Opinião e cotidiano

Ser ou não ser?

17

Outro dia eu estava conversando com alguns amigos andantes sobre a utilização das vagas de estacionamento reservadas. Sobre as vagas já comentamos em outros textos, mas o que me chamou a atenção foi que, no meio da conversa, alguém me perguntou: “quem tem direito a usar as vagas são deficientes, mas como caracterizar um deficiente?”

Segundo o Decreto 5.296/04, art. 25 §1, Os veículos estacionados nas vagas reservadas deverão portar identificação a ser colocada em local de ampla visibilidade”, ou seja, devem ser identificados com o símbolo internacional de acessibilidade. Desnecessário comentar aqui sobre o povo mal-educado que estaciona na cara-de-pau, mas me espanta um número cada vez maior de pessoas que tentam dar “um jeitinho” para ficar com a consciência tranquila.

Acontece que qualquer pessoa pode colar um adesivo no seu carro e se auto-intitular “portador de necessidade especial”. Se a própria expressão já está totalmente equivocada, pior ainda é quem usa esse argumento sem ter nenhuma dificuldade de locomoção!!! Bons exemplos são as desculpas de “ah, eu dei um mal-jeito no pé e estou mancando” ou então “estou grávida” ou ainda “tenho mais de 60 anos”. Peraí. Gravidez é deficiência? Óbvio que não. Todo idoso é deficiente? Também não. Aliás, os idosos que nâo têm dificuldade de locomoção devem utilizar outras vagas reservadas, normalmente do tamanho de vagas comuns. Nessa história toda, a “categoria” mais prejudicada são os cadeirantes, pois não têm alternativa. Se as vagas especiais estiverem ocupadas, não poderão utilizar vagas comuns, pois essas não oferecem mais espaço ao lado do carro para passar com a cadeira.

O exemplo das vagas de estacionamento serve para ilustrar uma ideia mais abrangente: toda essa diferenciação criou uma biodiversidade de pessoas ditas especiais sob os mais diversos rótulos. Isso acaba prejudicando quem realmente precisa de condição diferenciada para gozar do seu direito de ir e vir. Pessoalmente, nunca me senti bem sendo diferenciado pela condição física. Não faço questão de ter privilégios nem preferências, apenas quero poder ir aos mesmos lugares onde todos vão, exatamente como eu faria se não fosse cadeirante. Simples assim.

classificação diferenciada no transporte aéreo

Para terminar, coloquei aí do lado uma figura que fazia uma charge ao Americans with Disabilities Act. Para quem não conhece, essa lei americana de 1990 proibia qualquer discriminação baseada na deficiência. Foi base para julgamentos de vários processos onde as pessoas se intitulavam deficientes sob os argumentos mais medonhos, escabrosos e estapafúrdios. Muitos foram indeferidos. Ainda bem.

Senão, o atributo de “pessoa normal” seria mesmo de uma minoria e quem realmente precisasse de uma condição diferenciada veria seu direito se perder no meio de uma multidão de sequelados…

Sobre o autor / 

Nickolas Marcon

Artigos relacionados

17 Comentários

  1. Marcos sexta-feira, 10 de junho de 2011 em 21:59 -  Responder

    Meu amigo, tem resolução de Resolução do CONTRAN 304 DE 18 DE DEZEMBRO DE 2008 de Uma Olhada,Porque os Órgão de fiscalização estão omisso para a mesma.
    http://www.denatran.gov.br/download/Resolucoes/RESOLUCAO_CONTRAN_304.pdf

    junho 13th, 2011 - 13:59
    Nickolas Marcon respondeu:

    Correto Marcos, já conhecia essa resolução, na verdade é o mesmo cartão que se faz para usar as vagas públicas sem pagar o estacionamento rotativo. Quanto às vagas em áreas particulares, vc já viu alguma fiscalização aqui no RJ? Eu nunca vi. Já em Curitiba, por exemplo, a solução foi diferente, mas isso vou comentar em outro post. Dá uma olhada no comentário da Andreia logo abaixo que ela citou outros fatores que prejudicam a aplicação da resolução do Contran.
    Um abraço.

  2. TECO sexta-feira, 10 de junho de 2011 em 22:04 -  Responder

    É brabo… Mas acredito que pior que isso são as vagas reservadas em concursos, onde cada vez mais abrem brechas para enquadrar novas patologias como “deficientes”, a ponto de desvirtuar totalmente o objetivo da lei.
    Do jeito que vai, daqui a pouco quem tiver o dedo destroncado vai se dizer “deficiente” – quando lhe convier, é claro; tirando a oportunidade de quem realmente tem poucas chances em entrevistas de emprego na iniciativa privada.Abraço!

    junho 13th, 2011 - 14:00
    Nickolas Marcon respondeu:

    Teco, concordo totalmente contigo. Quanto mais houver questões de diferenciação, mais desvirtuado será o propósito de inclusão de pessoas diferentes. Falta bom senso.
    Um abraço.

  3. Rosy Bernhardt sábado, 11 de junho de 2011 em 07:58 -  Responder

    nossaa…este aviao ai…ta dificil hein!!imagina vc no meio de tudo isso…eu esperaria o proximo voo…como pode fazerem uma coisa destas!!nem de brincadeira…sabe eu acho isto pura descriminacao declarada…e atraves de brincadeiras que se revela a verdade do que acontece por ai..

    junho 13th, 2011 - 14:03
    Nickolas Marcon respondeu:

    É verdade, Rosy. As brincadeiras podem ser formas disfarçadas de mostrar uma insatisfação. O problema é que a figura é totalmente verdadeira: apesar de não serem identificados, em todo grupo existem pessoas muito diferentes entre si. A questão que abordei no texto é como determinar o limite dessa diferenciação.
    Um abraço.

  4. Andreia Sz sábado, 11 de junho de 2011 em 11:29 -  Responder

    Marcos,

    O Brasil é um dos países que mais possuem leis, portarias, decretos, MPs, resoluções…
    Do que adiantam se muitas são descumpridas? Acredito que a educação do povo brasileiro também conta para a ineficácia dessas normas.
    Quanto à omissão do Estado… Bem, pense que ele tem outras prioridades como fiscalizar a obra da Cidade da Musica na Barra para que não seja superfaturada, prender bombeiros que pedem aumento salarial e boas condições de trabalho, dentre outras.
    Muitas vezes para o Estado atuar em um determinado caso, ele deve ser incomodado.

    Abraços,

    junho 13th, 2011 - 14:05
    Nickolas Marcon respondeu:

    Muito bem colocado, Andreia. Não dá para o Estado controlar com braço de ferro todos os detalhes, por isso as políticas deveriam ser pensadas para terem uma eficácia maior com uma fiscalização menor. Começando pela educação das pessoas.
    Um abraço e um beijo.

  5. Pedro Paulo domingo, 12 de junho de 2011 em 09:29 -  Responder

    Consciência. Sempre falamos isso, mas na verdade a consciência não resolve, o que resolve é fiscalização e punição.

    junho 13th, 2011 - 14:06
    Nickolas Marcon respondeu:

    É verdade, o povo só sente a dor da punição quando ela é aplicada na parte mais sensível do corpo: o bolso.
    Um abraço.

  6. MARIA PAULA TEPERINO segunda-feira, 13 de junho de 2011 em 10:30 -  Responder

    Por isso o DESENHO tem que ser UNIVERSAL. Quando todos puderem ir e vir sem dificuldades vamos poder finalmente acabar com esse monte de leis que ao inves de incluir só faz segregar cada vez mais.
    Se todos as vagas fosse mais largas eu não faria nenhuma questão de estacionar na porta do elevador, já que em piso reto eu me desloco muito bem com a minha cadeira de rodas podendo assim, deixar a vaga para quem tem dificuldade de caminhar. As coisas podem ser tão simples, mas o homem não quer saber de soluções e sim de problemas.
    Abraços.

    junho 13th, 2011 - 14:15
    Nickolas Marcon respondeu:

    Certíssimo!!! Por mais que pareça uma utopia, esse deve ser sempre o objetivo: soluções úteis para TODOS e que dispensem a necessidade de diferenciação entre as pessoas. Todos devem poder passar pelo mesmo caminho, na mesma ordem, seguir a mesma fila, chegar aos mesmos lugares, serem vistos como cidadãos igualmente.
    Um abraço.

  7. Ana Clara quarta-feira, 15 de junho de 2011 em 21:09 -  Responder

    Oi!
    Eu tbm sou cadeirante e tenho 11 anos!!!
    Eu sei como tem muitas dificuldades as pessoas “diferentes”.
    Adorei esse blog, pois mostra q temos é mais q lutar pelos nossos direitos. Temos q ser igual a todos…Somos diferentes? Sim somos, mas queremos ser tratados de forma igual a todos… Não é isso?
    Beijos e Até +!!!

    junho 15th, 2011 - 22:59
    Nickolas Marcon respondeu:

    É isso aí, Ana Clara, o que procuramos não é ter nenhum privilégio, mas sim sermos tratados de forma igual a todos os outros. Um abraço!

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão indicados com *

Connect with Facebook

Publicidade

Facebook