Do outro lado… (4) Até a ficha cair
Nelci Burtet - sexta-feira, 21 de maio de 2010 - 08:59
Em um mês pode-se viver anos e amadurecer uma vida inteira. Durante o tempo que fiquei zanzando de um lado pra outro, do corredor para a capela, da capela pra sala de espera, comecei a pensar nos acontecimentos dos últimos dias e consegui identificar pelo menos quatro estágios até que a ficha caísse:
I – NÃO ACREDITO: num primeiro momento, nossa consciência insiste em não acreditar. Sim, porque a gente pensa que pode acontecer com todo mundo, menos com alguém do nosso meio.
II – MILAGRE: tudo bem, é isso mesmo… mas não tem problema, já, já, vai acontecer um milagre… Deus vai atender às preces minhas e de todas as pessoas que estão orando por ele. Afinal, para Deus nada é impossível, agora ele vai mostrar realmente que gosta de mim e do meu filho e vai fazer isso parecer que foi apenas um pequeno pesadelo.
III - REVOLTA: os dias passam, as coisas complicam, e daí você se revolta e se desespera ao mesmo tempo. Agora você passa a questionar porque Deus não faz nada. Fui evangelizada na religião católica apostólica romana e, é claro, minha revolta foi contra Jesus. Na capela do hospital tinha um grande crucifixo. Era lá que eu pedia e também reclamava:
- Pôxa, eu ensinei e cuidei de tantos adolescentes e jovens (era professora), levei pra viajar, tratei como se fossem meus filhos, por que você não cuidou do meu e deixou isso acontecer? A gente não merece…
Foram dias e dias de muita discussão entre Deus e eu. Às vezes eu ia numa igreja ali perto, onde tinha uma estátua de Nossa Senhora das Graças, e pedia a ela que, como mãe, me ajudasse (depois mandei construir em minha casa uma gruta em sua homenagem). A gente tinha que entrar num acordo.
IV – ACEITAÇÃO: quando me despojei da descrença, da ilusão, da revolta, encontrei a paz. A paz para aceitar e, com o ânimo que restava, refazer a vida da melhor forma possível. Esta fase ainda estou vivendo e vai continuar até que eu me vá. O segredo de ser feliz não é ter tudo como você quer, mas aceitar as
coisas como são e, é claro, lutando para melhorá-las cada vez mais. Condicionar a felicidade a uma situação da qual não temos controle é pedir para ser infeliz, triste, desesperado, insatisfeito…
Final de maio, Nickolas foi liberado do hospital. Estava fraco, magro, esquelético e com a imunidade muito baixa. Voltamos pra casa e ele ficou aos nossos cuidados. Neste caso, quanto mais gente, mais risco. As visitas eram muitas e eu ouvi uma pessoa dizer que o tínhamos trazido para “morrer em casa”.
Virei onça! Não deixei mais ninguém entrar no quarto. Aí me chamaram de grossa, que eu não queria que vissem meu filho, e patati, patatá…
Ah, mas o que eu estava fazendo era para defender a cria.
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Comentário feito por Camylla Araújo
Tudo exatamente assim, não sou mãe, mas sou noiva e me deparei com tudo isso acima descrito!
Nelci Burtet respondeu:
Camylla, é certo que quem está do outro lado tambem tem suas recaídas. A diferença é que estamos fortalecidos com a experiência que tivemos. Bjo.
Comentário feito por Olá Amigos do Site
Muito legal a sua matéria, também passei pelos mesmo estágios, diria assim que de inferno Dantesco, passou a saga Herculana, onde os monstros da Terra, em primeiro preconceito, depois as escadas, buracos, mal uso das verbas públicas efim..
Me chamo Thiago e gostaria que desse uma olhada nesse evento, se possível, mesmo em cima da hora..dar uma enfase nesse evento.
http://www.sjp.pr.gov.br/portal/noticia.php?id=1274391452865960
ou pode googlear com a seguinte chave 1º Rally deficiênte físico em SJP.
Quem sabe o próximo não seja um salto de paraquedas não?
Ps – li a matéria sobre a cadeira de rodas, sinto também que puxo 20 elefantes, 4 leões, 2 zebras e um texugo manco…eis a minha pergunta.
Eu dirijo, gostaria de eu mesmo levar a cadeira de rodas no banco do passageiro enfim a dúvida é devo eu comprar uma cadeira que fexa em x em L? qual me facilitaria a vida?
Desde já agradeço, espero que me aceitem na comunidade… gosto de partilhar ..
Abraços
Att Thiago
Nickolas Marcon respondeu:
Thiago, sugiro que vc participe da nossa comunidade no orkut para trocar ideias com outros cadeirantes sobre a cadeira que melhor lhe convém:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=39710435
Nelci Burtet respondeu:
Thiago, realmente, se vai do inferno ao céu muitas vezes. Tem tempo que até hibernamos um pouco no purgatório. Mas nada que nos tire o valor de viver. Abraço.
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[...] – Pô, será que essa mulher nunca se abalou com a situação? Poucas vezes ela falou de emoção, e parece que só foram alegrias. Será que nunca bateu nela, nesse tempo todo, um desânimo, uma depressão, uma recaída lá nas famosas fases do capítulo 4? [...]