não for acessível, e mesmo assim abrem-se inúmeros estabelecimentos novinhos em folha cheios de escadas por dentro e por fora. Não tô nem falando de banheiros, hein?
    A multa tem que ser alta, mas tb tem que ser aplicada!
    beijos

  8. Eliane Sandra sexta-feira, 12 de março de 2010 em 02:08 -  Responder

    Eu acho que tem que ter multa sim, mas eu acho também que a conscientização começa por nós e por quem faz parte do nosso convívio. Que raio de amiga é essa que faz um amigo cadeirante se submeter a ser carregado (correndo risco de cair, por exemplo) só porque tá de dieta? Não me levam a mal, mas eu não dou jeitinho, eu não dou dinheiro para estabelecimento que não se preocupa comigo. E nem minha família, nem meus amigos. Não dá pra cobrar de empresários ou de prefeitura se a pessoa que tá do seu lado, vendo a sua luta diária, não te dá apoio também.

    março 12th, 2010 - 16:31
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Eliane,
    Corretíssima! É principalmente chato, quando você conhece pessoas que convivem com você e não estão dando a mínima pra esses assuntos. É de doer…
    beijos

  9. Cauê sábado, 27 de março de 2010 em 20:45 -  Responder

    Olá,

    Sou aluno de Engenharia de Produção da USP e estou desenvolvendo um produto para cadeira de rodas. é um guarda chuva para cadeira de rodas, e gostaria da contribuição de potenciais usuários para desenvolver este produto. Assim, se você puder responder o questionário que criei para saber as necessidades dos usuários e também postar no seu blog para outros usuários responderem eu ficaria imensamente agradecido. o link é:
    http://spreadsheets.google.com/viewform?formkey=dEhPNC1lOHBFZW8yU3dMMGVORlhyVmc6MA

    Obrigado por sua colaboração!

    Abraços,

    Cauê

  10. Fabiula sábado, 3 de abril de 2010 em 20:03 -  Responder

    Adorei o texto! aki em BRASILIA e do mesmo geito! mas devagarinho chegamos lá!
    😉
    Parabéns pelo blog!

  11. EFIGENIO FERREIRA quinta-feira, 8 de abril de 2010 em 15:18 -  Responder

    ola descobri este blog atraves de uma curiosa visita aqui na net
    gostaria que a cris ou alguem me ajudasse na troca de minha cadeira, pois nao quero fazer a mesma burrada que fiz na ultima vez quando fui trocar a minha.
    meu email é efigeniof@hotmail.com

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