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Lollapalooza – eu fui!

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lollapalooza são pauloFala aí pessoal!

Lugar do caralho. Foi a melhor descrição que encontrei pro lugar onde estive. Me baixou o espírito aventureiro do Eduardo e fui eu lá pro Lollapalooza ver o Foo Fighters. 

Não rolou stress prara chegarmos no jóquei, havia um esquema de interdição de algumas vias próximas que serviram como área de desembarque, e fui rodando em asfalto bom até o portão de entrada.

Nesse festival o valor do ingresso para pessoas com deficência era metade do valor, no Rio de Janeiro isso vale para todos os shows, mas aqui em São Paulo é facultativo, fica a critério do evento disponibilizar esse ingresso com 50% de desconto. Acompanhante paga normal, não existe dessa de acompanhante não pagar. Recebemos muitos e-mails sobre isso.

Cheguei lá 13h e o Wander Wildner já estava rolando no palco Butantã do outro lado do jóquei (lugar do caralho), a entrada pra cadeirantes era no portão 1 (Cidade Jardim) sendo assim você atravessa um bairro inteiro andando numa grama alta estilo capim (o Nickolas já mexeu com gado, entende o meu perrengue). Fora os buracos que essa grama escondia! Pulei feito pipoca.

Daí tava aquele baita sol, dia bonito, todo mundo meio nem aí pro Wander Wildner, haja visto que a maioria das pessoas ali presentes nem sabiam quem era aquele maluco. Lembro que em 86 eu já tinha uma fita do “Replicantes” sua banda da época.

Wander Wildner

Com o mapinha do evento na mão localizei a área reservada pra PNE, e notei que era até legal o lugar, bem elevado, ninguém atrapalharia minha visão e tinha controle de acesso feito pelos seguranças, só entrava um cadeirante e seu respectivo acompanhante.

área elevada reservada para pessoas com deficiência

área elevada reservada para pessoas com deficiência - palco butanta

Quatro banheiros químicos cercavam esse elevado, eram banheiros acessíveis, mas o festival mal tinha começado e já estava um cheiro de bosque do inferno (lugar do caralho). O lado bom é que se um cadeirante precisasse ele não precisaria voltar até perto do palco Cidade Jardim pra escorregar o moreno. Bom, eu subi no elevado tirei umas fotinhos e o show do Wander Wildner estava acabando, com a música “LUGAR DO CARALHO”. 

Eu e o Rafael (amigo meu) já havíamos almoçado antes de irmos, prevendo um caos pra comprar qualquer coisa ali dentro. era necessário trocar o dinheiro por fichas para depois você encarar outra fila daquilo que se queria (bebida, comida, etc). mas notamos um caixa lá no outra ponta vazio, era a nossa chance de adquirirmos a moeda corrente do lugar pra nos garantirmos (utilizamos cálculos financeiros e estatísticos avançados para não sobrar nem faltar 1 real, pois não haveria troca dessas fichas) e lá fomos nós rodando naquele lugar do caralho. Tinha a fila pra pulseirinha verde também, que era identificação para comprar cerveja. Mesmo com 50% de cabelos brancos, entramos nessa também. 

visão da área reservada para o palco cidade jardim

visão da área reservada para o palco cidade jardim

Munidos de copos d’água e uma cerveja meio morna, não nos restou outra coisa a não ser se empuleirar na área reservada voltada pro palco principal (cidade jardim), onde notamos uma imensa discrepância entre o lugar alocado fisicamente e o do mapa, tinha algo muito errado ali, e não eram nossas visões. Sim, colocaram o reservado pros cadeirantes e afins uns 100 metros pra trás do que estava no mapa, o que dava fácil uns 300 metros do palco, um lugar do caralho. Pelos nossos cálculos avançados de engenharia, era para estarmos perto dos guarda-sóis laranjas da foto acima. Ainda assim nos posicionamos em um canto que dava a melhor visão parcial possível. E ficamos longas 7 horas alí aguardo do senhor Dave Grohl e sua banda surgirem. Nesse meio tempo comemos cachorro quente caro e água ao som de bandas com nenhuma ou pouca expressão se comparada ao Foo Fighters. Salvaram-se O Rappa e Marcelo Nova.

área reservada - palco cidade jardim

área reservada - palco cidade jardim

Sinal de Internet? Esquece, tudo entupido. Acho que até eu faço um ponto wi-fi melhor, tinha uma operadora bem mais ou menos patrocinando e provendo esse acesso. 3G do celular sem chance também, nem mesmo os próprios celulares conseguiam funcionar pra fazer o básico que seria ligar para alguém. SMS iam, mas voltavam. Um lugar do caralho. Outra coisa que está no meu sangue de trabalhador industrial, acostumado com inúmeros procedimentos de segurança, já fui me imaginando tendo que sair dali num tumulto – rota de fuga, onde estava o extintor, posto médico, ambulância e tudo mais. Aquele tipo de coisa que nunca vai dar certo se você precisar, mas eu não deixo de praticar esse exercício mental.

visão do butanta para o palco cidade jardim - longe...

visão do butanta para o palco cidade jardim - longe...

Mas tá limpo. E com o decorrer do tempo olhando pra aquele mar de gente de todas as tribos, cores raças e etc, os cadeirantes começaram a surgir, aos poucos um exército de cadeiras locadas daquelas com pneu maciço e bilha na roda – apareciam igual gremlins, a maioria era cadeirante por fraturas e afins, pessoas que “estavam cadeirantes”. E a área reservada que a princípio era grande, foi virando uma panela de pressão, os seguranças fizeram um pente fino pra retirar gente que estava com mais de um acompanhante estorvando a visão, que já não era das melhores. Tinha um gente fina lá que me reconheceu da comunidade do Orkut e tal…

É natural, sempre que vou a um lugar onde tem muito deficiente em geral, não conseguir parar de olhar os demais e tentar levantar uma estatística de quantos ali são lesados, distróficos, polios, e outros… e nas condições da cadeira dessa galera que no geral roda muito mal, mas coloca mal nisso aê. Pior é que nem sempre é por falta de grana, acho que falta a conscientização de que em uma cadeira melhor, se vive melhor… É uma situação diferente dos que não podem ter algo melhor por uma questão financeira desfavorecida.

banheiros acessíveis eram supervisionados

banheiros acessíveis eram supervisionados por seguranças

Um cadeirante motorizado do meu lado queria fazer um xixi ali no copo e ví que ia feder (literalmente), dei aquele toque “camarada joinha campeão”, e falei pra ele ir no banheiro. Pô, ia ferrar tudo ali, não ia rolar. Nisso ele foi, sete cadeiras tiveram que ser deslocadas pro cara descer e depois e uma hora meu amigo viu o cara lá no fundão, óbvio que esse xixi custou caro pra ele, também bebeu coca-cola igual um dromedário. 

Dave Grohl - Foo Fighters

Dave Grohl - Foo Fighters

E chegou a hora do grande show! 

Sobre o autor / 

Christian Matsuy

Cadeirante, paulistano bom gourmet e piloto profissional (de autorama)

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8 Comentários

  1. Junior segunda-feira, 23 de abril de 2012 em 17:13 -  Responder

    auhauhauah o gordinho da foto que mostra a área reservada – palco cidade jardim, colocou uma bandagem em um dos joelhos e pegou uma cadeira de rodas do ferro velho e foi lá pra area dos PCD….. é de se lamentar q até deficiente tem neguinho q quer ser ou se intitula como tal para nao ficar em filas, para em alguns casos pagar meia entrada, para participar de concurso, para obter isençao etc…
    É de se lamentar tbm que pq nao fizeram um caminho de compensado exclusivo para uso dos que tem dificuldade de locomoçao até a area reservada ou trocassem a area reservada de lugar. Voce e outros cadeirantes ou os muletantes correram o risco de cair…. mas eles ja fazem isso assim mesmo q é pra criar dificuldade e desencorajar o cidadao no proximo evento.
    Estes tipos de evento que envolvem massa de publico deveria ter surpevisao das autoridades municipais e caso não seja observado os padroes de acessibilidade, acionar o MP para que nao se realize o evento.

    abril 24th, 2012 - 11:42
    Christian Matsuy respondeu:

    Fala Junior,

    Por um momento cheguei a pensar nessa possibilidade, mas ali não tinha ninguém fingindo não, tinha até gente com aqueles pinos pra fora da perna… Todo evento desse porte tem que seguir uma série de alvarás e permissões, mas essaas coisas a gente nunca acaba sabendo se foram ou não cumpridas.

    O lugar destinado para pessoas com deficiência fuinciona igual a lei de cotas trabalhistas: só cumprem por ser obrigatório, mas como você mesmo disse nos colocam sempre em lugares péssimos.

    Porém essa situação já não pode ser mais aceitada. Temos que ir nos lugares e reclamarmos, é a única maneira de mudar algo.

    Abraços!
    Christian

  2. Fabiola segunda-feira, 30 de abril de 2012 em 22:28 -  Responder

    Eu vou no Sonar e eles estão prometendo coisas ótimas.. veremos..

    abril 30th, 2012 - 22:31
    Christian Matsuy respondeu:

    Olá Fabiola,

    Espero que cumpram! a proposta do Lollapalooza não era ruim,só precisava de adequações totalmente possíveis. Falta de uma acessoria correta.

    Abraço!
    Christian

  3. Fabiola segunda-feira, 30 de abril de 2012 em 22:33 -  Responder

    É eu dei consultoria nas adequações do Sonar , tudo terá acessibilidade…Veremos se ficou boa mesmo.

    abril 30th, 2012 - 22:37
    Christian Matsuy respondeu:

    Estamos aceitando convites ;)
    Daí lhe dizemos se realmente ficou bom!
    (brincadeira).

  4. Fabiola segunda-feira, 30 de abril de 2012 em 22:39 -  Responder

    eheheheh Não tenho, e o credenciamento de imprensa já acabou! Conto depois como foi.

  5. Nickolas Marcon terça-feira, 8 de maio de 2012 em 17:45 -  Responder

    Christian, lugar do caralho é isso aí! Aliás, essa graminha aí pra mim é tapete.

    Lá no interior se plantava o “capim colonião”, que chegava a mais de 1,5 m de altura. O nome científico real da planta é “panicum maximum”, mais ou menos a mesma sensação que se tem andando no meio.

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