Pessoas com deficiência x pessoas sem deficiência

De uns tempos pra cá, por motivos óbvios, passei a me interessar por acessibilidade na web. Primeiro porque trabalho com webdesign e segundo porque escrevo no Mão na Roda.  🙂

Foi assim que passei a fazer parte da lista de discussões da Acesso Digital (muito boa pra quem se interessa pelo tema) e tive acesso a vários textos interessantes que brotavam de nossas trocas de email. Resolvi transcrever um deles aqui no blog, pois o que começou como resposta a uma discussão sobre acessibilidade web se transformou numa ótima observação sobre a interação “pessoas com deficiência x pessoas sem deficiência”.

O texto é do nosso amigo MAQ, que é cego e autor do blog Bengala Legal e do site Acessibilidade Legal. Valeu MAQ!

“O grande problema dos arquitetos de informação atualmente é definir quem seja público alvo. Como os empresários, em geral, não sabem que pessoas com deficiência existem, elas nunca estão no público alvo dos arquitetos. É a mesma coisa que acontece com as mulheres em relação aos cegos. Como nós não vemos, imaginam que somos a salvação da lavoura ou, por outro lado, que não somos nada. É essa falta de aproximação entre pessoas com deficiência e pessoas sem deficiência que cria o preconceito. Essa distância abre espaço para todo tipo de imaginação. Imaginam como somos, o que fazemos, como vivemos etc.

Quando eu estava recém cego, com 21/22 anos, estudava na PUC-Rio e as mulheres me perguntavam quem me dava banho (eu sempre respondia que eram voluntárias) e se eu era virgem… E eu só acabei com a minha fictícia virgindade quando não dava mais para esconder a verdade, pois casei, mesmo assim, muitos tinham dúvidas! (risos).

Esse estigma da deficiência, seja de uma cadeira de rodas, de uma bengala, de um aparelho auditivo, seja o que for, faz com que sejamos “desconhecidos” e as pessoas acabam criando “o mundo do cego”, “o mundo do surdo”, menos um pouco, “o mundo do cadeirante”. Como se não sentássemos nas mesmas cadeiras, não comêssemos as mesmas comidas, não praticássemos as mesmas coisas… Fôssemos todos “espirituais”.

Certa vez uma garota na faculdade me disse que o legal de um cego é que nós víamos o caráter de uma mulher, sua espiritualidade, sua cultura, bondade etc… E ela ficou chocada quando eu disse que tudo isso era legal, mas que era melhor ainda quando vinha acompanhado de pernas grossas, seios médios, boca carnuda e um traseiro que não desse para apalpar de uma só vez.

As pessoas tiram a nossa sexualidade com uma facilidade incrível e ficam chocadas quando a mostramos. Portanto, lemos livros, assistimos televisão, temos carros, moramos em apartamentos alugados ou nossos, assinamos contratos e tantas coisas… Que até navegamos na internet quando deixam! (risos). Tinha de ter uma conclusão com acessibilidade web, né?

Abraços off topic do MAQ.”

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13 comentários em “Pessoas com deficiência x pessoas sem deficiência

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  • terça-feira, 22 de junho de 2010 em 00:54
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    Muito bom o texto do MAQ, que retrata a falta de informação que se passa pelas pessoas. Eu confesso que tinha muitas dúvidas sobre como seria a vida depois do meu problema e se sofreria preconceitos por ter ficado deficiente, mas graças a Deus nunca tive problemas.

    Claro que algumas perguntas são tradicionais e sempre se relacionam a sexualidade. É impressionante como as pessoas se preocupam com isso e quando sabem da verdade ficam com cara de que não acreditaram.

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  • terça-feira, 22 de junho de 2010 em 10:17
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    Que lindo texto! Senti leveza, transparência, delicadeza em todas essas informações! Parabéns, isso é uma grande verdade Mac.
    Abração,
    Ilma

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  • terça-feira, 22 de junho de 2010 em 11:05
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    Texto sensacional.
    Eu li uma reportagem na Revista Junior, em que um cadeirante gay dizia uma coisa muito parecida com isso que MAQ falou. As pessoas sem deficiência acham que, numa relação, somos seres elevados, temos que ser bonzinho, não ligar pra aparência, ver o interior.
    Só porque MAQ é cego, ele tem que ser tão diferente dos caras da sua idade, no que tange à beleza da sua escolhida? Só por que eu uso cadeira-de-rodas eu tenho que ser a namorada mais legal e altruísta do mundo? Não mesmo!
    Quando o assunto é sexualidade, então, é uma piada. Tudo bem que as pessoas queiram esclarecimentos sobre como é que acontece, mas o que eu detesto é quando elas partem do pressuposto que não é sexualidade, ou que ela é quase nula.
    Mas isso só vai mudar com a convivência dos deficiente com os não-deficientes. E, para isso, é preciso inclusão e acessibilidade. As crianças, que convivem com deficientes na escola, saberão que seu coleguinha não é tão diferente quanto parece. As pessoas verão seus colegas de trabalho chegarem cansados e sorridentes, tal qual ou mais que eles, depois de uma bela noite.
    Só assim, acredito eu.
    Parabéns pelo post e obrigada por trazer pro blog esse texto!

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  • terça-feira, 22 de junho de 2010 em 14:47
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    Bom, sou uma pessoa “sem deficiência” mas sou uma leitora do blog e me interesso muito pelo assunto inclusão.
    O maior motivo do meu interesse é a minha revolta com a arquitetura do nosso país e por saber que, muitas pessoas não conseguem o direito PLENO de ir e vir por conta de obstáculos físicos encontrados em ruas, como calçadas esburacadas, falta de guia rebaixada ou a falta de educação de muitos que estacionam em vagas especiais para deficientes físicos e idosos, com as desculpas mais ouvidas: “mas é rapidinho” ou “mas é urgente” etc.
    Outra coisa que me revolta são os transportes públicos. Mesmo sabendo que melhorou, que uns oito anos atrás, pelo menos em São Bernardo do Campo-SP, nunca vi um ônibus adaptado naquela época, ainda há muito o que evoluir.
    1-A falta de preparo de muitos funcionários para operar o elevador é grande;
    2-Não percebi, pelo menos a olho nú, uma maneira de um cadeirante sinalizar para o ônibus parar.
    3-A solução melhor, para todas as pessoas, não seria um ônibus mais baixo? Com uma simples rampa e com um degrau só?Desta maneira, seria melhor para idosos e principalmente, para deficientes visuais.
    A curiosidade de pessoas não deficientes com relação a sexualidade deve ser terrível. Eu particularmente não gostaria de que pessoas me perguntassem coisas tão íntimas assim!!! Mas, na minha opinião, o que origina tudo isso é a falta de informação de muitos, que com sua “ignorância”, acham que um deficiente visual, auditivo ou um cadeirante não conseguem ser independentes, trabalhar, estudar, namorar…
    Bom, espero que esses paradigmas sejam quebrados e que situações, como as descritas acima pelo MAQ, não sejam mais vivenciadas.
    Aline Belo

    PS: Ótimo texto do MAQ!!

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  • terça-feira, 22 de junho de 2010 em 15:05
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    Bianca, conheço o MAQ desde 2000 da extinta Lista Vital no Yahoo Grupos.

    Ele é o tipo de pessoa que a gente “ama ou odeia”. Não dá pra ter meio termo porque ele tem ideias e conceitos próprios sobre os mais diversos assuntos e os defende com unhas e dentes.

    Essa questão da sexualidade deu muito pano pra manga na Lista Vital justamente porque ele (além de mim outros, é claro) defendía que a sexualidade tinha de ser exercida e experimentada por todos nem que fosse “pagando”!!!

    Você nem imagina o quanto que os mais puritanos nos apedrejaram, mas no final o saldo sempre foi positivo porque o assunto era discutido de forma bem aberta e muitas dúvidas e tabus foram quebrados.

    Gostei da sua “sacada” na qualidade do texto e ter colocado aqui pra todos conhecerem um pouco mais dessa figura que é o MAQ. Eu li esse texto na Acesso Digital e nem dei tanta importância, porque já o conheço há bastante tempo e sei que ele fala exatamente o que pensa de forma bem divertida (e séria!).

    Um abraço,
    Gil.

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  • quarta-feira, 7 de julho de 2010 em 17:36
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    Puxa, gostei de todos os comentários. Sei que as questões de sexualidade são pertecentes a todos nós, com e sem deficiência e independente da deficiência. A nossa questão específica é que a desssexualização da pessoa com deficiência ajuda-nos a ficar transparentes, como se no jogo da vida nossos desejos, atrações, taras e inibições não existissem e portanto, estamos fora do que seja muito gostoso e natural de se viver.

    A questão vai continuar sendo… matar a cobra e mostrar o pau. (que o ditado me permita), pois matam nossa “cobra” e quando mostramos o “pau” ficam chocados de perderem a antiga visão que possuíam da gente.

    Obrigado a todos os amigos. Bem, vamos mostrar o “pau” por aí? As mulheres maquiadas como gostam, perfumadas com cheiros bem sensuais (isso é importante para nós cegos, viu?) e colocando todo o charme que as mulheres possuem. Os homens também, amigos, coloquem suas masculidades para fora. Gays, saltem as frangas, com todo o respeito.

    Querendo se aprofundar no assunto, visitem:
    http://www.bengalalegal.com/psicologia-e-saude.php

    Abraços agradecidos e bem visíveis do MAQ.

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  • quarta-feira, 6 de outubro de 2010 em 19:43
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    posso ter apenas 12 anos mais acho que assecibilidade e um direito de todos.
    sei que nao e derrepente que o brasil vai vir a ter assecibilidade assim tao derrepente
    mais acho tambem que cada um de nos devemos ajudar um pouco como por exemplo: uma pessoa com a visao plenamente perfeita pode ajudar um cego a atravesar a rua, nao vai cair a mao de ninguem!!!!

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  • segunda-feira, 2 de maio de 2011 em 22:54
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    Olá!

    Sou estudante de Comunicação e estou fazendo um trabalho sobre pessoas com deficiência física e mídia. Preciso reunir todas as publicidades de 2009 e 2010, nas quais apareçam pessoas com deficiência física. Alguém pode me indicar se há algum órgão responsável por catalogá-las? Meu e-mail é anepolastri@hotmail.com . Um abraço, Anelise.

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  • quinta-feira, 24 de novembro de 2011 em 12:57
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    Olá!
    Somos do curso de turismo e estamos fazendo um trabalho acadêmico sobre acessibilidade no turismo, focalizando na parte de perfil de viagens das pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida e também quanto as dificuldades e também facilidades encontradas nos destinos. Agradeceríamos se pudessem responder ao questionário! Desde já agradeço a atenção. Aqui está o link do questionário

    https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dGJsWEhVRzI5aENHSEI2R1RadFJSTFE6MQ

    Att. Tamiris Corrêa

    novembro 24th, 2011 - 13:09
    Christian Matsuy respondeu:

    Tamiris,

    Respondemos o questionário, porém você obterá mais respostas se o publicar na nossa comunidade no Orkut.

    Abraços,
    Christian

    Resposta

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