Dicas, Equipamentos

Órteses e adaptações para o dia-a-dia

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Um dia desses estava eu conversando com o Eduardo e do nada ele me pergunta:

– “Christian, a Bianca está perguntando como você mexe o mouse. Você usa aqueles do tipo trackball*!?”
– Eu respondo: – “Não, eu utilizo um modelo bem básico de mouse sem aqueles formatos anatómicos e me viro muito bem!”

*Trackball é esse dispositivo que a esfera fica virada pra cima e tem um tamanho maior, veja a foto abaixo:

imagem de um mouse trackball

Trackball: esfera virada para cima e botões grandes facilitam uso

Deixem-me explicar melhor, pois você também pode estar se perguntando o que tem de errado em movimentar um mouse. Eu sou um tetra “alto” (lesão C4/C5), o que me tirou os movimentos das mãos e punhos. Devido a isso, são necessárias algumas adaptações (nada de absurdo no meu caso) para se utilizar um mouse e teclado e obter um bom rendimento.

É claro que eu não tenho a destreza de uma pessoa com movimentos totais de punho e mãos, mas acho meu desempenho bastante acima do normal e me permito até jogar online de vez em quando. Nos primórdios da informática, os mouses não eram nada ergonômicos. Eram peças bem retangulares e sem nenhuma curvatura, mas com o tempo eles foram se moldando cada vez mais às palmas das mãos, e aí eu comecei a sofrer. Percebendo isso, consegui comprar 4 unidades do modelo com que mais me adaptei e usei por cerca de 10 anos.

Mouse antigo: formato retangular

Mas a tecnologia vai mudando e os mouses foram ficando velhos. Dos quatro, consegui reformar e fazer dois, até que não deu mais para continuar. Chegara a hora de eu me adaptar com um modelo de mouse que estivesse em linha. Após inúmeras visitas em lojas de informática e sites na internet, encontrei um modelo que me propicia um bom desempenho. Uma outra coisa importante é deixar os objetos em posições estratégicas, assim estarão sempre ao seu alcance com deslocamento mínimo das mãos e braços.

O mouse é deslocado apenas com o peso da mão

Atualmente existem equipamentos de tecnologia assistiva que solucionam muitos casos (a mocinha da novela usa vários deles), mas na época em que sofri a lesão, não havia nem sombra desses equipamentos. Então o que pode ser feito foi adaptar o que existia. Mais uma vez, as terapeutas ocupacionais (T.Os) colocaram a mão na massa.

Em se falando de teclados,  também foi a mesma coisa. Apesar deles apresentarem uma vida útil bem maior, fui fazendo testes com vários modelos. Essa parte deu menos trabalho, e a dica é tentar encontrar no mercado um teclado que tenha pressão de toque compatível com a sua força, além de bom espaçamento e tamanho das teclas. Teclas de atalho, que minimizam o uso do mouse, também são uma boa característica.

Para a digitação e também para apertar botões de todos os tipos, utilizo uma órtese com  ponteira. Realmente, hoje eu não sei o que seria de mim sem ela, pois me permite fazer muitas coisas. Depois de diversos testes, cheguei à conclusão de que a melhor ponteira para meu caso é um lápis novo (sem apontar) e uma dessas borrachinhas que se usam na extremidade do lápis. Testei esses lápis que já vem com a borracha embutida, mas elas duram pouco e esfarelam um bocado. Notem que minha ponteira pode ser adquirida em qualquer papelaria, ou seja, se por acidente esse lápis quebrar,  sumir (sim, já aconteceu), ou a borracha gastar, é fácil comprar outra. As T.Os costumar fazer essas ponteiras, na maioria das vezes, com um material moldável termoplástico ou alumínio que você não vai achar na papelaria da esquina.

Órtese e ponteira utillizada para digitação

Já a órtese, foi fabricada na oficina da AACD e me custou 40 reais. Se eu precisar trocar as tiras de couro ou o velcro, eles cobram em média 20 reais. Existem outros modelos tipo luva, mas essa barra estabilizadora foi a com que mais me adaptei e tenho um desempenho superior a 80 toques por minuto.

A ponteira também serve para usar o celular

Outra utilização da ponteira: controles remotos

Essa mesma órtese pode ser utilizada para alimentação, trocando a ponteira por um garfo ou colher com cabo redondo. Em último caso, entorte o cabo.

Ponteira sendo usada para digitar no teclado

Ponteira sendo usada com um telefone de teclas

Gravei esse pequeno vídeo para demonstrar melhor como a órtese funciona:

É complicado também encontrarmos soluções prontas que atendam a todos, haja visto que cada deficiência requer um tipo de adaptação de acordo com o grau de força e mobilidade de cada pessoa. O que pode ser ótimo pra mim, pode ser péssimo pra você. É nisso que as T.Os são especialistas e elas tentam deixar a adaptação o mais adequada e personalizada possível para cada pessoa.

Por último, uma dica para quem utiliza qualquer sistema Windows®: se você pressionar cinco vezes a tecla SHIFT, é habilitado um recurso de acessibilidade importantíssimo para pessoas que só conseguem digitar uma tecla por vez. Esse recurso trava as teclas Shift, Alt e Ctrl até o próximo toque. Um exemplo: Para digitar o sinal de @ teoricamente precisaríamos manter o SHIFT pressionado e teclar o 2. Com o recurso habilitado, você tecla SHIFT, solta, pressiona o 2 e pronto! Uma de cada vez! Se precisar desabilitar o recurso, basta pressionar Ctrl e Alt juntos. Como elas são coladinhas uma sobre a outra, basta dar uma “dedada” mais nervosa que vai! Aparecerá perto do relógio do Windows um símbolo indicando o status da tecla pressionada e um bip sonoro é emitido a cada utilização.

Sobre o autor / 

Christian Matsuy

Cadeirante, paulistano bom gourmet e piloto profissional (de autorama)

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26 Comentários

  1. Bianca Marotta quarta-feira, 5 de maio de 2010 em 16:16 -  Responder

    Adoreeeeei esse post! Respondeu a um monte de dúvidas que eu tinha! Excelente! Até fiz o teste da tecla Shift clicada 5 vezes. Muito bacana. Essas informações são super importantes pra quem trabalha com web, como eu.
    Ah! Tb adorei o link que você acessou no vídeo, hehehe!

    Valeu, Christian! beijos!

    maio 5th, 2010 - 18:40
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Bianca!

    Legal, a idéia é essa mesmo, de desmistificar certas coisas que não são simples e neguinho fica procurando chifre em cabeça de cavalo.

    eu adoro “dar jeito” nas coisas sabe? passo horas pensando nessas soluções e o principal: COM BAIXO CUSTO.

    ahhh, você acha que eu ia acessar um blog da “concorrência”? rsrsrs :p

  2. Eduardo Camara quarta-feira, 5 de maio de 2010 em 18:22 -  Responder

    Christian, o post está ótimo! Não podia imaginar que algumas adaptações fossem tão simples… Abração!

    maio 5th, 2010 - 18:45
    Christian Matsuy respondeu:

    pois é Dado! As pessoas sempre acham que é mais complexo, até verem. O importante é não se acomodar com a falta de movimentos, mas sim buscar a solução, sempre. é uma busca contínua.

  3. Brunna Melazzo quarta-feira, 5 de maio de 2010 em 20:08 -  Responder

    Ótimo post, Chris…
    eu sempre fui curiosa maaassster, né!?! e desde quando a gente começou a se falar eu te enxo de perguntas… já fiz vc me mostar um tanto de coisa!! (faz tempo que te enxo o saco, hein!?!) kkkk
    mas eu ja comecei a ler o post morrendo de rir…
    eu tenho problema… problema serííííííssimo com essa palavra!!
    não adianta… ela nunca vem certa na cabeça!!
    órtese é sempre segunda opção… sempre vem ortóse primeiro!!
    hahahahahahaha

    bjos, querido!!
    =*

    maio 5th, 2010 - 23:40
    Christian Matsuy respondeu:

    oi Brunna!
    ah vc me conhece tem um tempinho né? Ai fica mais fácil!
    bjo e obrigado por sua visita ao blog, e lembre-se: é “órtese”!

  4. Milton SPERONI quarta-feira, 5 de maio de 2010 em 22:04 -  Responder

    Oi Christian!!
    Tb sou tetra e tb não uso mouse adaptado, não deu certo pra mim, usei o comum e hoje me dou bem com o note.
    Vc já descobriu alguma coisa pra cortar carne? Já tentamos várias coisas, mas sempre acabo pedindo uma mão à Tania, na hora de cortar o rango.
    Tb vi que vc usa a monobloco, é uma M3? Vc toca ela bem sem problemas?
    Abraços
    Milton
    http://www.zerohora.com/sembarreiras

    maio 6th, 2010 - 13:44
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Milton!

    olha, para cortar carnes ou pizza ainda não consegui chegar a um bom resultado. Algo prático, fácil de ser produzido e funcional, mas vou pesquisar mais sobre isso.

    me dou muito bem com a monobloco sim, utilizo aros com pinos de impulsão e consigo me tocar a cadeira por pequenas distâncias. em breve farei um post sobre isso. minha cadeira é uma TiLite.

    Abraço!

  5. The Best quinta-feira, 6 de maio de 2010 em 01:13 -  Responder

    Fiquei impressionado com a simplicidade das adaptações. Eu sempre pensei que fosse coisas mais complexas e que necessitassem de um especialista na área de adaptação e uma oficina especializada para confecção.

    Muito bom o su post, pois tirou muitas dúvidas sobre a confecção de orteses.

    Outra coisa que me mpressionou foi a quantidade de monitores que você utiliza. Me senti o Capitão Kirk no comando da enterprise…. rs

    maio 6th, 2010 - 12:11
    Christian Matsuy respondeu:

    Fala The Best!
    Pois é realmente é simples, tem gente que gosta de enfeitar as coisas, mas com um pouquinho de organização, você consegue ir se achando e ver a maneira mais fácil de realizar certas atividades.

    Ahh então esse lance de trabalhar com 2 monitores (ou mais) foi algo que me deu muita produtividade, pois com isso eu evito de ficar abrindo e fechando janelas, já está tudo visível, pode ter certeza que eu economizo uns bons cliques de mouse ai!

  6. Ozires quinta-feira, 6 de maio de 2010 em 10:52 -  Responder

    Olá Christian,

    Também sou tetra (C4/C5) e ganho minha vida como analista. Quantas semelhanças com tudo que passei e passo no dia a dia. Em vez de uma, uso duas órteses, uma em cada braço. Corto uma bic pela metade com uma borrachina e assim me viro com mouse e teclado. Jogar Fifa em rede com os amigos sempre foi muito divertido, mesmo não sendo um craque. 🙂

    Abraço.

    maio 6th, 2010 - 12:17
    Christian Matsuy respondeu:

    Olá Ozires,

    já tentei utilizar a órtese nas duas mãos, com certeza me daria um bom ganho na digitação, mas eu não censegui me adaptar, eu preciso de meu braço direito totalmente livre para me ajudar no equilíbrio, e eu não consigo mexer o mouse com precisão suficiente.

    já usei o tubinho da caneta Bic também! mas com o tempo percebi que no meu caso uma ponteira mais longa me dava mais agilidade.

    eu também não sou um craque em jogos mas dou meus tirinhos em jogos online de vez em quando!

  7. Rafael Ferraz quinta-feira, 6 de maio de 2010 em 11:54 -  Responder

    Excelente artigo, bastante esclarecedor, e com um video bem ilustrativo.

    Abraços!

    maio 6th, 2010 - 12:19
    Christian Matsuy respondeu:

    fala ae Rafael,

    obrigado pela força!
    em breve “nós” gravaremos outros!

    abraço!

  8. Eduardo Camara quinta-feira, 6 de maio de 2010 em 13:14 -  Responder

    Ah, podes crer… Também não deixei de notar os monitores. Parece um centro de monitoramento, eheheh!

    Abraços!

    maio 6th, 2010 - 13:49
    Christian Matsuy respondeu:

    eu tô “trabalhando” a cabeça do meu gerente para ele me arrumar um terceiro monitor aqui no serviço, mas da difícil! rsrsr

  9. Marcelo Oliveira quinta-feira, 6 de maio de 2010 em 14:38 -  Responder

    Gostaria de aproveitar o assunto e passar minhas dicas. Tenho distrofia muscular de Becker, e ao longo do tempo fui perdendo a capacidade de digitar com o teclado. O mouse ainda domino bem, a ponto de digitar rapidinho no meu teclado virtual predileto, o Click-N-Type, disponível também em português. Além de gratuito, totalmente configurável, e programável, pode-se ativar nele duas funcionalidades essenciais: primeiro as teclas ‘auto-selecionáveis” e “auto-clicáveis”, coisa que o teclado virtual do windows faz, mas que o Click-N-Type faz com melhor precisão e ajustes de tempo; e segundo, a capacidade de manter um dicionário para auto-completar palavras.

    http://www.lakefolks.org/cnt/

    Existe também um segundo programa chamado Point-N-Click, que descobri qdo o botão direito do meu mouse quebrou e eu não conseguia encontrar outro mouse do mesmo tamanho. Então descobri o Point-N-Click, que faz todas as fuções de um mouse, inclusive o duplo click.

    http://www.polital.com/pnc/

    Divirtam-se 😉

    Abraços
    Marcelo

    maio 6th, 2010 - 21:09
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Marcel,

    excelentes dicas, teclado virtual é uma ferramenta importantíssima na tecnologia assistiva.

    seu comentário é uma valiosa informação.

    abraço!

  10. Mila quinta-feira, 6 de maio de 2010 em 20:13 -  Responder

    Duvido quem não fez o teste do 5x shift!
    hahahaha
    Parabéns, Christian, vc é genial.

    maio 6th, 2010 - 21:12
    Christian Matsuy respondeu:

    oi Mila,

    genial mesmo é o Bill Gates 🙂
    eu sou um mero rapaz latino americano….rsrsr

    beijo!

  11. Guacira quinta-feira, 6 de maio de 2010 em 20:18 -  Responder

    that is THE guy!!!
    Christian, você é D+.
    Adorei o artigo, super incrivel ver como são muitos os recursos para o uso de mouse , teclados e outros equipamentos. Excelente video.!!!
    super beijo

    maio 6th, 2010 - 21:21
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Guacira!

    é muito gratificante pra nós aqui do blog, termos a sua visita.

    muito em breve nos aprofundaremos mais nesse tipo de assunto, publicando outros posts ainda mais específicos.

    um super beijo!
    christian

  12. Massaco Satomi sábado, 8 de maio de 2010 em 08:47 -  Responder

    Oi Chris, parabéns pela matéria e muito obrigada pelas dicas, pois atendo pacientes (sou enfermeira) com deficiencias diversas, como artrite reumatoide (com grandes deformidades), esclerose multipla e MPS (patologia genética). Vou tomar a liberdade e mostrar a página a eles, td bem? Obrigada pelas dicas e parabéns pela iniciativa. Quero maaaaiiiiiissss!!!!!!! Beijocas.

    maio 8th, 2010 - 12:57
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Massaco!
    obrigado! e é claro que você pode ficar a vontade para mostrar a matéria para seu pacientes! o intuito é justamente esse! estamos preparando outros conteúdos nessa linha, aguarde!

    beijo!

  13. Georgea terça-feira, 11 de maio de 2010 em 20:24 -  Responder

    Olá sou fisioterapeuta e achei seu blog por acaso e me encantei ,dou sempre uma olhada para ver os novos post,adorei esse das adaptações,trabalho na AACD rio e foi bom ver vc falando dos meus colegas TOs e suas geniais adpatações.
    Abraços.

    maio 11th, 2010 - 20:37
    Christian Matsuy respondeu:

    Comentário feito por Christian Matsuy

    olá Georgea!

    Fico contente em encontrar profissionais da área visitando nosso blog! Isso de certa forma nos dá credibilidade e a sensação de um trabalho bem feito.. obrigado mesmo.

    Acho que quando o paciente está empenhado (o que nem sempre acontece) em desenvolver uma órtese ou uma adaptação, a T.O chegará a um resultado melhor, sempre. pelo menos eu penso dessa forma.

    um abraço a todos da rede AACD.

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