Pessoas com deficiência x pessoas sem deficiência
Bianca Marotta - segunda-feira, 21 de junho de 2010 - 16:34
De uns tempos pra cá, por motivos óbvios, passei a me interessar por acessibilidade na web. Primeiro porque trabalho com webdesign e segundo porque escrevo no Mão na Roda. :)
Foi assim que passei a fazer parte da lista de discussões da Acesso Digital (muito boa pra quem se interessa pelo tema) e tive acesso a vários textos interessantes que brotavam de nossas trocas de email. Resolvi transcrever um deles aqui no blog, pois o que começou como resposta a uma discussão sobre acessibilidade web se transformou numa ótima observação sobre a interação “pessoas com deficiência x pessoas sem deficiência”.
O texto é do nosso amigo MAQ, que é cego e autor do blog Bengala Legal e do site Acessibilidade Legal. Valeu MAQ!
“O grande problema dos arquitetos de informação atualmente é definir quem seja público alvo. Como os empresários, em geral, não sabem que pessoas com deficiência existem, elas nunca estão no público alvo dos arquitetos. É a mesma coisa que acontece com as mulheres em relação aos cegos. Como nós não vemos, imaginam que somos a salvação da lavoura ou, por outro lado, que não somos nada. É essa falta de aproximação entre pessoas com deficiência e pessoas sem deficiência que cria o preconceito. Essa distância abre espaço para todo tipo de imaginação. Imaginam como somos, o que fazemos, como vivemos etc.
Quando eu estava recém cego, com 21/22 anos, estudava na PUC-Rio e as mulheres me perguntavam quem me dava banho (eu sempre respondia que eram voluntárias) e se eu era virgem… E eu só acabei com a minha fictícia virgindade quando não dava mais para esconder a verdade, pois casei, mesmo assim, muitos tinham dúvidas! (risos).
Esse estigma da deficiência, seja de uma cadeira de rodas, de uma bengala, de um aparelho auditivo, seja o que for, faz com que sejamos “desconhecidos” e as pessoas acabam criando “o mundo do cego”, “o mundo do surdo”, menos um pouco, “o mundo do cadeirante”. Como se não sentássemos nas mesmas cadeiras, não comêssemos as mesmas comidas, não praticássemos as mesmas coisas… Fôssemos todos “espirituais”.
Certa vez uma garota na faculdade me disse que o legal de um cego é que nós víamos o caráter de uma mulher, sua espiritualidade, sua cultura, bondade etc… E ela ficou chocada quando eu disse que tudo isso era legal, mas que era melhor ainda quando vinha acompanhado de pernas grossas, seios médios, boca carnuda e um traseiro que não desse para apalpar de uma só vez.
As pessoas tiram a nossa sexualidade com uma facilidade incrível e ficam chocadas quando a mostramos. Portanto, lemos livros, assistimos televisão, temos carros, moramos em apartamentos alugados ou nossos, assinamos contratos e tantas coisas… Que até navegamos na internet quando deixam! (risos). Tinha de ter uma conclusão com acessibilidade web, né?
Abraços off topic do MAQ.”




