Acessibilidade, Opinião e cotidiano

Acessibilidade não é inclusão. Oi? Como assim?

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Acabei de ler um texto excelente do Scott Rains* intitulado “Acessibility is not inclusion” (Acessibilidade não é inclusão). Você deve estar se perguntando: “A Bianca pirou? Como assim ela gostou de um texto com esse título? Tá maluca?!”

Num primeiro momento também estranhei, o que me fez clicar no link e conferir o texto. E logo nas primeiras linhas percebi que já era partidária dessa opinião há muito tempo! Só não a havia colocado nesses termos.

Calma gente! Ninguém aqui é contra a acessibilidade. Não enlouquecemos! Mas começa a surgir um conceito muito melhor e muito mais inclusivo que vem ganhando espaço e substituindo o de acessibilidade. O design universal. E é sobre ele que o texto discorre.

O que Scott Rains quer dizer com o título polêmico é que a acessibilidade segrega, enquanto o design universal inclui. Expliquemos: Quando aplicamos a acessibilidade, partimos de algo que já nos é conhecido e o adaptamos para que pessoas com deficiência possam usá-lo. Já o conceito de design universal nos instrui a pensar tudo novo, lá do início. É um exercício de abrir a cabeça, romper com conceitos, formas, soluções já conhecidas e repensar tudo do zero.

Peguemos como exemplo um playground. Num playground acessível, nós temos crianças com deficiência isoladas num canto que elas conseguem acessar. Já num playground inclusivo de verdade, todas as crianças brincam juntas, sem distinção de onde e como. Os brinquedos são pensados para todos.

Antes que você diga: “Mas isso é impossível! Não dá pra fazer algo que sirva pra todas as pessoas do mundo!”, eu completo, ou melhor, o Scott Rains completa. Realmente, design universal não é um design que serve pra todas as diferentes pessoas no mundo todo. Isso é realmente impossível. E é por isso que algumas pessoas preferem chamar o conceito de Design Inclusivo. Onde a palavra “inclusivo” reforça a idéia de que não estamos apenas adaptando algo que já nos é conhecido e que foi criado pensando nas pessoas ditas “normais” e sim, repensando esse algo, para que, no final, o conceito de “normal” é que se torne muito mais abrangente.

Você pode dizer ainda que o autor do texto é americano e vive num país onde acessibilidade já virou lugar comum e existe espaço para um conceito novo. Isso até é verdade,  mas nada nos impede de pular a fase do acessível e passar direto para o inclusivo. Atenção, designers! Vocês estão sendo convidados a quebrar regras, destruir paradigmas, reformular a cultura. Isso não os anima?

Pra finalizar, quero repetir aqui algumas palavras do Scott Rains, que achei muito bacanas, bonitas e verdadeiras:

“Onde a acessibilidade é passiva – deixando a porta aberta sem obstáculos no caminho – a inclusão te convida de forma ativa a participar da rede humana, indo além da porta livre de barreiras. Acessibilidade olha para coisas e lugares. Inclusão olha para vidas humanas.”

*Scott Rains escreve, em diversas publicações, sobre viagens e assuntos de interesse das pessoas com deficiência. Ele também é fundador do fórum Tour Watch e viaja mundo afora espalhando o conceito de turismo inclusivo.

 

Sobre o autor / 

Bianca Marotta

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22 Comentários

  1. The Best segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011 em 14:41 -  Responder

    Eu ainda me coloco dentro do pensamento que a acessibilidade apenas melhora a inclusão e faz surgir novas oportunidades de independencia para quem precisa. A inclusão através da acessibilidade é um erro que todos nós achamos, incusive eu, como solução.

    fevereiro 21st, 2011 - 20:03
    Bianca Marotta respondeu:

    Concordo, The Best. A acessibilidade é apenas um pedaço da inclusão. Inclusão de verdade se faz através de educação e cultura.

  2. Marcos Santos segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011 em 19:37 -  Responder

    Olha Eduardo
    Eu acredito nesse conceito.
    Aliás, mudando para um outro lado do tema, já discuti com partidários do “passe livre”, sobre a segregação que ele representa.
    O deficiente com facilidade de entrada no transporte coletivo não precisa de “vales piegas”, ele vai a luta, ganha a vida e paga a passagem.
    Estou pensando em escrever um livro (ou apostila, sei lá) sobre inclusão, voltada para arquitetos, urbanistas e engenheiros. O resumo seria a utilização do carrinho de bebê por um período da faculdade. Já reparei que os pais empurradores de carrinhos de bebês são muito críticos quanto ao mal comportamento excludente dos outros, no entanto, assim que seus rebentos crescem essa “consciência” some na poeira e eles são os primeiros a desrespeitar o direito inclusivo dos que precisam. Esses alunos teriam um período de sofrimento adicionado aos seus currículos, com direito a notas de zero a dez.
    A inclusão deveria ser matéria obrigatória desde os primeiros anos da infância. Assim, a cidade inclusiva seria construída naturalmente, sem esforço.

    fevereiro 21st, 2011 - 20:02
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Marcos,
    Concordo em parte com a história do passe livre. Tb acredito que ninguém merece, nem quer “vale esmola”, mas acho que ele ainda se faz necessário num país como o nosso onde quase nenhum transporte público é acessível e onde são poucos os cadeirantes que realmente conseguem ir à luta com as péssimas condições de acessibilidade que o país oferece. O dia em que todos os transportes forem decentemente utilizáveis por toda e qq pessoa, eu sou a favor de abolirem o passe livre.
    Já em relação ao seu livro/apostila, acho a idéia muito boa. Acho que desenho universal deveria ser disciplina obrigatória em faculdades de arquitetura e design. Em alguns casos elas são eletivas e pára por aí.
    Aliás, tb deveriam falar mais na escola sobre isso. Educação é essencial pra se mudar uma cultura.

  3. The Best segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011 em 20:32 -  Responder

    Marcos e Bianca,
    O ideal seria coloca-los em diversas situações adversas para poderem sentir como é dificil a vida de um deficiente, seja ele cadeirante, visual ou auditivo mesmo.

  4. Marcos Santos segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011 em 21:17 -  Responder

    Oi Bianca,
    Eu discordo da teoria da “gratuidade necessária”, na seguinte medida:
    A gratuidade foi criada como plataforma eleitoral de políticos que ainda hoje, sentam-se sobre essa lei para reelegerem-se infinitamente. São os “protetores” das “pessoascomnecessidadesespeciais”. Essa gratuidade, na verdade, era praticada pelas empresas de ônibus desde os tempos em que eu era criança (E já tenho 48). Mas a obrigatoriedade de gratuidade empacou o cumprimento da lei de melhoria no acesso aos transportes coletivos. Que empresário investiria em tais adaptações para receberem de volta R$ 0,00 por passageiro deficiente?
    Fica claro que a gratuidade obrigatória, tirou da sociedade uma importante ferramenta de cobrança para o cumprimento da outra lei, a do acesso. Com concessionários e governos, quem paga cobra, quem não paga…esmola. Eu prefiro pagar e cobrar.
    Perdemos um tempo precioso.

    fevereiro 21st, 2011 - 22:23
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Marcos,
    Concordo que nenhuma empresa irá querer investir em adaptações para receber R$ 0,00. Mas não é uma questão de querer e sim de ter que.
    E sobre pagar ser uma ferramenta de cobrança, se isso funcionasse aqui no Brasil, as coisas seriam tão melhores… Infelizmente pagar não resolve.

  5. renan terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 em 00:26 -  Responder

    Bianca,
    Segregator é um movimento mundial que vem tratando desse tema… Segue o site:

    http://www.segregatorproject.org

    e um video

    http://www.youtube.com/watch?v=VmrYxzYWli0

    Em breve deve rolar aqui no Rio e seu post pode ajudar a divulgar

    fevereiro 22nd, 2011 - 07:06
    Eduardo Camara respondeu:

    Muito foda!

    fevereiro 22nd, 2011 - 20:40
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Renan,
    AMEI essa idéia! Vc está organizando o segregator no Rio? Se estiver, nos avise! Assim podemos fazer o post. Aliás, com todo prazer!

  6. Arq. Nicolás Li Calzi (Montevidéu) terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 em 08:10 -  Responder

    Primeira coisa, minhas desculpas pelo portugués que escrevo, mais sou autodidacta 😉
    So uma apreciaçao. A acessibilidade pode ser vista como un direito (Convençao) o pode ser vsta como un veículo para a realização de um direito superior.
    Eu sou mais partidario da segunda postura.
    Inclusão, não-discriminação, movidad livre são direitos superiores conseguido através do uso do que costumamos chamar de acessibilidade física.
    Saludos desde Montevidéu, Uruguai.

    fevereiro 22nd, 2011 - 20:42
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Nicolás!
    Que bom que temos leitores no Uruguai! Surpresa muito boa!
    Concordo com você, acessibilidade é apenas mais uma parte da inclusão. E inclusão não deve se resumir a apenas acessibilidade!
    abraços cariocas!

  7. Elisama terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 em 16:34 -  Responder

    Muito interessante o texto, ele nos faz repensar ideias e conceitos..
    Parabens!!

    fevereiro 22nd, 2011 - 20:39
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Elisama,
    A idéia é exatamente essa. Por que não repensar as coisas e construir o mundo de uma maneira diferente?
    beijos!

  8. Mila terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 em 17:39 -  Responder

    Excelente post, Bianca! Amei, amei.
    Ano passado pude estudar mais design universal, acessibilidade, inclusão e pude perceber que não se trata de uma utopia. É algo possível, prático e melhor pra todos. É só uma questão de tempo, uma mudança de paradigma, que começa aos poucos até atingir grandes transformações.
    Parabéns mais uma vez pelo post!

    fevereiro 22nd, 2011 - 20:38
    Bianca Marotta respondeu:

    Oi Mila,
    Design universal é realmente muito interessante. Assim como a internet mudou a nossa maneira de viver e ver o mundo, acredito que o design universal tb traz esse tipo de mudança. Mas é preciso que as pessoas se deem conta e se interessem pelo assunto, não adianta ficar só na teoria, que é sempre linda 😛

  9. Gisleine Martin Philot quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 em 15:35 -  Responder

    A questão da acessibilidade vai além das barreiras. Eliminar barreiras não viabiliza a convivência ativa. E essa convivência ativa depende da capacidade das pessoas olharem para aquele individuo e ver além de sua deficiência. Depende desse individuo ver-se também além da sua deficiência.
    Acessibilidade é o que vemos em vários locais, onde o individuo chega até onde deve chegar, mas não está incluído. Por estigmas, por preconceitos, por razões culturais, sociais, etc.
    Hoje temos escolas com acessibilidade e professores que não sabem o que fazer com aquele aluno.
    Há muito caminho para percorrer. Em muitos aspectos.
    Em 2003 levei um projeto para a Reatech intitulado “Brinquedo para todos”. Não consegui continuar com o projeto que permitia que crianças e adolescentes com deficiências físicas graves, com deficiências sensoriais, com deficiências intelectuais, etc. e crianças “sem deficiências” estivessem brincando todos juntos.
    Até hoje me dizem que a idéia era e é muito inovadora.
    Que democracia é essa que vivemos em que postergarmos direitos tão inerentes a todos?
    De fato o desenho universal precisa também ser inclusivo. A acessibilidade faz parte do desenho universal, que precisa estar contido no princípio da Inclusão universal.

  10. Eduardo Aranha Luz quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 em 15:46 -  Responder

    O Desenho Universal deveria ser matéria obrigatória nas faculdades de Arquitetura e Engenharia. Estudantes de Arquitetura e Engenharia deveriam ser obrigatoriamente colocados “em diversas situações adversas para poderem sentir como é difícil a vida de um deficiente, seja ele cadeirante, visual ou auditivo mesmo” (The Best).

    Também compartilho da ideia de que um desenho universal é bem melhor do que um desenho simplesmente acessível.

    Todavia, onde estão os órgãos fiscalizadores do cumprimento das leis de acessibilidade?

    Onde está o CREA, que permite a edificação de novas obras sem qualquer acessibilidade?

    E as prefeituras? Por que concedem alvarás para obras comerciais sem acessibilidade?

  11. Reisla quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 em 11:44 -  Responder

    estou começando meu trabalho de conclusão de curso e vou abordar este conceito de acessibilidade porque vivo me esbarrando literalmente com a falta dela sendo impossibilitada inclusive de realizar meus estágios. vou abordar acessibilidade pelo impacto subjetivo do cadeirante que se sente e é impedido de estar participando da sociedade causando muitas vezes seu isolamento Pra mim este blog é muito importante porque as discussoes são muito pertinentes.

  12. marcella pinheiro segunda-feira, 11 de abril de 2011 em 15:42 -  Responder

    Olá, Bianca!
    Estou cursando Pós-graduação em Inclusão Social e o conceito de acessibilidade sem dúvida é muito discutido em nosso curso…
    O que é realmente acessibilidade ou somente adaptações realizadas para permitir o acesso.O conceito design universal promete ser mais abrangente e permitir a inclusão.
    Adorei o blog.Parabéns!!!!
    beijuuuss
    Marcella Pinheiro.

  13. Luciana / Mariana terça-feira, 25 de outubro de 2011 em 13:28 -  Responder

    Oi, Bianca.
    Sou Luciana psicóloga, e junto com Mariana Terapeuta ocupacional estamos cursando pós graduação em inclusão social e um dos trabalhos a serem realizados é análise de um blog, e o de vocês é demais, traz muita informação e nos deixa mais próximo de uma realidade que se não a enfrentamos parece simples, mas não é, o trabalho realizado pelo blog informativo, social,cultural e educacional.
    Adoramos……
    Até mais
    Luciana E Mariana

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