Do outro lado...

Do outro lado… (3) Desgraça não vem só

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02/05/1994 – Dia do aniversário de minha filha, que é 7 anos mais nova que o Nickolas. Ela estava completando 11 anos. Pois é, desta vez a situação não era de festa e ela ia entender. Mandei a “tata” comprar um anel que ela queria muito e dizer que assim que pudesse eu voltaria pra casa. Nessas horas, o instinto de mãe manda acudir a cria que está em maior risco. Não é uma questão de preferência.

De avião, Nickolas foi transferido para Curitiba. Foi uma “operação de risco máximo”, mas chegou vivo. Depois de uma avaliação, foi constatada uma lesão cervical (C6-C7) e a necessidade de uma cirurgia para alinhar as vértebras e liberar a pressão sobre a medula. Quando a gente pensa que o pior já aconteceu, aí vem mais coisa ruim: as “maledetas” infecções aéreas e hidráulicas, digo, pulmonar e renal. Febre alta, pneumonia, vai pra sala de cirurgia e volta, vai e volta… Eu, como uma barata tonta (ou mosca tonta? sei lá, estava perdida mesmo), andando pelo hospital, fazendo plantão na capela, reclamando da situação com o cara lá de cima, sentada no meio fio do estacionamento embaixo da janela da UTI (ô lugarzinho danado), vendo uns oito frascos pingando nas veias do Nickolas. Aí reclamo que ele tá com frio (inverno de Curitiba), com a janela aberta, que tem que dar chá de limão com mel para melhorar o pulmão. Coisa de mãe…

Por cinco dias não me deixaram entrar na UTI. A coisa estava péssima. Não importava mais se ia andar ou não: o que importava é se ia sobreviver. Cada presunto que saía de lá numa maca indo desta para a melhor, eu ia ver se era o Nickolas. Um dia perguntei ao médico chefe:

– O Nickolas já morreu?

– Ainda não!

PQP, aquele “ainda não” foi pra matar…

Numa noite ele conseguiu, em coma, morder a mangueira e bloquear a entrada do oxigênio. Tentativa de suicídio inconsciente? Não sei, mas o fato é que, de novo, ele quase se foi… O pulmão estava complicado. Veio um pneumologista que fez aspiração e evitou a temida traqueostomia.

Não paravam de chegar telegramas, mensagens, orações, cartas e até uma imagem da Nossa Senhora de Fátima de Portugal, que coloquei na cabeceira da cama. Pessoas de todas as religiões e crenças se reuniam para rezar. Um padre falou que como ele tinha sobrevivido aos “nove dias”, ele não ia morrer. Até hoje não descobri o significado dos nove dias.

16/05/1994 – Num evento em nossa cidade, um ginásio de esportes com mais de três mil pessoas silenciou para fazer uma corrente de oração e mandar energia. Dizem que foi de arrepiar.  É importante a solidariedade nas pessoas, ela nos fortalece.

E foram se passando os dias e as noites, até que numa pequena melhora geral arriscaram a tal cirurgia. Colocaram uma placa com um monte de parafusos no pescoço. Bom, se ele tinha parafusos a menos na cabeça, pelo menos agora ele já tinha parafusos a mais e já podia ficar sentado. Uma grande vitória!

A mensagem desse capítulo é que quando a gente começa a viver essas coisas, passa a dar mais valor a qualquer conquista. Coisas que antes pareciam insignificantes, tomam um valor enorme…

Clique aqui para ver os outros capítulos da história “Do outro lado…”

Sobre o autor / 

Nelci Burtet

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12 Comentários

  1. Marcelo Oliveira sexta-feira, 14 de maio de 2010 em 14:49 -  Responder

    Eu não sou médico, mas gostaria de abrir aqui um breve parênteses nesta história de coragem, para comentar minha opinião sobre a traqueostomia, que penso poderá algum dia ajudar.

    Todos estamos sujeitos a precisar de UTIs, e mesmo com todos os cuidados de higiene, elas são locais onde acidentados graves, pós-operados, normalmente sedados e respirando artificialmente via tubo endotraqueal (aquele que entra pela boca) estão sujeitos a contrair pneumonias. Mesmo fazendo-se aspirações constantes para remover as secreções que invariavelmente acumulam nos pulmões, até as sondas de aspiração também podem levar agentes patogênicos para os pulmões, e as pneumonias surgem com muita frequência. Costumam ser graves, não só pelo estado debilitado do paciente, mas também porque os agentes causadores já estão mais resistentes aos antibióticos.

    Quanto mais debilitado o estado do paciente, mais difícil é fazer o “desmame”, ou seja, mesmo que ele alcance uma saúde pulmonar adequada, e já se indique que é hora de a pessoa começar a respirar sem auxílio da máquina, muitas vezes é difícil “desmamar”, isto é, fazer com que a pessoa volte a respirar por conta própria. Eu não conheço todos os motivos que causam isso, mas como se não bastasse o próprio enfraquecimento geral do organismo, que certamente afeta a musculatura respiratória, algumas lesões medulares afetam diretamente estes músculos, e no caso da distrofia muscular, minha doença, existe a perda direta de força muscular.

    Há um período máximo para alguém permanecer com o tubo endotraqueal, coisa de 1 ou 2 semanas (acho), mas ele por si só já é um horror: com o tempo fere e causa dor, não permite boa remoção de secreções, é um corpo estranho, não permite que você beba água ou se alimente pela boca, etc. Quando este período de tempo expira e a pessoa ainda não desmamou do respirador (muito comum), é preciso fazer a traqueostomia.

    Para quem ainda não sabe, a traqueostomia é uma cirurgia para colocar um pequeno tubo curvo (a cânula) na parte da frente do pescoço, pouco abaixo do pomo-de-adão. A cânula passa pelo furinho, penetra alguns centímetros na traqueia, e é onde a conexão com o respirador mecânico passa a acontecer.

    Na minha opinião, e ao contrário do que geralmente se pensa (e eu também pensava), é mil vezes melhor fazer a traqueostomia, e por muitas razões: é uma cirurgia com anestesia local, relativamente simples, e leva 15 minutos; com dois ou três dias você pouco nota que a cânula está lá; a higiene pulmonar é muito mais eficiente; a ventilação é mais eficiente; muito provavelmente as pneumonias serão combatidas mais facilmente, e muito mais importante, não retornarão; sem nada entrando pela boca, você poderá comer mais, melhor, e ficará mais forte, facilitando muito a recuperação dos músculos respiratórios e o desmame; e por fim, se o tempo de uso não for muito longo, as cânulas serão trocadas por tubos cada vez menores e a traqueostomia fechará sozinha, sem precisar de cirurgias adicionais. Enfim, ninguém gosta de traqueostomia, mas se algum dia você precisar de uma, não tenha medo de fazê-la pois não será nenhum bicho de sete cabeças.

    maio 15th, 2010 - 19:02
    Nelci Burtet respondeu:

    Olá Marcelo! Obrigada pelo seu comentário. É realmente este o meu objetivo escrevendo essa história: gerar esclarecimentos. Um abraço.

  2. SALETE ZANETTE sábado, 15 de maio de 2010 em 16:03 -  Responder

    CARA AMIGA NELCI E MEU QUERIDO NICKOLAS

    NÃO PODERIA DEIXAR DE ESCREVER. ESTOU REVIVENDO O FATO COM VOCÊS. NA ÉPOCA MUITO DOLORIDO. HOJE, ENTRETANTO, TODOS SUPERAMOS A TRAGÉDIA. MAS NÃO FOI FÁCIL. FOI UM LONGO E DIFICIL CAMINHO.
    PEÇO A DEUS QUE OS CONSERVE COM ESTA ALEGRIA, COM ESTA VONTADE, COM ESTE ENTUSIASMO PELA VIDA. POIS SERVIRÃO DE EXEMPLO E DE INCENTIVO A OUTRAS PESSOAS.
    QUERO DEIXAR MEU ABRAÇO CARINHOSO E O ORGULHO DE TÊ-LOS TÃO PRÓXIMOS.

    MUITOS BEIJOS
    SALETE

    maio 17th, 2010 - 16:27
    Nelci Burtet respondeu:

    “A ocasião nos faz irmãos, o coração nos faz amigos”. Você sabe o quanto sua amizade e apoio são importantes para nós. Jamais esquecerei as mensagens e orações que você mandou. Sem dúvida, elas me deram energia e coragem na hora que mais precisei. Beijo no coração.

  3. Pedro Zanette sábado, 15 de maio de 2010 em 16:19 -  Responder

    Nelci,

    poderia te dizer pessoalmente sobre o que aqui vou escrever.
    Compartilhamos todo o sofrimento com a recuperação do Nicki.
    Ficaria aqui uma semana escrevendo. Mas esse é apenas um comentário. E, quero fazê-lo sobre o que você escreveu no dia 02 de maio. Achei um capitulo fantástico. A gente se conversa todo dia e não percebi uma coisa. Você escreve muito bem. De uma forma prática, objetiva e divertida. Aliás, como você é na vida real.
    Ein? Parece que a palavra “sobreviver” aparece todo dia, não é?
    Até sem plano a gente fica…
    Parabéns pela tua atitude em escrever para este blog “mão na roda”. Vai ser muito útil para quem continua a viver de uma maneira com um pouco mais de dificuldades.
    Mas quem não as têm?
    Continue contribuindo dessa maneira descontraida de tratar um assunto tão sério com versatilidade e disposição.
    Você tem um filho maravilhoso que de uma forma ou outra iria vencer na vida. Algumas pessoas usam suas pernas para se enveredar por caminhos que entristecem seus familiares e causam tantos problemas…
    O Nickolas continua dando muitas alegrias.
    Parabéns gigante. Quando vamos de novo enfrentar aquele Paraguai ein Nickolas? Affffffffffffff
    Vou parar por aqui. Um abraço prá Nelci, pro Nickolas e também para a nossa afilhada, sua filha Nelci, a Isabella. Prá que coisa melhor que vocês três?
    Byeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

    maio 17th, 2010 - 16:28
    Nelci Burtet respondeu:

    Obrigada amigo! A presença de pessoas como você, nos dá forças para enfrentar os desafios e voar. Amamos você.

  4. Isabella sábado, 15 de maio de 2010 em 18:26 -  Responder

    Oi gente!!!! Sou a Isabella, filha da Nelci, e irmã do Nickolas, o pivô de todos esses depoimentos.
    Estava esperando ansiosamente a minha hora de entrar, discretamente, nessa história. Sou mais uma personagem que direta ou indiretamente passou pelas dificuldades que um acidente causa na vida de um novo cadeirante.
    Confirmo o início da história: sim, ganhei de presente de aniversário um anel de São Bento! Engraçado, hoje fico pensando: “por que uma menina que iria completar 11 anos queria um anel de São Bento?” Vendo o significado dele, encontrei que ele é um poderoso socorro a vitória contra tentações e alcance de graças. Pois é, hoje o anel virou amuleto, e guardo carinhosamente até hoje!
    Mesmo pequena, lembro-me de alguns episódios de revolta, que eram totalmente aceitáveis, para a situação em que o Nick estava. Que atire a primeira pedra quem nunca pensou em desistir da vida a ter que conviver com as novas limitações? Hoje ele é um exemplo de austúcia, persistência, inteligência e acima de tudo, muita superação!!!
    Como irmã, sou extremamente suspeita para elogios. O orgulho de ter alguém tão próximo, atingindo conquistas tão significativas, faz com que você se sinta uma formiguinha perto de dificuldades triviais, como ter um pneu furado em plena ida ao trabalho, ficar sem água por algumas horas, ou esquecer o guarda-chuva em casa e tomar “aquele” banho indesejado!!!
    Ao ver que a cada dia o assunto cadeirante está tomando grandes proporções, vejo com orgulho as adaptações nas ruas, nos carros, nas casas e até em bikes!!!!
    Ser irmã de um cadeirante me fez amadurecer mais rápido, ser mais humana e a cada dificuldade, ser menos reclamona 🙂
    Só tenho a dizer que todos vcs são vitoriosos, conquistadores de grandes atos e exemplos de vida!
    Bjo grande pro Nick, para os demais responsáveis pelo blog!
    E pra vc mãe, até o próximo capítulo!

    PS: fugindo um pouco do assunto…. alguém aí ficou vidrado nas cenas da Luciana, mesmo que para analisar se o papel estava sendo verídico mesmo, né?! rsrs Eu fiquei, e achei que a atriz Aline Moraes mandou muito bem…

    maio 17th, 2010 - 16:29
    Nelci Burtet respondeu:

    Olá filha! Você foi fantástica e companheira no apoio ao seu irmão e de muita comprensão com sua mãe. Nós fazemos parte do outro lado, mas que na verdade acaba sendo um lado só: AMOR!

  5. Dalila Zanette terça-feira, 18 de maio de 2010 em 23:01 -  Responder

    Oi Dona Nelci

    Achei ainda mais lindo e emocionante esse capítulo. Como a minha mãe falou, tenho orgulho de conhecer vocês e compartilhar a sua história de superação. Beijos!!! Dalila.

    junho 22nd, 2010 - 10:06
    Nelci Burtet respondeu:

    Dalila! Oi, já de volta pro Brasil? Vida de cientista não é fácil. Bj

  6. Divaneide Silva Lazzeris sexta-feira, 20 de maio de 2011 em 20:10 -  Responder

    Minha querida Nelci, foram momentos de angustia e muita dor. Todos nós sofremos com sua história, mas sua força e amor de mãe fez toda a diferença. Eu admiro você, seu filho. Hoje sei que ele é um vencedor, sempre muito inteligente, estudioso. Uma família linda digna de respeito e admiração. Que Deus a abençoe, sempre. Gosto muito da seu otimismo, com você aprendi muito. Mas saiba que Deus tem planos para nossa vida. Beijos e saudades!!!

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