Reconciliação

Há um tempinho atrás, conversando com uma amiga que me conhece há anos, desde antes do acidente, ela me faz a seguinte pergunta:

Mas você trabalha meio período?

Na hora não me toquei muito, ri e respondi, meio que debochando, que sim, que trabalho vários meio-períodos por dia.

Depois fui assimilar melhor, e na verdade fiquei p… da vida de ouvir isso de uma pessoa que me conhece há anos e sabe o suficiente da minha vida pra saber o quanto eu trabalho. Até tentei achar que a pergunta foi inocente, mas não. Pra quantas pessoas “normais” ela faria essa mesma pergunta?

Pensando mais sobre o assunto, percebi que é muito complicado reconciliar a diferença entre como o mundo quer que eu seja e como eu me vejo, e sou.

Quantas pessoas realmente esperam que um cadeirante leve uma vida “normal”?

Acredito que a maioria não espere absolutamente nada, e dai fiquem tão admiradas e impressionadas quando veem um deficiente com uma vida completa. Sinceramente, preferia que enfiassem a admiração no lixo e me respeitassem mais como uma pessoa normal, e que “por acaso” está numa cadeira de rodas. Muito chato e cansativo ter  que explicar, desenhar e fazer um fluxograma pra que as pessoas entendam que na verdade não tem muita diferença.

Mas ainda fico impressionada com essa falta de expectativa que as pessoas tem em relação aos deficientes. Durante muito tempo, foi um alívio não esperarem nada de mim. Assim pude fazer minhas escolhas sem nenhum julgamento. Em tese, estava livre de cobranças e ter que seguir padrões idiotas pré-estabelecidos. Mas o outro lado da moeda é esse: as pessoas não esperam nada de você e muitas vezes são capazes de te anular socialmente por achar que você não se encaixa em lugar algum. Muito complicado esse mundo, viu?

Mas, como já disse aqui mil vezes, e continuo repetindo: nada disso me impede ir atrás do meus desejos. Mas já é tempo das pessoas começarem a abrir um pouquinho a cabeça, né não?

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5 comentários em “Reconciliação

  • segunda-feira, 18 de junho de 2012 em 12:16
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    Credo! Quanta raiva nesse peito hein? Calma, acho que não é por aí. A falta de educação causa esse tipo de pergunta e pensamento. Meu marido é cadeirante e sei bem como são essas coisas. Mas entendendo tb que ninguém é obrigado a saber. Mesmo que a pessoa te conheça a anos. A vida é dura pra todo mundo cris, só melhora quando aprendemos a ver as coisas de outra forma. Principalmente essas coisinhas irritantes.

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  • segunda-feira, 18 de junho de 2012 em 17:34
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    Concordo com vc totalmente Cris. O povo fica espantado quando conto as coisas que faço, me sinto marciana as vezes!
    Sem contar as situações em que julgam que vc ñ vai conseguir uma coisa mesmo antes de vc tentar…

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  • terça-feira, 19 de junho de 2012 em 16:27
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    É a mais pura verdade o que vc disse Cris, Muitas pessoas são assim eu diria que a maioria delas!
    Tenho amigos que infelismente já me mostraram que mesmo estando perto da gente a uns bons anos! As vezes fazem pior que uma pessoa que vc conhece a pouco!
    Beijão Cris!

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  • quarta-feira, 20 de junho de 2012 em 18:17
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    sou cadeirante a 3 anos e meio , tenho poucos amigos e quero fazer novas amizades com pessoas ,, que se encontra numa cadeira de rodas ,,,, para saber ponto de encontro entre cadeirantes …
    ficarei aguardano resp.

    marioalessandrocouto@gmail.com

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