Opinião e cotidiano

Aceitação

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Outro dia, conversando com uma amiga, ela comentou que tinha encontrado com um conhecido que temos em comum, que é tetraplégico, e disse que ele estava muito bem. Tinha se formado, tava trabalhando e fazendo várias atividades. Mas completou que isso só aconteceu depois que ele aceitou a lesão. Fiquei mega feliz por ele, mas fiquei pensando com meus botões essa coisa complicada da aceitação.

Acho que uma das coisas mais difíceis na vida é aceitar. Seja lá o que for. Que estamos envelhecendo, que o relacionamento acabou, que o seu trabalho não é que esperava, aceitar que o outro é diferente, que o Flamengo não foi campeão e sim o Fluminense (Eeeeeeeeeeeeeeeee!). Enfim, lidar com a aceitação pode ser bem complicado, ainda mais quando algo acontece de forma inesperada. Você não pediu pra nada daquilo acontecer, e ainda tem que aceitar? Demais, né! No caso de uma lesão na medula a aceitação é um nó na cabeça, e ainda não sei dizer se existe uma completa aceitação. Sempre vai ter aquele fiozinho de dúvida “e se…”.  Mas que talvez deixemos de lado (eu pelo menos deixo) porque é uma área sensível demais e que não  leva a lugar algum.

Minha escolha na época do acidente foi seguir em frente e aceitar que pelo menos naquele momento eu não ia voltar a andar. E assim sigo até hoje. Voltei a estudar, trabalhar, namorar e não me prendi muito a ficar martelando “porquês” e “e se’s…”. Não sei se foi a melhor atitude, mas com certeza foi o que consegui. Cada um lida com os acontecimentos da melhor forma que pode, mas o fato é que só podemos seguir em frente a partir do momento que aceitamos determinada situação. Lutar contra algo que não vai mudar é dar murro em ponta de faca.

Por favor, não vamos confundir aceitação com comodismo. Quem se acomoda também não sai do lugar e sofre do mesmo jeito.  Levei uns três anos pra entender e aceitar que os remédios e fisioterapias já tinham me levado ao limite. Foi difícil pra caramba, pra não dizer pra caral…, ver que a evolução do movimentos era cada vez menor até se tornarem praticamente imperceptíveis. Podia estar fazendo tudo isso tudo até hoje, mas acho que minha cabeça ia estar embananada e provavelmente não teria conquistado tantas coisas se tivesse ainda ligada no voltar a andar.

Mas isso é de cada um. Estou aqui apenas dividindo um pouquinho da minha experiência. Mas posso dizer que, no meu caso, aceitar foi muito difícil porém com certeza foi o que me deixou livre para seguir em frente.

Sobre o autor / 

Cris Costa

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20 Comentários

  1. Ronald Andrade Filho segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 em 14:43 -  Responder

    Eu não poderia concordar mais, Cris. A gente tem que aprender a lidar com as situações do jeito que elas se apresentam, se as coisas não correram do jeito que esperávamos… paciência. Como você disse não podemos confundir aceitação com comodismo, eu ainda acrescentaria que não podemos confundi-la com resignação. Muito bom o post!

    dezembro 14th, 2010 - 22:37
    Cris Costa respondeu:

    Que bom que gostou Ronald! Aceitar é um passo difícil de se dar, mas extremamente importante! Bjs, Cris.

  2. Márcia segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 em 15:33 -  Responder

    Oi, Cris!

    Super bacana suas palavras, mas deixa eu colocar um outro lado também?!

    Não acho que essa etapa da aceitação seja algo só de pessoas que passaram a ter alguma forma de deficiência ao longo da vida. Para alguém que nasceu já nesse “cenário” (como eu), em alguns aspectos é preciso ter esse mesmo olhar de “ok. As coisas são diferentes para mim, mas não vou me deixar inibir por isso, não”.

    Eu nunca pude andar de bicicleta, por exemplo. Nem usar sandálias quando era adolescente. Meus sapatos eram uma adaptação de botas masculinas (uma beleza de saia e vestido, imaginou? rsrs).

    Nunca me resignei, é verdade. Sempre corri atrás de levar a vida como me era possível. E já tomei uns solavancos, precisei reavaliar muitas coisas, lutei para modificar o que me foi possível (aqueles sapatinhos horrendos ficaram entre as memórias do passado! rsrs) e fui seguindo…

    No fim das contas, acho que é isso. Aceitar certas coisas como elas são, seguir em frente e viver!

    bj,
    Márcia

    dezembro 14th, 2010 - 22:38
    Cris Costa respondeu:

    Oi Márcia, a aceitação vale para um monte de coisas na nossa vida, citei a lesão pq é o meu caso. E é isso mesmo, seguir em frente e viver! Bjs, Cris.

  3. Ricardo Afonso Brito segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 em 15:59 -  Responder

    Perfeitas palavras!
    Por isso gosto de acessar este blog. Já cansei de tentar explicar aos meus amigos e conhecidos sobre a imensa diferença entre aceitar e acomodar. Levo uma vida plena, mas com limitações. Mantenho o bom humor e disposição em 99,9% do tempo, mas.. de vez em quando questiono os famosos “porquês e se’s” da vida.. e é nessa hora que alguem sempre vem com o bla-bla que odeio:
    – Você ja se deu conta de como é abençoado?
    Pô.. eu tento me controlar, mas tem vezes que respondo na lata:
    – Se eu sou abençoado e privilegiado.. o que falar de quem não teve lesão na medula?
    Mas… vida que segue…
    abraços

    dezembro 14th, 2010 - 22:40
    Cris Costa respondeu:

    Oi Ricardo, tem muita gente que me acha acomodada, mas nem ligo muito. Mas tem horas que irrita mesmo. Se pudesse, mandava um monte de gente catar coquinho, rs. Bjs, Cris.

  4. Celso Ricardo terça-feira, 14 de dezembro de 2010 em 13:06 -  Responder

    Tenho uma visão um pouco diferente, mas que chega no mesmo objetivo… Após 3,5 anos de lesão nunca aceitei minha condição, sempre estou me remoendo com a saudade de uma bela trilha de bicicleta, a facilidade e praticidade de uma viagem a praia com direito a uma caminhada na areia sem se preocupar com acessibilidades, necessidade de ajuda em certas sitações e outros, porém essa não aceitação nunca me fez desistir, esta me fez buscar ainda mais alternativas para suprir minhas satisfações. Msm depois da lesão, as satifações pessoais e profissionais continuram as mesmas e sempre luto para conquista-las independente da forma ou da condição que estou… e estou conseguindo….. sou feliz…. nunca paro….. nunca desistirei…. mas sempre remoendo de saudades da medula….
    Abraçoss

    dezembro 15th, 2010 - 20:42
    Cris Costa respondeu:

    Celso, também sinto muita falta de coisas que fazia antes da lesão, como dançar. Mas o importante é seguir em frente e não deixar das fazer as coisas que gosta, que é o que vc faz. Bjs, Cris.

  5. Juliane terça-feira, 14 de dezembro de 2010 em 15:23 -  Responder

    Oi Cris,
    Não sei se você lembra de mim… sou amiga da Si (irmã do Márcio) e tb jogava dardo com vocês.
    Adorei o blog e amei seu post sobre aceitação. Perfeito. Realmente é muito difícil aceitar. E como você disse, muitas vezes é preciso aceitar para seguir em frente. Do contrário, ficamos parados, estagnados. Parabéns! Um beijão, Juli

    dezembro 14th, 2010 - 22:35
    Cris Costa respondeu:

    Juli! Claro que lembro sim! Que bom que gostou do Blog e do post! Fico feliz :o))). Bjs!!!

    PS: Vi a foto da sua filha no FB da Si, muito linda! Parabéns!

  6. Luiz F. Araujo Filho terça-feira, 14 de dezembro de 2010 em 20:25 -  Responder

    Cris, parabéns pelo post.
    Sou paraplégico há 39 anos, e hoje posso acrescentar ao seu material que o mais importante é passarmos o conceito de que o tempo escorre pelos dedos, aceitar e seguir em frente, adaptando nossas vidas as novas condições é fundamental para o melhor aproveitamento de tudo que temos para viver!

    dezembro 15th, 2010 - 20:45
    Cris Costa respondeu:

    Muito legal o que vc escreveu Luiz! É verdade, se a gente não aproveitar o que tem, perde muita coisa! Bjs, Cris.

  7. Amaury Ribeiro terça-feira, 14 de dezembro de 2010 em 21:24 -  Responder

    Aceitação e compreender o tamanho da lesão é o primeiro passo
    para ter uma qualidade de vida, razoável. Temos limitações sim, mas estamos vivos. A vida não para.

    dezembro 14th, 2010 - 22:36
    Cris Costa respondeu:

    Não para mesmo Amaury! Se a gente não acompanhar, perde um monte de coisa legal. Bjs, Cris.

  8. André quarta-feira, 15 de dezembro de 2010 em 04:51 -  Responder

    Fora os “iluminados” que sempre questionam sua fé depois que você argumenta que parou de fazer fisioterapia por não perceber progresso.

    Acho que uma coisa que tenho que melhorar é não ser tão exigente com os lugares que meus amigos frequentam…fico um pouco irritado ao virar o centro das atenções quando minha cadeira n entra na porta do banheiro, ou preciso que me ajudem num dregau .

    dezembro 15th, 2010 - 20:47
    Cris Costa respondeu:

    Oi André, tem horas que enche o saco mesmo. Todos os estabelicimentos deveriam ser adaptados. Mas quando não tiver jeito, o lance é relaxar e aproveitar com os amigos. Bjs, Cris.

  9. Weverson quarta-feira, 15 de dezembro de 2010 em 18:49 -  Responder

    Cris sempre gosto do que escreve! Eu tenho 16 anos que sou paraplégico (5 de janeiro vai fazer 17 anos) tenho 31 de idade hoje, Chorei por 3 anos quaze que toda noite, Um belo dia devido a uma infecção na perna que quaze me matou, Eu vi que a vida era muito melhor sem choros e sem lagrimas, Ai que fui viver a vida de novo, Grande abraço e continue com essa mão afiada para escrever blz! Beijão!

    dezembro 15th, 2010 - 20:48
    Cris Costa respondeu:

    Oi Weverson, que bom que gosta do Blog! Bjs, Cris.

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