Esportes e Lazer, Geral

Correndo por ai

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Lagoa

Acho que já falei aqui do meu início de relacionamento com o esporte. Sim, porque é um relacionamento. Você se apaixona, acha que não pode mais viver sem,  mas tem horas enche o saco, pensa que não é nada daquilo que quer, que tá se doando de mais e não está tendo em troca o que merece. E dá trabalho. Muito trabalho. E disciplina. Mas uma coisa posso dizer: melhorou absurdamente minha qualidade de vida. Mas acho que essa parte fica mais para o esporte, pois relacionamentos já são um tantão mais complexos.

Enfim, a história é que comecei com o remo. Tava gostando bastante, mas ficava olhando o povo correndo na ciclovia e imaginando se consegueria também. E como toda idéia maluca que a gente bota na cabeça, resolvi que deviaria tentar  ir “correr” na ciclovia. Não tinha idéia se ia conseguir, como ia ser, se seria possível evoluir (sou tetra né gente, paraguaia mas sou, tudo é possível) e fiquei com isso na cabeça uns bons meses. Ai precisei dar uma parada no remo por motivos de trabalhando pra kct e no final de setembro do ano passado voltei a remar. Ai, fiquei olhando pra ciclovia e foi dando uma vontade enorme de ir lá e sair tocando a cadeira. Aquele momento Forrest Gump, de sair correndo sem rumo pelo mundo. Achei que era a hora de colocar a vontade em ação, e fui conversar com o pessoal da assessoria esportiva pra ver o que eles achavam. Para minha surpresa não só toparam, como se empolgaram com a minha idéia. No dia seguinte, fui lá e corri meu primeiro quilômetro. Eu sei, não é muito. Mas tava parada há séculos e não sabia como seria tocar a cadeira ali, e o pessoal da assessoria também não é maluco, é preciso começar devagar e depois ir aumentando gradativamente a distância. Achei bem tranquilo e gostei muito. Me fez um  bem danado aquela corridinha. Me empolguei e resolvi que precisava de um objetivo, uma meta. Na hora me lembrei dos circuitos de corrida que acontecem as pencas, e pesquisei quais seriam os próximos e me inscrevi em um que aconteceria no início de dezembro, uma prova de 5km. Na época, essa distância parecia como ir do Rio a São Paulo. Mas tava disposta. Meta estabelicida, era treinar o máximo que pudesse com o mês que me restava até a prova. E lá fui eu, treinando, aumentando a distância, sofrendo com a ciclovia que é na maior parte torta, inclinada de lado, fazendo com que eu force mais um braço do que o outro, mas vendo claramente a melhora no meu desempenho, nas atividades do dia-a-dia e no humor. Não preciso discorrer aqui sobre os benefícios de uma atividade física, todo mundo tá careca de saber.  

Chegou o dia do circuito. Tava nervosa pacas, tinha marcado taxi para as 7:00 da manhã, e a cooperativa liga dizendo que o taxi quebrou e que ia levar 20 minutos pra mandar outro. Solto um zilhão  de palavrões e começo a pensar em como chegar na corrida. Resolvi ir de carro e chamar a única pessoa no  mundo capaz de acordar num domingo pra ir comigo até a corrida, mesmo reclamando horrores. Pego o telefone e ligo:  

– Mãeeeeeeeeee, pelamoooooordedeus, vai comigo na corrida, preciso de alguém junto pois não vou ter onde parar o carro.

Mil resmungos depois chega ela e lá vamos nós. No caminho, mega aflita com o horário, vou pensando: será que consigo? É isso mesmo que eu quero? Aiiiiiiii, tô nervosa! Caraca já são 8:10, a corrida era as 8:00!

Chegamos no Aterro do Flamego, onde era a corrida, saltei do carro e fui voando até a tenda pra pegar o chip que marca o tempo que vc faz, e começar a correr. Acabou sendo bom chegar atrasada, pois a maioria das pessoas já tinha largado, então pude ir sem medo de ser atropelada. E lá fui eu. Primeiro pensamento: “Caraca! Eu tô correndo num circuito, isso tá acontecendo!” E fui colocando mais força a cada toque que dava na cadeira. De repente, passa um cara e me dá um tapa nas costas. Ué, será que eu conheço? Bom, não tenho como saber, vou concentrar na corrida. Passados 2km, fui chegando perto da parte onde eles dão água, o que é bom, pois tava com sede, mas quando vi aquele monte de copinho no chão pensei: momento “corrida com obstáculos”. Passar pelos copinhos foi uó! Eles encalacravam nas rodinhas da frente da cadeira e era bem chatinho de tirar dali. Enfim, passados os obstáculos, continuei no meu ritmo. Que na verdade já tava diminuindo. Olhei a plaquinha e ainda tava na metade, faltavam 2,5km ainda. Calma Cris, força, você consegue! Treinou pra isso. Vamos, vamos! Empurra, respira, empurra, respiraaaaaaaa! Passa mais um carinha correndo, vira pra mim e faz joinha com o dedão. “Pow, não é possível,  de onde essas pessoas me conhecem gente?” Continuei na minha saga de tentar respirar e empurrar. Passa mais um dando tapinha, depois outro com joinha, e mais outro. E outro, que ainda grita “É isso aiiiiiiiiiiiiiii”. Depois outro falando “Parabéns!”. Ai que me toquei que devia ser por que sou cadeirante. É que eu tenho a estranha mania de achar que sou igual a todo mundo, então pra mim, eu tava na corrida como qualquer outra pessoa ali, não pra ganhar um primeiro lugar, mas pra completar com o melhor tempo possível, é uma competição “contra” você mesmo. Me irretei um pouco com isso, pois me incomodou me sentir diferente. Mas deixei isso de lado, e segui pro meu último quilômetro. Quando vi a chegada, foi dando um friozinho na barriga, uma emoção aburda… Parece bobagem, mas pra mim não era. Tinha inúmeros significados aquela chegada. E finalmente, o momento final, que você cruza a linha, vai parando e pensa: “Caralho, eu consegui!!!”. Uma conquista que era minha, ninguém podia tirar de mim. Sensação impar. E ali decidi que aquela seria a primeira de muitas outras. É bom de mais! Passei o resto do dia cansada mas com um sorriso no rosto.

Depois daquele dia sabia que não ia conseguir mais não correr. E também sabia que não ia ser fácil com o pique de trabalho que eu tenho. Mas ia dar meu jeito, e mesmo que não conseguisse correr com a frequência que gostaria,  não deixaria de ir.

E assim tem sido. Esse ano já corri um circuito, o qual é progressivo e tem três provas ao longo do ano. O primeiro de 5km, o segundo 8km e a última 10km. Confesso que dessa vez não me incomodei tanto com os “joinhas” ao longo do percurso e até curti. Afinal, não dá pra negar que por ser cadeirante as coisas são um pouco mais difíceis sim. A estrutura pra treinar, mesmo que amadoramente, é uma meléca já que a maioria das ciclovias são tortas e você acaba forçando mais um lado do que outro e fazendo mais força pra segurar a cadeira pra ficar reta do que pra empurrar. Então, mereço uns joinhas mesmo, rsrsrssrs.

O esporte tem me ensinado muita coisa. Você começa a reparar que tem horas que precisar fazer mais força, se não, não sai do lugar, outras é necessário diminuir, pois se forçar muito pode acabar se machucando… Quantas vezes não colocamos nossos esforços em coisas ou pessoas que sabemos que não vai dar em nada? Enfim, não vou ficar filosofando aqui, mas  tá sendo uma fase muito bacana. E chega de contar da minha vida, rs. Acho que o resumo disso tudo é que nada vem de graça, mas que vale muito a pena quando a gente consegue alcançar a meta que colocamos. Não tem sensaçãos melhor. Afinal, é importante estar fazendo algo que nos faz bem!

Sobre o autor / 

Cris Costa

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8 Comentários

  1. Fred Carvalho domingo, 26 de maio de 2013 em 17:23 -  Responder

    Que legal, parabéns, também sou tetra paraguayo (bem comprometido), comecei com 600 metros, fui viciando, corri 5 Km, 10 Km, a turma da natação duvidou que encarasse uma meia 21 Km.

    Treinei muito, muitas luvas rasgadas, calos, tombos, corri a primeira, comprei uma cadeira de atletismo, corri outras meias e decidi enfrentar os 42.195 metros da maratona.

    Viciei no asfalto, fui correr a NYC Marathon, fiz um bestdrive em uma handbike adaptada para tetras, adorei. Troquei a cadeira pela hand e quase diariamente saio para pedalar pela cidade.

    #víciobom

    agosto 29th, 2013 - 13:14
    Cris Costa respondeu:

    Rapaz, vc é atleta profissional já, rsrsrs. Tenho muita vontade de correr a maratona de NYC, mas preciso treinar mais, e nem tenho cadeira de corrida, vou na minha mesmo. Independente do meio (cadeira ou bike), faz um bem danado e vicia mesmo, né? Bjs!

  2. Débora segunda-feira, 27 de maio de 2013 em 18:37 -  Responder

    Oi Cris, td bem?
    Adorei a ideia! Na verdade, já tinha cogitado tentar correr algumas vezes, mas sempre tive medo de encontrar algum buraquinho ou pedra no asfalto que me fizesse voar da cadeira e ficar sem dentes! Rs… Já até pensei em usar uma freewheel pra evitar isso. Como vc lida com esse problema?
    Bjs

    agosto 29th, 2013 - 13:11
    Cris Costa respondeu:

    Oi Débora, eu nunca cheguei nem perto de cair. Tem buraquinhos e pedrinhas, mas nada de mais, é só desviar. Faz um teste, vai ver que não tem nenhum problema e vai querer correr sempre. Bjs!

  3. MARIA PAULA terça-feira, 4 de junho de 2013 em 11:45 -  Responder

    Parabéns Cris. Saudades dos seus posts!!! Me deu um certo gás para voltar para a academia (estou pagando há mais de um mês sem colocar as rodinhas da cadeira lá).
    Passa as dicas do pessoal que te treina, quem sabe me animo e vou correr também?
    Bjs
    PS – Escreva sempre, seus posts são sempre inspiradores.

    agosto 29th, 2013 - 13:10
    Cris Costa respondeu:

    Oi Paula! Eu corro com o pessoal da Tribus ( http://www.tribusadventure.com ). Eles ficam numa tenda quase em frente ao Corte do Cantagalo. Se empolga sim, eles são nota 10, sempre saio de lá mega animada! Bjs!

  4. Kauê quinta-feira, 13 de junho de 2013 em 12:04 -  Responder

    Cris, parabéns pela iniciativa. Eu, minha esposa e meu pai começamos a correr na rua o ano passado e adoramos. Quanto aos jóinhas, tapinhas e afins, não estranhe, pois normalmente os que correm se apóiam. Em minha primeira corrida também estranhei isso, mas depois ví que aquilo é normal com todo mundo e também dá um ânimo. E concordo com a Maria Paula ^, escreva sempre.

  5. Ronaldo terça-feira, 23 de julho de 2013 em 21:19 -  Responder

    Po Cris isso é bem bacana,eu remo lá no Flamengo já bastante tempo agora que tive que da uma parada devido a trab e outros probleminhas,e isso é bacana demais de da corrida na lagoa comigo passava os mesmos pensamentos de correr na lagoa,pq em dia que ta ventando muito fica um pouco complicado treinar,foi qd decidir dar uma corridinha de leve,gostei e vi que dava.foi qd começei adaptar isso parte do meu treino e depois de alguns meses já tava dando a volta na lagoa e como vc disse a maior dificuldade pra mim que sou (lesão paraplegia) foi a irregularidade da pista mas com um pouco de determinação e vontade consegui,bacana mesmo e feliz por essa conquista sua grande abs e nos vemos por ai na lagoa.

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