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Em busca de um espaço

Eduardo Camara - sexta-feira, 23 de julho de 2010 - 14:34

Já tinha 9 anos desde minha lesão quando resolvi partir de vez em busca de um apê. A relação sempre foi de total liberdade na casa dos meus pais, mas sentia falta de um espaço só meu. Era bastante independente, tinha acabado de sair de um relacionamento de quase 3 anos, trocado de emprego e estava querendo dar uma sacodida na vida. Comecei a looooonga procura por um apê e como ela foi desgastante! Já tinha juntado uma grana, mas teria que vender minha alma -que não vale muito – ao diabo e ainda aplicar a merreca na bolsa para conseguir dar entrada em um cafofo aqui no Rio. Para quem não sabe, o metro quadrado da cidade maravilhosa é caríssimo! O preço de um quarto e sala na zona sul do Rio é mais ou menos o de um 3 quartos em um bom bairro de Curitiba, por exemplo. Solução: aluguel!

Claro que alugar também não era barato, mas fiz as contas e dava para pagar o aluguel e ainda sobrava um troco. Mas e para achar o apartamento? Tudo bem que restringi um bocado as minhas opções quando decidi que continuaria morando em Copacabana, bairro onde nasci, cresci e adoro até hoje! Primeiro porque não é um bairro barato, e depois porque a maioria dos seus prédios são construções antigas e muitos não tem rampas na entrada. Alguns, sequer tem elevadores. E para piorar, o bairro ainda tem um certo carisma e está passando por uma revitalização, o que fez com que mais gente entrasse na concorrência por um apê em Copa.

Os muquifos que visitamos eram mais ou menos assim

Tentar alugar um apartamento bom aqui no Rio é frenético. Você acorda cedo pra cacete aos sábados e domingos, cata os classificados do O Globo e começa a ligar para os anúncios de aluguel. Muitos deles não atendem pois são imobiliárias que não funcionam no final de semana, então você também tem que madrugar na 2a feira para saber sobre os apês. E tem uma coisa: se o corretor te tratar bem ou o apê for anunciado mais de uma vez, nem adiantar perder tempo com o apartamento porque ele é uma merda. Apartamento bom no Rio é alugado NA HORA e se o corretor falar que tem que comer caca de cachorro para conseguir a ficha aprovada, te garanto que tem gente que topa!

Logo de cara, consegui achar um apezinho maneiro em um bom prédio com vaga e tudo. Era um pouco barulhento, mas a localização e o tamanho do apê (quarto e sala de incríveis 70m2) compensavam. Caí na asneira de perguntar pro proprietário se eu poderia tirar a porta (de plástico) do box para poder entrar mais fácil com a cadeira. O sujeito fez uma cara tão feia que ali mesmo eu percebi que tinha rodado… Amigo cadeirante: se vai fazer alguma modificação em um apê alugado, NÃO AVISE O PROPRIETÁRIO. Sério mesmo… Se for bobeirinha, tipo tirar uma porta do box para depois recolocar, não avise.

Fiquei quase um ano nesse ritmo alucinante e procurar apê para alugar. Fazia uma ronda nos finais de semana para ver se os prédios tinham acesso básico e, se tivessem, na segunda-feira tentava visitar o apartamento em si. Vi, sem sacanagem, mais de 100 prédios e visitei no mínimo uns 40 apês. Nesse meio tempo, conheci a Bianca. Ela  passou a me ajudar na busca (era diretamente interessada, ehehe!) e viu vários apês para mim. Quase consegui alugar alguns deles, mas a minha “ficha” sempre era preterida por outra. E olha que eu tinha um bom emprego estável e um fiador, hein? Cheguei até a ver um apartamento que tinha sido de um cadeirante (Olha só!), com banheiro adaptado e tudo, mas o proprietário preferiu alugar para outra pessoa. É mole?

Depois de tanto tempo dando com os burros n´água, já tinha juntado um dindin a mais, feito algumas contas e cheguei a conclusão que daria para comprar um apê financiado. As coisas também estavam indo muito bem com a minha namorida, praticamente já morávamos juntos e decidimos estreitar ainda mais nossos laços. Reunimos os tostões e mudamos o objetivo da busca: o lance agora era arrumar um apê para nós dois comprarmos!

Não foi nem um pouco fácil… Se por um lado quando vc está COMPRANDO um apê os proprietários te tratam melhor, a responsabilidade é muito maior e a quantidade de picaretas tentando te passar uma bomba aumenta consideravelmente. Negociamos apartamento com ex-presidiária, uma mulher que fugiu do hospício e outra que mantinha uma pessoa em cativeiro dentro do apartamento. Tá, não foi isso tudo não. Exagerei em um dos casos. Mas os outros dois eu juro que são reais!

Depois de 1 ano e meio procurando apê, nossa planilha de muquifos visitados já continha 300 itens. Encheu o saco. Decidimos que tínhamos que relaxar e tiramos férias, viajamos, curtimos… Foi quando voltamos, bem mais relaxados, que fomos visitar mais um apê despretensiosamente. Lembro até hoje: bastou entrar na sala para ter aquela sensação de “é esse!”. Claro que fiz aquela cara de desinteressado para o corretor, para não valorizar. Quando o cara virou de costas e eu olhei para Bianca, percebi que ela tinha sentido o mesmo que eu. Uhu!!!

(continua)

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