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Mundial de handbike do Canadá

Eduardo Camara - quinta-feira, 2 de setembro de 2010 - 13:15

Estou com uma semana atrasado, mas deem um desconto. A viagem foi muito corrida e cansativa. Gastei 36h desde a saída de casa no Rio até a chegada no hotel do Canadá. Foram 4 voos (um deles em um teco-teco de 26 lugares), horas e horas de aeroporto e mais um monte de estrada dentro de uma van. O hotel em que nos hospedamos ficava a mais de 100Km (!!!) de distância do local da prova, pois todos os outros que eram mais perto estavam lotados. Muito cansativo e um verdadeiro inferno ter que gastar 2h30m todo dia só nas idas e vindas.

A população compareceu em massa!

A cidadezinha do campeonato, Baie-Comeau, é uma vila no meio do nada. O lugar é bonitinho? É sim, mas não tinha estrutura para receber tanta gente. O centro da cidade é uma rua de 300m de comprimento. Literalmente. Mas claro que isso também tem os pontos positivos. Como não há nada para se fazer na cidade, a população inteira (pouco mais de 20 mil habitantes) foi prestigiar a prova. Beeeeem legal!

Eu e Aranha babando uma Carbonbike - handbike que chega a pesar 9Kg

Chegamos no hotel terça-feira à noite e desabamos na cama. No outro dia, já estávamos de pé às 7h para “viajar”  de carro até Baie-Comeau e começar os preparativos. Passei por um classificação funcional onde uma equipe avalia minha capacidade física e atribui uma pontuação. De acordo com essa pontuação, sou alocado em uma determinada categoria. Sem surpresas, caio na categoria H2, como esperado. O Aranha não teve a mesma sorte. Devido à uma regra nova, acabou sendo alocado na categoria H4 e tinha que correr em uma bike de ajoelhar, que ele nem mesmo tem. O resultado foi que ele pode correr apenas a prova de contra-relógio e mesmo assim sem registro de tempo. Foi uma sacanagem sem tamanho e vou escrever mais sobre isso no blog da handbike para quem quiser entender melhor como funciona a classificação funcional…

A equipe da Holanda tinha uma estrutura de cair o queixo. As handbikes não ficavam atrás...

Logo depois da classificação funcional fomos buscar nossas malas – que não cabiam no teco-teco e vieram de caminhão – e bikes. A cidade já estava lotada de atletas de todas as categorias. Centenas de handbikes, tandems e bikes convencionais circulando. Aí caiu a ficha de que estava no campeonato mundial, junto com os melhores atletas do mundo. Sensacional!!!

Hora de montar e regular as hands. Acabamos demorando mais do que o previsto e o resultado foi que não consegui fazer a volta de reconhecimento no percurso. Andei apenas os 3 primeiros quilômetros e só descobri os outros 8 no dia seguinte, já durante a prova.

Eu na largada da prova de contra-relógio

Na quinta-feira, dia 19/08, rolou a prova de contra-relógio individual, onde cada um larga separado e deve fazer o circuito no menor tempo possível. Eram apenas 11,4Km, moleza para quem treina 50 por dia, mas tinha um pequeno detalhe: duas subidas com inclinação de 12% e cerca de 500m cada. Destruidoras. Nunca senti tanta dor na vida e juro que pensei em desistir da carreira de ciclista por ali. Para quem está acostumado com os trechos planos do Rio, aquilo foi um verdadeiro suplício… E para completar, ainda tive problemas com a bicicleta na subida. Minha corrente caiu e daí demorei mais de um minuto recolocando-a no lugar. Depois da subidaona, uma descida vertiginosa onde a bike chegava a 65Km/h sem pedalar. Desci travado e no final, não podia ser muito diferente: cheguei em último.

Fernando Aranha e Eduardo Camara na largada da prova de contra-relógio

Não me abalei pois era disparado o menos experiente de todos os corredores. Dez meses de treinamento intenso aqui no Brasil valem muito, mas não dá para comparar com a galera dos outros países, principalmente da Europa, que já corre há anos. E vários dos atletas vieram de outros esportes, como a corrida em cadeira de rodas. O desafio era mesmo correr contra mim mesmo e dar o meu melhor.

Tentei descansar na sexta-feira, mas não deu. Mais acertos na bike para que a corrente não caísse e também aproveitei para ver as outras corridas. Foi um barato assistir os tops do mundo no paraciclismo e ver o Brasil ganhando a primeira medalha – de bronze – na prova de contra-relógio da categoria C5 com Lauro Chaman. O desempenho dos atletas brasileiros foi muito bom e na categoria C5 o Brasil fechou o pódio na prova de estrada que rolou no domingo, algo que só outro país conseguiu fazer (Suiça na prova de estrada da categoria H2).  Se considerarmos a diferença de estrutura da equipe do Brasil para a dos outros países e a falta de incentivo ao esporte que temos por aqui, o mérito é ainda maior. Para terem uma idéia, nossa delegação tinha 10 atletas e apenas mais dois grandes caras (Romolo Lazzaretti e Cláudio Civatti) que se desdobraram o tempo todo fazendo papel de chefe de delegação, técnico, motorista, mecânico e o que precisasse. Tiro o chapéu para os dois!

Momento de descontração

No sábado, almocei cedo – a comida era pior do que a do bandejão da faculdade – e tentei me concentrar para corrida de estrada, que começava às 13:30. Nessa corrida, todos largam juntos e ganha quem chegar primeiro. Eu, nervoso, só pensava em ter que encarar o “himalaia” canadense 4x! Mas foi só alinhar na largada que fui tomado duma sensação muito boa. Estava ali, lado a lado com todos os outros competidores sinistros que eu só conhecia por fotos, vídeos e Internet. Os caras são muito fera e  é claro que só os vi quando alinhamos para largar :-)

Dada a largada, consegui acompanhar o bloco principal por 1 Km, até chegar a primeira subida. Meu coração estava a 188 BPM (marca nunca atingida antes) e tive que diminuir um pouco o passo para não correr o risco de deixar a Bibinha viúva. De lá, fui só seguindo um australiano que estava uma centena de metros na minha frente. Cheguei a perder o tal australiano de vista, mas o encontrei novamente quando cheguei à base do Everest. Joel Jeannot (francês) e Vicco Meklein (alemão), respectivamente primeiro e terceiro lugares da categoria H3, me incentivavam com “allez! allez!” e “go! go! go!” enquanto eu botava os bofes para fora e me arrependia de ter nascido. Ver dois caras como eles torcendo por mim me empolgou e a subida ficou até mais fácil… Demais!

Sandro Fernandes e Paulo Cardoso - Categoria Tandem

Vencida minha primeira batalha contra o morrão, desci com mais confiança do que no primeiro dia e  fui junto com o australiano. O passei no final da descida e já não era mais o último. Enquanto caminhava para terminar a primeira volta, Jean-Marc Berset, da Suiça, estava passando no sentido oposto do circuito, provavelmente uns 10 minutos à minha frente. O cara, aos 50 anos, já tinha sido o campeão da prova de quinta-feira e caminhava sozinho para ganhar mais outra. Impressionante! Logo atrás estava Heinz Frei, outra lenda do esporte paraolímpico e com quem tirei até uma foto de tiete depois da prova.

Passei pelo pórtico completando a primeira volta enquanto a multidão fazia barulho. Definitivamente, a grande vantagem de ter corrido numa cidade pequena como Baie-Comeau. Todos os moradores vão para as ruas com sinetas, panelas, cornetas, bandeiras e tudo mais. A cada metro tem um doido gritando “allez!”, “go!”, “keep pushing!” e  outros clássicos do incentivo. E não é que funciona? Estimulado e conhecendo melhor o trajeto, encontrei meu ritmo e venci com mais tranquilidade as ladeiras que ficam no centro da cidade. Continuei mantendo o passo e, se não via o próximo competidor à frente, também não via o australiano pelo retrovisor. Me aproximei novamente dos Pirineus de Baie-Comeau e o sol estava forte, com a temperatura beirando os 30 graus. Suando em bicas, a 8Km/h, comecei a escalar a primeira parte da ladeirona pensando apenas que depois daquela ainda faltavam mais duas voltas. Será que ia aguentar? Nunca saberei… Pouco depois de chegar ao platô que fica após a primeira subida, meu pneu saiu do aro e esvaziou (descobri depois que foi culpa do mecânico que o montou no Rio). :-(

Fui para o canto da pista e um carro da organização parou. De dentro saltou uma médica que perguntou o que houve e se eu estava bem. Falei que

Heinz Frei, lenda do esporte paraolímpico, e eu

era só um pneu murcho, ela chamou o carro de apoio mecânico e se certificou de que estava bem hidratado antes de seguir. Esperei uns bons minutos pelo carro da Shimano (fábrica de peças de bicicleta). Enquanto isso, fiquei assistindo a prova de um local privilegiado e vi Berset – o suiço voador – passar. Logo depois veio o Frei e mais outro suiço. As posições ficaram assim até o fim da prova, mostrando como o país dos famosos relógios domina as provas de handbike na categoria H2. O carro de apoio mecânico chegou e foi só confusão. Trocaram minha roda por uma de 10 velocidades e na pressa fizeram alguma besteira que desregulou meu passador e impediu a troca das marchas. Na confusão, ainda perderam uma sapata do meu freio. Não teve jeito e tive que abandonar a prova. Ainda esperei por um terceiro carro que “reboca” os quebrados até o centro da cidade. Dois canadenses gente fina e com um cecê do cão me carregaram pra dentro de um Jeep e fui de carona até o local da largada. No caminho, fui pensando em como a experiência de correr essas provas foi válida.

A delegação brasileira no Canadá - João, Soelito e Lauro (categoria C5), uniformizados, ganharam medalhas de bronze, ouro e prata, respectivamente. Orgulho para o Brasil!

Quando cheguei em Baie-Comeau, achei que estava como aquele africano que foi competir nas olimpíadas e quase morreu afogado na prova de natação pois não sabia nadar. Agora, tenho consciência de que não estou tão mal assim. Sei que ainda posso melhorar muito e a experiência que trouxe fica comigo até o fim da minha vida. Me aguardem! Não, melhor, não me aguardem não, que eu vou buscar :-)

Vale a pena ver o vídeo feito pela organização do campeonato. Dá para sentir o gostinho de como foi competir por lá!

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20 Comentários »

  1. 02/09/2010 - 13:34
    Pingback feito por Tweets that mention Mundial de handbike do Canadá « Blog Mão na Roda -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by maonaroda, jefferson loth. jefferson loth said: RT @maonaroda: Novo post: Novo post: "Mundial de handbike do Canadá" http://bit.ly/cSAu7x [...]

  2. 02/09/2010 - 14:13
    Comentário feito por The Best

    Eduardo,
    Como você se atrasa tanto? Assim não vai conseguir ser campeão … Os campeões não atrasam se adiantam..rssss

    Agora é treinar muito e ser campeão paraolimpico no Brasil, onde não teremos ladeiras e nem tão pouco gritos em outra lingua.

    Vamos lá que estou torcendo por você hein. Não me decepcione.

    03/09/2010 - 12:46
    Eduardo Camara respondeu:

    Fala The Best! Os treinos já recomeçaram. Por aqui eu já sou campeão, então agora é treinar muito para chegar ao nível dos caras lá de fora :) Abração!

  3. 02/09/2010 - 14:38
    Comentário feito por Evandro

    Sensacional!! “Cecê do cão”, kkkkkk

    Mas Dado, guardado as devidas proporções…quando corro contra vcs (vc, Aranha e Indio…) é assim que me sinto. Tento me espelhar em vcs e nos seus treinamentos para um dia chegar onde estão!
    Vcs dois são os caras!! Agora é treinar pra dar o troco aí no Rio 2016!!

    03/09/2010 - 13:23
    Eduardo Camara respondeu:

    Pois é, Evandro… Lá é a região do Canadá que fala francês. Eles importaram a língua e também o cecê dos europeus :)

    E vamos treinar muito mesmo! A gente tem que formar uma galera forte para que todo mundo possa evoluir!

    AbraçãO!

  4. 02/09/2010 - 20:08
    Comentário feito por Tania Speroni

    Oi Dado!!
    Caramba Dado, vc tava no Canadá, perdemos uma chance de ter uma pessoa pra trazer uma cadeira importada pro Milton, que pena. Demos mole.
    Que legal em???
    Estamos esperando vc publicar o vídeo sobre tranferência,em?O Milton consegue da cadeira pro sofá, do alto pro baixo, mas de baixo pra cima, nem com reza forte.
    Beijos
    Adorei tudo
    http://www.zerohora.com/sembarreiras

    03/09/2010 - 13:42
    Eduardo Camara respondeu:

    Oi Tania!

    Pode deixar que vou fazer o vídeo sem falta!

    Beijos!

  5. 02/09/2010 - 20:24
    Comentário feito por Cris Costa

    Ah vai, olhando no vídeo a subida nem era tão ruim assim, rsrsrs. Brincadeira, pirambeira braba! Eu tinha parado no começo e pedido um reboque, rs. Parabéns!

    03/09/2010 - 12:47
    Eduardo Camara respondeu:

    Cris, pelo vídeo não dá para perceber…A subida era muuuuito sinistra. Saca a subida do alto leblon que vai até aquele mirante? tipo aquilo, só que com 1Km de distância!!! Beijos!

  6. 03/09/2010 - 10:17
    Comentário feito por Ricardo Afonso Brito

    Excelente reportagem!
    Meus parabens… por tudo.
    abraços

  7. 03/09/2010 - 18:01
    Comentário feito por Ronald Andrade Filho

    Muito legal cara! Fiquei com ainda mais vontade de comprar um handbike agora!

    08/09/2010 - 15:42
    Eduardo Camara respondeu:

    Ronald, vale muito a pena! E quando vier ao Rio, me avise para fazer um test-drive! Abraços!

  8. 03/09/2010 - 18:15
    Comentário feito por Andrés López

    Eduardo,
    Parabéns pela reportagem e pela excelente participação, de vc e de toda a delegação brasileira.
    Vamos aguardar também que o Aranha consiga contestar essa reclassificação,
    No vídeo observamos falta de treino de “Pirineos” a todos,
    ..vai buscando ladeira p treinar!!
    Abs

    08/09/2010 - 15:43
    Eduardo Camara respondeu:

    Valeu, Andrés! Já estou providenciando uns morrinhos para subir e tb torço muito pelo nosso amigo Aranha. Abração!

  9. 04/09/2010 - 17:38
    Comentário feito por helena

    Parabéns, nós corredores somos sempre sem limites, continue treinando e vá em frente o Canadá te aguarda novamente…Gostei da reportagem como também das fotos.

    08/09/2010 - 16:00
    Eduardo Camara respondeu:

    Obrigado, Helena! Já comecei os treinos. Rumo ao mundial 2011! :)

  10. 05/09/2010 - 20:46
    Comentário feito por Breno Nogueira

    Muito Maneiro Dado!
    Parabens e agora é treinar mesmo porque London 2012 já ta ai.
    Só de vc falar em ter que subir uma ladeira com a handbike eu já to aki cansado me imaginando infartando no seu lugar. Acho que pra tetra as provas devem ser um pouco mais light ne?
    Grande abraço!

    08/09/2010 - 15:56
    Eduardo Camara respondeu:

    Valeu, Breno! Cara, depois fiquei sabendo que esse circuito deveria ser invalidado para todas as categorias de handbike. Era muito duro. E os tetras fizeram exatamente o mesmo percurso. Sinistro!!! A regra prevê que o circuito de handbike seja mais light, mas não fala nada sobre ser diferente para os tetras. Só o número de voltas é que diminui… Tá pensando que é moleza? hehehe! Abração!

  11. 07/09/2010 - 21:24
    Comentário feito por Sam

    Show de bola Dado! Eu curtia muito a adrenalina que era uma competição, imagino no exterior! Parabéns cara!

    08/09/2010 - 15:56
    Eduardo Camara respondeu:

    É muito foda mesmo, Sam! Nunca tinha competido fora do Brasil e é demais. Emoção total!

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