Do outro lado...

Do outro lado… (5) Peripécias

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Por dois meses ficamos confinados num quarto. Eu, que nunca fui muito fã de trabalhar na área médica, tive que ser de tudo um pouco: enfermeira, nutricionista, fisioterapêuta, psicóloga… Mas a gente ia aprendendo e se virando. No início, cada vez que eu tentava colocar o Nickolas sentado, ele apagava. Lá ia eu com a máscara de oxigênio para reanimá-lo…

Outra preocupação eram as escaras: essas feridas aparecem devido à imobilidade e consequente pressão constante num mesmo ponto. Para evitá-las, o melhor é mudar de posição repetidamente. O uso de produtos receitados pelos médicos (pasta d’água é muito bom) também ajuda na prevenção. Mas também tem as receitas caseiras. Todo mundo sempre tem uma “receita infalível” para os problemas e, na hora da dificuldade, uma mãe faz qualquer negócio para ver o filho melhorar. Querem ver?

Por causa do acidente, o Nickolas teve uma queimadura no peito (o cano de escape ficou em cima dele), parecia um bife e demorou seis meses para cicatrizar. Até açúcar cristal a gente colocou para acelerar a cicatrização. Outra história foi a do óleo de peixe. Certa vez me disseram que o óleo da espinha de um peixe raro do pantanal ajudaria a recuperar a medula. Mandei buscar o tal do peixe a preço de ouro, separei a espinha, fervi e tirei o óleo. Aí veio a pior parte: passar na pele nas costas, sobre a coluna vertebral. O coitado ficou fedendo a peixe por 7 dias e 7 noites. Não tinha banho que tirasse a catinga.

Uma coisa muito séria: fisioterapia. Eu mesma não acreditava que aqueles movimentos resolveriam alguma coisa. Deixava fazer, mas não acreditava. Aí a coisa foi evoluindo, começa a rolar pra cá, pra lá, equilibrar um pouco mais para sentar, posição de engatinhar (pra não dizer de quatro), o corpo se fortalecendo e as conquistas físicas acontecendo. Me convenci: fisioterapia é essencial e os movimentos básicos devem ser repetidos todos os dias.

Mas as coisas não eram só tristeza, não! As alegrias já apareciam novamente. Um dos dias mais felizes foi no início de agosto/94, quando tirei o Nickolas pela primeira vez do quarto na cadeira de rodas. Passando pela sala, um teclado estava sobre a mesa e lembrei que três anos atrás, num recital do Dia das Mães, ele havia tocado uma música em minha homenagem: “El Condor Pasa”. Eu ainda tinha medo de sequelas cerebrais, que sem dúvida são muito piores que as físicas. Queria ter certeza de que ele não tinha esquecido e pedi que tocasse a música.

– Ah mãe, não dá, faz tanto tempo que não toco. Não lembro mais.

– Só um pedacinho – insisti.

Aproximei a cadeira da mesa, liguei o teclado e ele, com as mãos meio atrofiadas, os dedos magérrimos, tocou alguns acordes da dita música. Foi uma das maiores emoções da minha vida. Para mim, meu filho estava ótimo e agradeci a Deus por tê-lo me devolvido por inteiro.

Em setembro/94, quatro meses depois do acidente, saímos da toca, quer dizer, de casa, pela primeira vez. Fomos à festa do santo padroeiro da cidade e, é claro, como era uma cidade pequena, todos nos conheciam. Olhavam pra ele como se fosse um ET. Lá pelas tantas vejo o Nickolas com meio metro de língua pra fora. Na direção dele, uma mulher (amiga minha e colega de trabalho) olhava insistentemente para ele.

– Nickolas, o que é isso? Que falta de educação ficar mostrando a língua pras pessoas.

– Mãe! A mulher não parava de olhar pra mim com cara de espanto.

É assim. As pessoas não fazem por maldade, mas às vezes irritam, principalmente se ficarem manifestando piedade. Ninguém gosta, nem quem está na cadeira e nem quem está do outro lado. É só respeitar.

Retomei minha vida profissional (setor cultural e esportivo do município) e o Nickolas passou a ser, por uns tempos, um dos meus melhores colaboradores. O prédio em que eu trabalhava, como a maioria, não tinha rampa de acesso. Um dia resolvi descer uma escada de uns 10 degraus com a cadeira e ele em cima. Bem que ele avisou que não ia dar certo, mas como sou um pouco teimosa, fui adiante. Faltavam uns três degraus, eu segurando a cadeira, descendo de costas, quando… cataplum!!! Só deu tempo de agarrá-lo pelas costas e lá fomos nós rolando pro chão. A cadeira já ia andando sozinha lá no meio da rua e eu torcendo para nenhum carro acertá-la… E para voltar do chão para a cadeira? Não foi fácil levantar, mas conseguimos. Nenhuma consequência grave, mas que foi um belo tombo, foi.

Foi uma lição para aprender que conduzir uma cadeira de rodas requer mais que vontade. É preciso força também.

Clique aqui para ver os outros capítulos da história “Do outro lado…”

Sobre o autor / 

Nelci Burtet

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9 Comentários

  1. Evandro sexta-feira, 28 de maio de 2010 em 09:08 -  Responder

    “Mãe”, tô adorando essa “série”. Não para não!!

    Beijão em seus corações!!

    maio 31st, 2010 - 00:41
    Nelci Burtet respondeu:

    Claro que não. Agora vai ter que ter um final. E vai demorar mais alguns capítulos. Bjo

  2. Priscilla sexta-feira, 28 de maio de 2010 em 21:24 -  Responder

    kkkkk nao pude deixar de rir ” a lingua pra fora ” foi demais rsrs
    infelizmente tem mt gente preconceituosa
    mas admiro sua força,lindo post Parabéns mas uma vez

    maio 31st, 2010 - 00:40
    Nelci Burtet respondeu:

    Seu incentivo é muito bom. Que bom que está gostando. Bj

  3. Luiza segunda-feira, 31 de maio de 2010 em 15:32 -  Responder

    A mãe do Nikolas está parecendo a Alinne Morais, na novela que passou recentemente na rede Globo, que não lembro o nome, pq não assisto novela nenhuma. Ou seja, que teria de BRILHAR era a Thais Araújo, no entanto, quem brilhou foi a Alinne Morais. Aqui, está sendo a mesma coisa, quem está brilhando e dando show de “roda” é mãe do Nikolas. Cris, Bianca, Eduardo, vcs vão perder o posto de blogueiros mais lidos, heim! Se liguem. Não deixe de dar continuidade a história, MÃE DE NIKOLAS, bjs, e força sempre. Vc é uma vitoriosa.

    junho 1st, 2010 - 16:35
    Nelci Burtet respondeu:

    Oi Luiza! Nossa! Fiquei emocionada com seu comentário. Creio que o brilho que a gente tem é o amor com que fazemos as coisas. E eu estou amando escrever pra vocês. Espero que me deixem acabar a história. 🙂 Obrigada e beijo no coração. Nelci.

  4. rosa terça-feira, 1 de junho de 2010 em 14:01 -  Responder

    Olá, Nelci,

    Sou leitora assídua do blog.

    Estou adorando suas postagens, penso que nas adversidades que enxergamos o tamanho na nossa força, por isso, continue firme escrevendo, transmitindo sua vivência de mãe para os leitores, cadeirantes ou não, brancos, pretos, amarelos, enfim humanos…

    Sou andante e namoro há 4 meses, um rapaz cadeirante. Está sendo uma experiência muito enriquecedora sentimentalmente, e socialmente abriu minha mente para a necessidade da acessibilidade.

    Beijos
    Bia

    junho 1st, 2010 - 16:33
    Nelci Burtet respondeu:

    Fico feliz em ter sua atenção. Realmente só sabemos a força que temos quando somos colocados à prova. E, assim que superamos um obstáculo, ficamos ainda mais fortes para enfrentar os próximos. Desejo que seja muito feliz com seu namorado. Pode ter certeza de que ele é uma pessoa especial. Bjo.

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