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Vamos trabalhar? – parte 2

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Lendo o post da Cris, fiquei inspirado a falar um pouco de como foi a minha volta (dos que não foram) ao mercado de trabalho.

Calma, eu explico: na verdade, não foi uma volta e sim um começo, pois eu nunca havia trabalhado antes de ser cadeirante, tinha 15 anos quando me acidentei e ainda estava no colégio.

Creio que, como aconteceu com os demais autores do blog, mesmo ainda adolescente, ingressar no mercado de trabalho foi uma das minhas grandes preocupações e ainda internado no hospital eu já brincava com as possibilidades num jogo mental de “posso – não posso fazer”.

Deixa eu dar uma encurtada na conversa aqui, senão vira livro 🙂

Bom, terminei meus estudos, faculdade, fiz alguns outros cursos de especialização, mas não tinha nada em vista. Esse negócio de lei de cotas e acessibilidade em locais de trabalho não havia nascido ainda (1990)! Já os concursos públicos sempre me barraram no edital, pois a pessoa tem que ter um mínimo de autonomia.

Mas com o bom domínio de conhecimentos de informática, sempre fiz bicos desde meu colegial (eu já estava até meio conformado em ser um prestador de serviço), e isso se prolongou até 1997, quando ví um anúncio em um grande provedor de acesso à Internet recrutando pessoas com deficiência para trabalho à distância.

Apesar do salário digamos que… ridículo, me candidatei e fui aprovado com uma certa rapidez, pois segundo o RH da empresa, mesmo nessas condições haviam pouquíssimas pessoas com as qualificações mínimas exigidas (saber utilizar as ferramentas do Office e ter um bom conhecimento de Internet). Fiquei sabendo que foram contratadas seis pessoas para exercerem a mesma função Brasil adentro. Em 2 meses, todos foram dispensados, menos eu. O pessoal não estava dando conta do serviço. Minha gerente da época me ofereceu uma vaga interna pra fazer o serviço desse pessoal, mas eu recuseiMEDO. Muito medo de sair de casa e passar 8 horas longe dos meus pais.

Tenho uma lesão super alta (C4/5), o que me torna muito dependente. Na hora você já imagina aquelas situações chatas de esvaziar coletor, alimentação etc… pô, eu estava muito inseguro. Continuei trabalhando em casa com uma carga horária ampliada e salário melhorado. Fiquei 3 anos nessa vida e mais uma vez estava me conformando com a situação, que não era incômoda, mas não remunerava bem e tomava muito tempo.

Continuou assim até essa mesma gerente que me chamou pra trabalhar mudar de emprego. Assim que ela mudou, ligou e disse que me queria junto de qualquer jeito, mas tinha que ser pra trabalhar no local! Daí pensei muito, muitas noites sem dormir até que aceitei fazer uma entrevista. Ao mesmo tempo, pensava no lance dessa oportunidade não bater novamente em minha porta. Detalhe que ela não tinha idéia da minha deficiência, e com certeza ela achava que era algo mais leve, mas confesso que foi uma sensação boa, de alguém te chamar pela sua qualificação.

Apesar desse “choque inicial”, de imediato coloquei minhas necessidades básicas: alguém que me auxiliasse com a alimentação, água, xixi (esvaziar meu coletor de perna), e entrar e sair do carro. Pro meu espanto ouví: -“é só isso que você precisa?” E foi assim! Pro meu espanto, a ajuda sobrava… As pessoas sempre muito solícitas e é assim até hoje. E não estou falando de empresa pequena, e sim uma indústria multinacional com mais de 1000 funcionários. Infelizmente essa não é a situação real do mercado. Sabemos que as empresas garimpam as pessoas “menos deficientes possíveis”, e que tenham autonomia pra se virar sozinhas. Já escrevi sobre isso nesse post.

Era um trabalho completamente diferente do que eu realizava, mas nada que eu não soubesse. A princípio detestei, mas a proposta salarial realmente pesou e eu comecei a gostar aos poucos daquilo que estava fazendo. Querendo ou não, aprendi a ter um comportamento corporativo devagarzinho. E fui fazendo amizades, me identificando com as pessoas, o que facilitou mais ainda esse lance da ajuda.

Até campanha pro Teleton eu fiz!

Campanha Teleton 2003

Um ano após eu entrar nessa empresa, fizeram uma proposta de promoção de cargo, uma coisa que jamais esquecerei na vida. E dois anos mais tarde veio outra… E cá estou eu, a 8 anos na mesma empresa.

O que posso concluir e deixar de dica é que a qualificação profissional ajuda superar muitas barreiras, sejam físicas ou de preconceito.

Estar “apresentável” também faz diferença (na verdade isso vale pra qualquer um). Não adianta você achar que vai conseguir um emprego usando calça de abrigo, com o umbigo aparecendo e a camiseta suja de molho de macarronada, que não vai. Saiba trabalhar isso em você. Seja cadeirante, mas seja limpinho, ok?

Sobre o autor / 

Christian Matsuy

Cadeirante, paulistano bom gourmet e piloto profissional (de autorama)

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19 Comentários

  1. Nickolas Marcon segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 em 14:55 -  Responder

    Garoto-propaganda do Teletom e ainda por cima é gerentão na sua empresa… tá podendo, hein, Christian? 🙂

    março 1st, 2011 - 14:22
    Christian Matsuy respondeu:

    Nick, ultimamente eu estou gerenciando apenas minha conta de e-mail e olhe lá!

  2. Marcelo Oliveira segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 em 15:01 -  Responder

    Christian,

    Muito legal o seu relato!! Todos os pontos que vc levantou são importantíssimos! Acrescento também que autoconfiança e muita coragem são essenciais, além de uma boa (enorme) pitada de desprendimento, e muito óleo de peroba. Este último ingrediente, o óleo, porque embora desejável, ainda não dá pra esperar que todas as empresas estejam super bem adequadas às necessidades dos funcionários com deficiências físicas, ou mesmo que seus futuros colegas sejam anjos de boa vontade. Daí se vc não abrir o bocão, for cara de pau, e disser o que precisa, ninguém vai adivinhar, muito menos vc irá descobrir se aquela sua necessidade “tão complicada” é ou não é fácil de ser resolvida pela empresa.

    Nos meus 14 anos de MUITO trabalho dedicado, no horário regular, fora dele, e até em finais de semana, antes que a distrofia muscular me impusesse a aposentaria, quantas e quantas vezes colegas não me levantaram da cadeira do escritório? Quantas e quantas vezes não me levaram ao banheiro, às reuniões, aos cursos, às palestras? Quantas e quantas vezes não me trouxeram almoço? Até a largura de porta de banheiro aumentaram. Claro que teve gente que fez de má vontade (e aqui entra a cara de pau), mas estou certo de que o número de pessoas que me ajudaram de coração foi muitíssimo maior!!

    Christian, acho que vc já tocou na maioria dos pontos importantes. Mas sendo um cadeirante que pela natureza de minha condição física nunca pude tocar minha cadeira de rodas sozinho, aconselho também àqueles que estejam na mesma condição a usarem uma cadeira motorizada no trabalho. Dá independência e agilidade.

    Abraços
    Marcelo

    março 1st, 2011 - 14:19
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Marcelo!
    sem dúvidas, auto confiança, coragem, cara de pau e muitas outras coisas realmente são necessárias…
    já o fato da pessoa utilizar uma cadeira motorizada, é fato que trará mais liberdade, mas no meu caso atrapalharia muito mais, pois vou pro serviço de carona num Celta e volto de táxi sendo que nem todo dia vem o mesmo motorista…. dai carregar algo na casa dos 50 quilos que desmonta pouco me traria muito mais problemas, nada como uma cadeira fácil de desmontar e compacta para caber em qualquer porta malas… vai da necessidade de cada um.

    abraço!
    Christian

  3. Mila segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 em 19:00 -  Responder

    Puxa, Cris, vc não imagina como vc me deixou feliz com esse post. Muito, muito bom ouvir isso, mesmo sabendo q não é fácil encontrar por aí. Principalmenta aqui em Salvador, com o mercado bem limitado. Mas ouvir a história, de quem tá falando o q ocorreu, sem mais nem menos verdades, é simplesmente um combustível!
    Um beijão pra vc e parabéns!

    março 1st, 2011 - 14:28
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Mila!

    muito obrigado, esperamos que nossos depoimentos (meu e da Cris) ajudem a quem precise de alguma forma.
    sabemos da dificuldade de inclusão ou recolocação no mercado, ainda mais fora dos eixo Rio São Paulo.

    beijo!
    Christian

  4. Marcelo Oliveira terça-feira, 1 de março de 2011 em 15:54 -  Responder

    Pois é Christian,

    Comigo acontecia isso (o problema do transporte) e mais, eu sempre fui um munheca de samambaia (como dizia um ex-chefe meu) e nunca abria o bolso pra comprar uma cadeira motorizada. Mas diferentemente de quem ainda consegue tocar a cadeira por conta própria, eu não conseguia, e num retrospecto da minha curta carreira profissional, hoje reconheço que ela fez falta. Meu trabalho sempre foi grudado em terminais de vídeo, mas há momentos em que vc precisa sair do universo da sua área de trabalho, e nada como chegar a uma reunião, ou na sala do chefe, sem que alguém tenha te levado até lá. Por isso, se a deficiência te impedir de tocar a cadeira sozinho, tente conseguir uma cadeira motorizada nem que ela fique no trabalho qdo vc vai pra casa. Parece luxo, mas é mais um instrumento de trabalho em prol de sua independência no ambiente de trabalho.

    Abços
    Marcelo

  5. MARIA PAULA TEPERINO quarta-feira, 2 de março de 2011 em 09:27 -  Responder

    Ter autonomia física é sempre melhor. Poder ir e vir da forma que se deseja deve ser o máximo. Porém, cada dia tenho mais certeza de que autonomia física não vale de muita coisa se não se tem autonomia emocional. Quando não há paralisia emocional, as barreira físicas podem atrapalhar, mas serão sempre transponiveis, já o contrário…..Vejo todos os dias como a minha limitação física (que não é pequena, aliada ainda a minha idade) acaba sendo pequena perto do meu desejo. DESEJAR é a palavra chave.
    Obrigada aos “CRIS”…rsss pelos belos posts.

    março 2nd, 2011 - 18:47
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Maria Paula!
    Sem dúvidas, quanto menos dependermos dos outros melhor, facilita muito e a liberdade é incomparável… Mas há casos e casos: no meu por exemplo creio que o fato de eu poder me deslocar sozinho não seria uma coisa que me trouxesse um ganho significativo, haja visto que eu ainda dependo das pessoas para coisas ainda mais simples como beber um copo d’água. Esse é apenas um dos exemplos, seria “engraçado” eu conseguir me locomover até o bebedouro e ter que ficar esperando alguém pra pegar o copo pra mim! Ter um equilíbrio emocional de fato ajuda muito, isso pra qualquer um. Saber driblar certos impasses é importantíssimo!

    Beijo
    Christian

  6. Gabriela sexta-feira, 18 de março de 2011 em 15:13 -  Responder

    Legal ler teu relato.Sou cadeirante de nascença e a 6 anos luto por uma vaga no mercado de trabalho sem sucesso.Por falta de incentivo familiar e financeiro não pude continuar os estudos o que me auxiliaria muito na questão trabalho. Tudo que aprendi de office e internet foi sozinha e isso não basta pra uma vaga em lugar nenhum. mas continuarei tentando.

    março 21st, 2011 - 21:12
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Gabriela!

    Não desanime, se você tem acesso a internet, já tem uma ótima ferramente para aprender coisas novas, sei que é muito angustiante, mas só vence aqueles que não desistem.

    Boa sorte!

  7. Angela quinta-feira, 28 de abril de 2011 em 22:37 -  Responder

    Olá Chirstian

    Estou fazendo Pós graduação em Educação Especial/inclusão. (sou professora do ensino fundamental).
    Fiquei super feliz ao ler seu relato, pois admiro sua força de vontade, sua coragem e perseverança. Estou vendo estas pessoas com outros “olhos”, um dos nossos professores disse que quando eu trabalho com pessoas deficientes, eu devo trabalhar as possibilidades, ou seja, vou trabalhar as desvantagens que meu aluno encontra no seu dia a dia; pois a deficiência em si “não me interessa”. Com isso admiro sua auto confiança.
    Abraços;
    Angela

    abril 29th, 2011 - 11:45
    Christian Matsuy respondeu:

    Olá Angela,

    Obrigado por sua visita ao blog.

    Infelizmente ainda temos um mercado de emprego com “maus olhos” sobre as pessoas com deficiência… Ainda somo vistos como problemáticos, e hoje todo mundo quer funcionários que tenham uma produtividade fora do comum…

    Agradeço seus elogios!
    Christian

  8. SIRLEI ALVES BARBOSA domingo, 22 de maio de 2011 em 18:37 -  Responder

    olá admiro muito sua garra e coragem mas infelizmente tenho de concordar com minha colega angela, que fala q somos vistos como problematicos tem que ser de você para-la para conseguir alguma coisa, no mercado de trabalho a concordo muito com você quando dis da roupa adoro me arrumar isso me faz muito bem me acho linda e vaidosa tive polio e sou cadeirante as vezes nen percebo. de tão vaidosa que sou, bejos e parabens vai nessa sua forsa.

    maio 24th, 2011 - 15:22
    Christian Matsuy respondeu:

    olá Sirlei,

    é verdade, às vezes essas coisas acontecem…

    Agradecemos sua visita ao blog!

    bjo
    Christian

  9. MARISTELA DELGADO sábado, 10 de setembro de 2011 em 23:19 -  Responder

    Christian,gostei muito da sua historia de vida!!E te peço uma ajuda.Sou estudade de pós graduaçao em Educação Especial e inclusão social.Gostaria de um depoimento seu sobre o assunto, pois vou imprimir e colocar no meu portifólio.
    Obrigada, pela atenção e boa sorte em seus projetos!!
    Maristela Delgado

    setembro 13th, 2011 - 14:22
    Christian Matsuy respondeu:

    Olá Maristela,

    Legal que tenha gostado do artigo!

    Abraço,
    Christian

  10. Tatiana sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012 em 20:31 -  Responder

    Cristian

    Pra mim a fala mais importante foi esta: “O que posso concluir e deixar de dica é que a qualificação profissional ajuda superar muitas barreiras, sejam físicas ou de preconceito.” Como sabe meu irmão tem apenas 19 anos e ao contrário de vc já havia interrompido os estudos, coisas de família de baixa renda é o que somos. Estou me empenhando para ele voltar a estudar, mas não sei se vou conseguir.

    Parabéns pela sua história e sucesso sempre vc merece.

    beijos

    fevereiro 13th, 2012 - 15:24
    Christian Matsuy respondeu:

    Obrigado Tatiana!

    Muitos deficientes reclamam do mercado de trabalho, realmente não é fácil, entendemos que a lei de cotas ainda não funciona como deveria ser, mas se não nos prepararmos, seremos sempre escalados para vagas operacionais. O estudo é uma das maneiras de saírmos disso…

    Bjo
    Christian

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