Opinião e cotidiano

Palavrinhas que me irritam

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Antes mesmo de conhecer o Dado, algumas expressões que ouvia por aí em relação às pessoas com deficiência já me irritavam. Depois que passei a conviver com ele, minhas desconfianças de que elas estavam sendo mal empregadas só se confirmaram.

Palavrinhas como: portadores de deficiência, pessoas especiais, ou portadores de necessidades especiais me soavam sempre tão esquisitas, que fiquei feliz da vida, quando descobri que as próprias pessoas a quem essas expressões se referem não gostam delas. Já falamos sobre isso aqui num dos primeiros textos do nosso blog, mas como a coisa ainda se repete, acho que podemos e devemos abordar o assunto de novo.

Comecemos com o termo: portadores de deficiência. Entendam, quem tem uma deficiência possui essa deficiência. A pessoa não porta, nem carrega a sua deficiência, como quem carrega uma bolsa. Seria até bom se fosse assim, né? Imaginem: “Ah! Hoje acho que vou deixar minha deficiência em casa, junto com o celular. Não estou a fim de portar ela comigo, não”. Já pensou que maravilha? A impressão que tenho é que quem usa essa expressão pensa estar sendo mais educadinho ou menos duro. Mas entendamos de uma vez: ninguém carrega uma deficiência, ok? A pessoa tem a deficiência e é isso aí, meu irmão. Sem constrangimentos.

Se você quiser piorar a situação mais um pouquinho, use a expressão “pessoa especial”! Gente, se já é um saco ter que aguentar toda hora os olhares de pena ou idolatria, se já é um porre saber que, por usar muletas ou uma cadeira de rodas, você involuntariamente se destaca no meio da multidão, imagina ainda ser rotulado de especial? Na boa, ser especial não é legal. O legal é ser tratado como uma pessoa qualquer, que vive sua vida como todo mundo, trabalha, estuda, se diverte e ainda paga impostos. Na minha humilde opinião, a expressão “pessoa especial” esconde um preconceito e disfarça um sentimento de culpa. Já reparou como as pessoas que usam esse termo geralmente o falam olhando pros lados e meio que sussurrando, com cara de quem está falando sobre algo muuuuito delicado? Ai, que hipocrisia!

Agora, se você quer errar feio mesmo, junte as duas expressões e diga: pessoa portadora de necessidades especiais. Ui! Como já dissemos antes ninguém porta ou carrega uma deficiência, muito menos uma necessidade. Você tem ou não tem uma necessidade. Quem usa essa expressão já começa usando português errado. Segundo que, se a gente for olhar cada um de perto, vai descobrir que todo mundo tem uma necessidade especial (especial aqui no sentido de diferente). Seu vizinho precisa tomar insulina, porque é diabético, enquanto sua colega de trabalho não pode usar salto alto, porque tem um problema de coluna. Aí você resolve olhar pra si mesmo e se lembra que só consegue dormir com todas as luzes apagadas e silêncio total. Não são todas necessidades especiais?

Então galerinha, vamos parar de tentar inventar a roda, de querer “falar bonito” e de tentar camuflar o que está aí na nossa cara. Chega de termos politicamente pseudo-corretos e chatos. Uma pessoa com deficiência é uma pessoa com deficiência e pronto, acabou! Essa é a expressão correta.

E pode ficar tranqüilo, que ninguém vai ficar ofendido com isso.

Sobre o autor / 

Bianca Marotta

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32 Comentários

  1. Flavia Cintra sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 13:01 -  Responder

    Bianca,
    Obrigada por este post. Eu também fico muito irritada com essa mania de substituir o uso da palavra deficiencia por um termo “especial”. E o pior é que que fala desse jeito, o faz acreditando estar sendo respeitoso. Seu esclarecimento é bem vindo e necessário.
    Por essas e outras é que eu sou fã do Mão na Roda.
    Beijos para vc e toda equipe!

    abril 16th, 2010 - 16:15
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Flavia,
    Que bom que vc gostou do post. Nunca é demais lembrar esse assunto, até porque tem muita gente que conhece o blog há pouco tempo. Temos que aproveitar a onda da novela, pra tentar esclarecer ao máximo todas essas questões. Aliás… A Luciana bem que poderia falar sobre isso, hein? Que tal?
    beijos e obrigada pelos elogios!

  2. Cristal sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 13:13 -  Responder

    Eu acho essa mania do politicamente correto uma coisa chata e hipócrita.

    “Pessoa com deficiência”, simples e sensato, anotado!
    Gosto mais de cadeirante, mas óbvio que não se aplica a todos os casos!

    abril 16th, 2010 - 16:11
    Bianca Marotta respondeu:

    Aff! Tb odeio o politicamente correto!
    E eu acabei deixando a expressão cadeirante de fora. Ainda bem que vc lembrou, até porque é a que mais uso. Acho simpático. Pessoa com deficiência uso mais em situações formais.
    Ah, você tb pode usar muletante, pra quem usa muletas e deficiente visual ou cego.
    beijos

  3. Heitor sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 13:22 -  Responder

    Já eu não gosto de “cadeirante” (embora até use de vez em quando) – parece que a pessoa é uma cadeira ambulante.
    Mais um ponto pra você, Bianca! Teus posts sempre cutucando o ponto certo!

    abril 16th, 2010 - 16:08
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Heitor,
    Poxa, eu bem gosto de cadeirante. Acho simpático. Mas vou anotar, pra se algum dia esbarra com vc, não usar esse termo.
    E que bom que o texto cutucou a ferida!
    beijos

  4. Evandro sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 13:24 -  Responder

    Valeu pelo toque, mesmo sendo deficiente há 4 anos eu nunca tinha parado para pensar, apesar de detestar o termo “pessoas especiais”. Mas gostei da argumentação sobre o portador de deficiência, rsrsrs, seria ótimo mesmo largá-la de vez em quando junto com o celular.
    Então tá certo, sou uma pessoa com deficiência e pronto. “Especial” só para a Fá,…. eu acho…..

    Beijão

    abril 16th, 2010 - 16:07
    Bianca Marotta respondeu:

    Pois é, Evandro. Que tal deixar sua deficiência hoje em casa? E com certeza vc é especial pra Fá! E pra muitos amigos tb, como nós, tá? beijos!

  5. MARIA PAULA TEPERINO sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 13:27 -  Responder

    Perfeito Bianca!!!!!!!!! Nada me irrita mais do que o tal do “especial”. Sei que sou especial, só que para um número restrito de pessoas…rsss Brincadeira a parte, já viu coisa mais cafona que pessoa que tem um filho com deficiencia e se refere a ele como: “Eu tenho um filho especial” e ai eu me pergunto, algum pai ou alguma mãe por acaso, não acha sempre que seu filho com ou sem deficiencia é especial?
    O tal do “portador” também é triste e eu achei que já havia me livarado dele quando voltei a fazer uma outra faculdade e passei a ser “portadora de diploma”. É exatamente esse o termo que as faculdades utilizam para se referirem quem esta fazendo um segundo curso superior.
    Ainda temos muitas coisas para acertar, mas a gente vai rodando.
    bjs

    abril 16th, 2010 - 16:06
    Bianca Marotta respondeu:

    Muito bem colocado, Maria Paula! Tb acho cafonérrimo pais de crianças com deficiência se referindo aos filhos como alguém especial. Imagina se todos os pais não pensam assim!!! Excelente comentário! beijos!

  6. aldrey sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 14:33 -  Responder

    É verdade tanta frescura pra dizer que é deficiente,é deficiente e deu,especial kkkkkk
    bjs

    abril 16th, 2010 - 16:04
    Bianca Marotta respondeu:

    Pra que complicar, quando se pode ser simples, né? beijos

  7. Cris Costa sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 14:35 -  Responder

    Muito bom Bianca!!!! Não gosto dessa coisa
    de “portador”, fico imaginando se para dizer
    que sou mulher diria que sou uma pessoa
    portadora de seios, rs. Adorei, muito bem
    colocado! Bjs, Cris.

    abril 16th, 2010 - 16:04
    Bianca Marotta respondeu:

    Hahaha! Portadora de seios é realmente uma ótima comparação. Nessa linha poderíamos falar coisas como: portadora de pele negra, portadora de interesse pelo mesmo sexo, portadora de baixa estatura e por aí vai. beijos!

  8. Mariana Pamplona sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 15:02 -  Responder

    Concordo com você, apesar de usar muito o termo “portador de deficiência”. Escolhi este, entre os politicamente corretos, pois concordei com o argumento de que tem o sentido de que a deficiência não é inerente à pessoa, em oposição ao termo “deficiente”. Diferença que o termo “pessoa com deficiência” já tem, de um jeito menos formal.
    Mas eu discordo quanto a ninguém ficar ofendido. Nunca se sabe o que ofende uma pessoa. Já tive discussões homéricas sobre o uso de “preto”, “negro”, “criolo”, “escurinho” (ai, de matar!),”chocolate”, “pegado na cor” (pode?!) ou “mulato” (esse é a maior polêmica). Cada um tem seu preferido (ou não).

    abril 16th, 2010 - 16:01
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Mariana,
    Na verdade, esqueci de salientar que todos os termos com exceção de pessoa com deficiência são considerados errados pelas associações, ONGS e afins relacionadas às pessoas com deficiência. E sobre ninguém fica ofendido, tenho quase certeza de que não ficam mesmo, não. Se usar a palavra aleijado, aí sim. É pejorativo.
    Mas se preferir, use cadeirante ou muletante, que soa mais simpático e a galera costuma gostar também.
    beijos

  9. Eduardo Camara sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 15:11 -  Responder

    Perfeito, Bibinha!

    Só não concordo com “O legal é ser tratado como uma pessoa qualquer, que vive sua vida como todo mundo, trabalha, estuda, se diverte e ainda paga impostos”.

    Pagar impostos não é legal 🙂 Ainda mais quando eles não revertem em serviços pra gente 🙁

    Beijinhos!

    abril 16th, 2010 - 15:56
    Bianca Marotta respondeu:

    Pagar imposto é péssimo meeeesmo. Principalmente se não recebemos nada em troca, como vc mesmo lembrou. Humpf!
    beijitos!

  10. Ricardo Afonso Brito sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 15:43 -  Responder

    Se eu sou “especial”, tenho uma lista de requisições:

    – Acesso VIP em todo e qualquer evento (jogos, shows, festivais, festas, inaugurações, etc, etc);

    – Isenção no pagamento de Imposto de renda, previdência, plano de saúde, etc, etc;

    – Tapete vermelho e musica tocando sempre que adentrar algum recinto;

    – Carro oficial, na porta de casa, sempre a disposição;

    Etc, etc…

    Os “vips” e especiais não têm esse tipo de tratamento? Pois então.. ISONOMIA é um principio constitucional, portanto, vamos para as ruas exigir tudo isso e mais alguma coisa!

    abraços

    abril 16th, 2010 - 15:55
    Bianca Marotta respondeu:

    Adorei, Ricardo!!! Excelente idéia! Pessoas especiais merecem tratamento VIP, sim senhor! beijos

  11. Katarina andrade sexta-feira, 16 de abril de 2010 em 20:15 -  Responder

    Adorei o q disse!
    Sou pedagoga e estudo educação especial e inclusão,estou adorando e aprendi tb a não usar esses termos,realmente são horríveis.Na realidade não temos q nos referirmos a ninguém por suas deficiências,pois quem não tem uma deficiência?Mas, se é para chamá-los de “pessoas com deficiência”, q assim seja,mas melhor seria chamarmos as pessoas pelos seus nomes, sem se referir as suas deficiências,mas entendo completamente o porquê de ser assim,estudei sobre a evolução dos nomes dados as pessoas,que atualmente são chamadas, ou por sua deficiência,ou de pessoas com Necessidades Educativas Especiais (NEE).Amei o seu texto,Parabéns!

    abril 18th, 2010 - 21:57
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Katarina,
    Tb acho que as pessoas devem ser chamadas pelos seus nomes, mas algumas vezes precisamos nos referir a determinado grupo ou mesmo fazer referência a uma ou outra deficiência, então esses são os termos usados. Mas que bom que vc gostou do texto! beijos

  12. Felipe sábado, 17 de abril de 2010 em 00:58 -  Responder

    o pior de tudo é quando eu quero tomar uma cervejinha e me falam ” tas doido de beber?? ” eu pergunto pq?? ” pq não podes, tu estas doente e queeres beber, tas louco felipe?? ” aff… isso tbm é muito chato… cara eu to doente de estar numa cadeira de rodas..? ora va se …. rsrsrs tem gente q não tem noção doq estão falando, essas pessoas tem que aprender muito com vida e com a gente tbm rsrsrs… grande abraço e parabéns pelo post Bianca.

    abril 18th, 2010 - 21:55
    Bianca Marotta respondeu:

    Pois é Felipe, cadeirante não bebe, não fuma, não sai pra dançar… Imagina! Não deixa ninguém saber que vc faz algumas dessas coisas, não. hehehe

  13. Ana Cláudia sábado, 17 de abril de 2010 em 12:36 -  Responder

    Boa tarde, concordo que alguns termos são extremamente pejorativos, mas o “portador” é muito utilizado no meio médico, se referindo a doenças/estados apresentados pelo paciente, mas que não são transitórios ou de rápida evolução. Assim, fala-se que o paciente APRESENTA um quadro febril, mas é PORTADOR de hipertensão, diabetes e até mesmo uma deficiência física ou mental. Podendo até não ser o melhor termo, mas não sendo utilizado para evitar constragimentos ou ser politicamente correto.
    Muitas vezes as pessoas não sabem como agir com aquilo que não é o mais comum (a maioria não faz para agredir, mas por ignorância). Por isso acho que ao invés de irritação, isto deve servir de impulso para esclarecimento, já que, na verdade, o que deve ser evitado é agir de forma agressiva, ofensiva ou preconceituosa com qualquer pessoa que seja.

    abril 18th, 2010 - 21:54
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Ana Cláudia, quando disse que as palavras me irritam, não quis dizer que eu fico indignada, batendo porta, foi apenas uma maneira de chamar a atenção para a questão. Meu intuito foi o de esclarecer apenas. Me desculpe, se soou agressivo.
    Fico também satisfeita que meu post tenha gerado seu comentário, pois aprendi mais uma coisa que não sabia, que o termo portador é usado no meio médico sem conotações de politicamente correto. Obrigada pelo toque.
    Abraços

  14. Edênia Garcia domingo, 18 de abril de 2010 em 11:44 -  Responder

    Mega post…
    Não canso de ler e reler os post rsrs,são simplesmente esclarecedores,uma mão na roda mesmo,não só para as pessoas com deficiência e sim:para todos os que não conhecem nada sobre elas.
    Na nossa roda costumamos ter outros termos mais carinhosos por assim dizer rsrs:tetrinha,tetrão,chumbado e por vai rsrs.
    Parabéns mais uma vez pela criatividade!

    abril 18th, 2010 - 21:46
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Edênia,
    Tb já ouvi tetrinha, chumbado, chumbadinho e não vejo problema nenhum, pois são todos apelidos carinhosos. E que bom que nossos posts está ajudando!
    beijos

  15. The Best segunda-feira, 19 de abril de 2010 em 11:44 -  Responder

    Engraçado, eu sempre preferi o termo “deficientes” puro e simplesmente. Apesar de que o termo Portador de Necessidades Especiais (PNE) é colocado como o correto ao se tratar de pessoas deficientes em qualquer texto legislativo ou de informação.

  16. Cristal terça-feira, 20 de abril de 2010 em 14:00 -  Responder

    O Zeca Camargo introduziu uma matéria do Fantástico falando em “pessoas especiais” e eu só lembrei desse post.

  17. Giselli Quadros quarta-feira, 21 de abril de 2010 em 17:21 -  Responder

    Muito bom ler sobre isso, muitas vezes nao sei como agir diante de uma situaçao dessas e por isso estou procurando entender e aprender com voces aqui do blog. Mas acho que voces poderiam entender tambem o lado dos andantes, em alguns casos nao se trata de querer falar bonito mas de dificuldade em lidar mesmo. Parabèns!

  18. Gil Porta quinta-feira, 22 de abril de 2010 em 11:23 -  Responder

    Bianka, falou tudo!

    Há poucos dias fomos procurados por uma emissora de rádio de BH para contarmos um pouco sobre a acessibilidade na cidade e um pouco sobre a nossa vida, já que somos um casal ambos com deficiência física.

    A “Dona Muié” que estava nos entrevistando sempre usava esses termos que nenhum de nós gostamos, aí no final da entrevista, deixei bem claro que a expressão mais aceita por todos é “PESSOA(s) COM DEFICIÊNCIA” porque gostamos que a PESSOA tenha mais ênfase do que a deficiência, além do que você citou neste post, é claro.

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