Nickolas Marcon - terça-feira, 23 de abril de 2013 - 12:37
Conforme anunciamos nesse post, publicado há alguns dias, a Cavenaghi chegou ao Rio de Janeiro. Ficamos devendo as fotos do local que agora o blog traz em primeira mão. A filial carioca fica localizada na Rua Gonzaga Bastos, no bairro da Tijuca, num imóvel totalmente reformado e acessível. Conta com toda a linha de produtos da Cavenaghi de São Paulo, desde cadeiras e acessórios até as adaptações veiculares (clique nas imagens para vê-las ampliadas).
Fachada da loja
A loja é dividida em duas partes: o salão de vendas e a oficina. No salão ficam os produtos novos em demonstração. Na oficina são feitos consertos em cadeiras-de-rodas e todas as adaptações veiculares da Cavenaghi. A entrada da oficina serve também como estacionamento onde cabem dois ou três carros. Aliás, o estacionamento é o ponto fraco da loja, pois há pouco espaço e não é permitido estacionar na rua.
Entrada da loja e estacionamento / oficina
O salão de vendas é amplo, climatizado, com ótimo espaço para circulação entre os produtos expostos.
Salão de vendas
A loja conta com a linha completa de acessórios para cadeira-de-rodas. Na foto abaixo aparecem em destaque protetores de raios, rodas X-Core, pneus Shox, além de uma linha completa de bengalas, muletas e andadores. As almofadas Ro-ho também têm destaque, há vários modelos em exposição.
Rodas e pneus, muletas e andadores, almofadas Ro-ho
A melhor parte da loja são as cadeiras-de-rodas. Nenhuma outra loja na cidade tem uma linha tão completa. Há modelos para todos os bolsos, gostos e necessidades. Desde a famosa Panthera-X em fibra de carbono até as cadeiras mais básicas. Marcas importadas e nacionais, modelos monobloco e dobráveis, manuais, motorizadas e scooters, stand-up chairs, cadeiras com sustentação para adultos e crianças, cadeiras de banho e até cadeiras de praia. Tudo disponível para demonstração e experimentação no local. Senti falta apenas das cadeiras americanas da Top End, marca que a Cavenaghi representa no Brasil, mas o vendedor informou que elas devem chegar no próximo lote, após a Reatech.
Panthera-X, Otto Bock Blizzard, Stand-up motorizada e outras
A loja funciona de segunda a sexta em horário comercial e sábado até as 13h00.
Christian Matsuy - domingo, 15 de abril de 2012 - 17:11
Soltando o vídeo da Doblô com rebaixamento de assoalho na parte traseira, leva quatro pessoas sentadas mais um cadeirante com sistema de segurança de fixação da cadeira. Ainda tem o cinto de segurança de três pontos que te deixa com muita comodidade e estabilidade, sou tetra alto e tenho muito pouco equilíbrio, me senti completamente “amarrado”! Perfeito!
rampa com inclinação boa + auxílio dos cintos retráteis
Outra grande vantagem é que não precisa modificar o teto do carro, e essa adaptação serve na Peugeot Partner também.
O sistema de rampa com cintos retráteis que auxiliam tanto no embarque como no desembarque, e ao meu ver é mais simples que o sistema hidráulico do outro modelo apresentado.
Cris Costa - quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 - 10:29
Um dos momentos mais marcantes nesse meu tempo de cadeirante foi quando pude comprar um carro. Demorou, foi sofrido, mas com certeza foi um marco na minha independência. Se hoje os ônibus adaptados não são lá essas coisas, imaginem há 10 anos.
Eu precisava trabalhar, sair de casa, fazer minhas coisas. Mas sem carro, como fazer? Pagava táxi, às vezes conseguia alguém que fazia um preço camarada, ou pegava uma carona. Mas era ruim demais, até porque os taxistas raramente são educados e solícitos. Fora que meu salário ia todo pra isso. Me sentia rasgando dinheiro.
Mas assim que tive condições, financiei e comprei um carro. Foi uma alegria só! Agora ia poder fazer tudo, ir a todos os lugares ir e vir na hora que quisesse e a um custo bem menor. Achava que a música “Born to be wild” tinha sido feita pra mim. Maravilha, né? Aham… Tinha pensado em tudo em relação ao carro – preço, consumo de combustível, adaptação, seguro – menos no mais importante: o motorista. Sim, eu seria a motorista. Mas quem disse que seria fácil dirigir um carro adaptado? Ok, difícil não é, até porque o carro tinha câmbio automático. Mas nunca tinha dirigido um carro automático e muito menos adaptado. Pensei “Ah, não deve ser tão difícil assim! É só acelerar e frear. Nenhuma dificuldade!”. Pois bem, entrei no carro, liguei, mudei a marcha e … POW! De “cara” no muro da garagem! Porque ninguém me explicou que carro automático sai andando sozinho??? Além disso me atrapalhei toda com puxa-acelera, empurra-freia, memória corporal que mandava comando pro pé frear, enfim, uma trapalhada só. Parei tudo (óbvio) e saí do carro convencida de que precisava aprender a dirigir de novo. Consegui alguém que tivesse paciência para andar comigo e me ensinar até que eu pegasse o jeito. Foi quase uma auto-escola. Depois de algumas aulinhas, peguei confiança e fui pra rua, já sozinha e independente. Realmente ter carro fez uma diferença enorme na minha vida. Aí sim…
Bom de mais, né? Ainda mais agora que passo longe dos muros!
O Blog Mão na Roda Adverte: Não dirija antes de fazer auto-escola. Mesmo já sabendo dirigir!
Nickolas Marcon - sexta-feira, 24 de setembro de 2010 - 12:49
Será que TODOS os ambientes onde circulam pessoas, públicos e privados, devem ser acessíveis para pessoas com deficiência? Essa é uma pergunta que sempre gera muitas discussões.
Há alguns dias recebemos um email de um leitor que questionava sobre essa exigência das leis brasileiras. Sim, leitores, pelas leis vigentes atualmente, todos os lugares a serem construídos ou reformados devem ser livres de barreiras arquitetônicas.
Mas não seriam apenas locais públicos? Não, pois locais de natureza privada são frequentados por todas pessoas. Sendo assim, o conceito de acessibilidade deve se estender a todos. Afinal, quem garante que uma pessoa com deficiência física não precisará utilizar esses lugares? Deficientes físicos também trabalham, consomem, demandam todo tipo de serviços e interagem socialmente. No caso dos cadeirantes, diria que a diferença está apenas na sua preferência por usar rampas e elevadores ao invés de escadas.
Antes de falar sobre o aspecto legal, vejamos alguns exemplos práticos:
1. Comércios: todo deficiente é cliente em potencial. Trabalham, produzem, ganham dinheiro e querem gastá-lo. Incontáveis vezes já vi comércios perderem clientes por não serem acessíveis. Esse fato é tão frequente que já foi abordado até em telenovelas. Lembrando que o deficiente raramante vai a um lugar desses sozinho. No caso de um restaurante, por exemplo, a falta de acessibilidade fará o estabelecimento perder o faturamento de todas as pessoas “andantes” que estiverem junto com o deficiente; essas pessoas deixarão de experimentar o lugar e não voltarão outras vezes nem o recomendarão para outras pessoas. Já escrevi sobre isso no meu primeiro post no blog.
2. Indústria: a lei trabalhista obriga a contratação de deficientes segundo algumas regras que valem para todas as empresas. É claro que não veremos um cadeirante circulando no meio de uma siderúrgica, mas todas as indústrias possuem áreas administrativas. Eu mesmo já trabalhei em uma delas. Já tive contato com o caso do dono de uma fábrica pré-moldados que ficou paraplégico num acidente de moto e, para continuar administrando sua empresa, adaptou todo o canteiro de trabalho para permitir sua circulação. Outro exemplo seria uma indústria de confecções, onde as pessoas trabalham sentadas na sua maioria. Por que não poderiam contratar uma exímia costureira que teve algum problema de saúde que prejudicou sua locomoção, mas não sua habilidade manual?
3. Prestadores de serviço: algumas empresas até preferem contratar deficientes, tanto para atender à legislação como também porque eles costumam se dedicar melhor ao trabalho do que outras pessoas. Imaginem uma oficina mecânica que também resgata veículos sinistrados: infelizmente, já tive a experiência pessoal de ter meu carro envolvido em um acidente e tive que comparecer três vezes a uma oficina para acompanhar orçamentos e discutir indenização com a seguradora. Se a oficina não fosse acessível, eu teria indicado o conserto para ser feito em outro lugar, pois havia várias opções. Acho que o caso mais conhecido de deficientes prestadores de serviço são os serviços de telemarketing: a maior empresa do Brasil (e muitas outras) contrata EXCLUSIVAMENTE deficientes físicos para trabalhar no seu setor de tele-atendimento, pois a eficiência desses funcionários tem rendido sucessivos elogios dentro da empresa, além de vários prêmios de reconhecimento.
4. Edificações habitacionais: as construtoras hoje valorizam a acessibilidade em todos os novos lançamentos, tanto pela questão legal quanto pela exigência da clientela. O número de idosos hoje é crescente na população brasileira. A expectativa de vida é cada vez maior. Qualquer comprador de um imóvel que tenha hoje 40 anos sabe que com 60 anos poderá ter dificuldades para subir escadas. Um casal jovem de 25 ou 30 anos sabe que andar com um carrinho de bebê será uma dificuldade num prédio com escadas. Sem falar que acidentes acontecem com qualquer pessoa e são as principais causas de paraplegia/tetraplegia no mundo. Uma pessoa pode fazer uma babilônia de degraus na sua casa? Pode, claro, pois é seu espaço. Mas um profissional da construção competente saberá identificar os costumes do seu cliente e propor soluções mais acessíveis em sua casa dependendo da sua necessidade, pois sabe que um imóvel pode ser uma coisa para a vida toda. Imóveis com boa acessibilidade também são mais valorizados.
Quanto custa fazer uma rampa e deixar um local acessível? Se for um projeto a ser construído, o custo é zero, pois não há padrão anterior para comparar com a construção existente. Se for uma reforma, será que a construção de rampas e adaptação de banheiros encarecerá demais a obra? Comparando-se esses custos com o retorno que podem trazer trará a conclusão de que prover um estabelecimento de acessibilidade não é só uma questão de assistencialismo, é também uma questão de lucratividade. Não é preciso ser nenhum mestre em marketing para saber que ganhar um cliente é um ótimo negócio, pois gera toda uma nova cadeia de consumo.
Ainda há a parte legal. A mesma Constituição Federal que garante ao indivíduo o direito à propriedade da sua casa e do seu carro, garante o direito de ir e vir a qualquer estabelecimento, sem exceções. Assim, a acessibilidade não é uma questão a ser discutida. Lei existe para ser cumprida. Não é possível estabelecer uma lei que faculte a adequação de ambientes, pois assim todos optariam pela solução mais simples e a lei seria inútil.
Qualquer estabelecimento que não esteja de acordo com os dizeres legais poderá sofrer sanções de acordo com o nível da administração pública envolvido na fiscalização (Decreto 5.296/04, artigo 3º). O dono de um estabelecimento fechado pode deixar o lugar sem acessibilidade? Pode, pois é sua propriedade. Mas ele não obterá alvará de funcionamento do seu negócio caso a prefeitura cumpra a lei. Também poderá sofrer multas e sanções se não cumprir as legislações trabalhistas que preveem adequação do local de trabalho a todos os funcionários. Na maioria das cidades a lei é cumprida, mas no Rio de Janeiro…
Coloquei aqui alguns argumentos para alimentar a reflexão a respeito da questão de acessibilidade. É uma visão particular que não é estática e está sempre aberta a novos argumentos. Críticas e comentários dos leitores são bem-vindos, pois só enriquecem a discussão.
Nelci Burtet - sexta-feira, 28 de maio de 2010 - 08:59
Por dois meses ficamos confinados num quarto. Eu, que nunca fui muito fã de trabalhar na área médica, tive que ser de tudo um pouco: enfermeira, nutricionista, fisioterapêuta, psicóloga… Mas a gente ia aprendendo e se virando. No início, cada vez que eu tentava colocar o Nickolas sentado, ele apagava. Lá ia eu com a máscara de oxigênio para reanimá-lo…
Outra preocupação eram as escaras: essas feridas aparecem devido à imobilidade e consequente pressão constante num mesmo ponto. Para evitá-las, o melhor é mudar de posição repetidamente. O uso de produtos receitados pelos médicos (pasta d’água é muito bom) também ajuda na prevenção. Mas também tem as receitas caseiras. Todo mundo sempre tem uma “receita infalível” para os problemas e, na hora da dificuldade, uma mãe faz qualquer negócio para ver o filho melhorar. Querem ver?
Por causa do acidente, o Nickolas teve uma queimadura no peito (o cano de escape ficou em cima dele), parecia um bife e demorou seis meses para cicatrizar. Até açúcar cristal a gente colocou para acelerar a cicatrização. Outra história foi a do óleo de peixe. Certa vez me disseram que o óleo da espinha de um peixe raro do pantanal ajudaria a recuperar a medula. Mandei buscar o tal do peixe a preço de ouro, separei a espinha, fervi e tirei o óleo. Aí veio a pior parte: passar na pele nas costas, sobre a coluna vertebral. O coitado ficou fedendo a peixe por 7 dias e 7 noites. Não tinha banho que tirasse a catinga.
Uma coisa muito séria: fisioterapia. Eu mesma não acreditava que aqueles movimentos resolveriam alguma coisa. Deixava fazer, mas não acreditava. Aí a coisa foi evoluindo, começa a rolar pra cá, pra lá, equilibrar um pouco mais para sentar, posição de engatinhar (pra não dizer de quatro), o corpo se fortalecendo e as conquistas físicas acontecendo. Me convenci: fisioterapia é essencial e os movimentos básicos devem ser repetidos todos os dias.
Mas as coisas não eram só tristeza, não! As alegrias já apareciam novamente. Um dos dias mais felizes foi no início de agosto/94, quando tirei o Nickolas pela primeira vez do quarto na cadeira de rodas. Passando pela sala, um teclado estava sobre a mesa e lembrei que três anos atrás, num recital do Dia das Mães, ele havia tocado uma música em minha homenagem: “El Condor Pasa”. Eu ainda tinha medo de sequelas cerebrais, que sem dúvida são muito piores que as físicas. Queria ter certeza de que ele não tinha esquecido e pedi que tocasse a música.
- Ah mãe, não dá, faz tanto tempo que não toco. Não lembro mais.
- Só um pedacinho – insisti.
Aproximei a cadeira da mesa, liguei o teclado e ele, com as mãos meio atrofiadas, os dedos magérrimos, tocou alguns acordes da dita música. Foi uma das maiores emoções da minha vida. Para mim, meu filho estava ótimo e agradeci a Deus por tê-lo me devolvido por inteiro.
Em setembro/94, quatro meses depois do acidente, saímos da toca, quer dizer, de casa, pela primeira vez. Fomos à festa do santo padroeiro da cidade e, é claro, como era uma cidade pequena, todos nos conheciam. Olhavam pra ele como se fosse um ET. Lá pelas tantas vejo o Nickolas com meio metro de língua pra fora. Na direção dele, uma mulher (amiga minha e colega de trabalho) olhava insistentemente para ele.
- Nickolas, o que é isso? Que falta de educação ficar mostrando a língua pras pessoas.
- Mãe! A mulher não parava de olhar pra mim com cara de espanto.
É assim. As pessoas não fazem por maldade, mas às vezes irritam, principalmente se ficarem manifestando piedade. Ninguém gosta, nem quem está na cadeira e nem quem está do outro lado. É só respeitar.
Retomei minha vida profissional (setor cultural e esportivo do município) e o Nickolas passou a ser, por uns tempos, um dos meus melhores colaboradores. O prédio em que eu trabalhava, como a maioria, não tinha rampa de acesso. Um dia resolvi descer uma escada de uns 10 degraus com a cadeira e ele em cima. Bem que ele avisou que não ia dar certo, mas como sou um pouco teimosa, fui adiante. Faltavam uns três degraus, eu segurando a cadeira, descendo de costas, quando… cataplum!!! Só deu tempo de agarrá-lo pelas costas e lá fomos nós rolando pro chão. A cadeira já ia andando sozinha lá no meio da rua e eu torcendo para nenhum carro acertá-la… E para voltar do chão para a cadeira? Não foi fácil levantar, mas conseguimos. Nenhuma consequência grave, mas que foi um belo tombo, foi.
Foi uma lição para aprender que conduzir uma cadeira de rodas requer mais que vontade. É preciso força também.