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Do outro lado… (9) Mensagens

Nelci Burtet - sexta-feira, 25 de junho de 2010 - 11:59

Então… vou encerrando minha epopéia por aqui. Por que no número 9? É que ele se tornou meio incógnita no capítulo 3.  E como nossa vida é incerta e não sabida no instante que virá, optei por esse número.

Inspirada numa frase de Chico Xavier que li em algum lugar por esses dias, “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”, permito-me mandar algumas mensagens a pessoas que estão envolvidas em situações semelhantes às que descrevi:

FILHOS: vocês, até que não tiverem os seus, terão muita dificuldade em entender a preocupação e o zelo de vossos pais. Por isso, afrontá-los ou julgá-los por esta dedicação, pelo comportamento protetor, ou até pelo desespero de não poder controlar uma situação, será uma grande injustiça.

MÃES: os sonhos que vocês sonham para seus filhos, às vezes acontecem por caminhos de pedras e espinhos. Não se preocupem: mãe tem força para suportar e dar vida à sua cria quantas vezes precisar. Tenham certeza de que os filhos jamais querem magoar conscientemente sua mãe. Se isso acontecer, ele não pesou racionalmente as consequências, talvez por falta de experiência. O importante é que, caso aconteça algo que a machuque, não fique remexendo muito na ferida, porque aí ela nunca vai cicatrizar.

CADEIRANTES: aconteceu? Vamos juntar o que sobrou e “viver a vida”. Lamentar, culpar e reclamar só vai trazer mais decepção e revolta. Apesar de tudo, você é quem vai ter que conduzir a situação. De sua atitude guerreira, otimista e desbravadora depende o bem estar das pessoas que estão ao seu redor. Porque elas também se abalam.

Para todos, repito o que disse José Saramago:

“Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta”.

E eu acrescento: “bom é que também trabalhemos”.

E a vida continua …

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Agradecimentos:

  • Eduardo, Bianca, Cris e Nickolas: pela permissão de usar o blog Mão na Roda.
  • Nickolas: pelo apoio, correções e ilustrações.
  • Comentaristas: pelo incentivo e colaboração.
  • Leitores: pelo interesse e paciência.

Foi muito bom estar com todos vocês!

Obrigada!

Nelci Burtet

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Nota do Nickolas:

Nessas últimas 9 semanas vi se passarem 16 anos da minha vida de uma forma emocionante. Ler a minha própria história vista com outros olhos só fez aumentar a importância das pessoas que estiveram ao meu lado. À minha família, minha gratidão eterna. À minha mãe, todo meu carinho para compensar os sustos e as surpresas que vieram (e os que ainda virão) e sua incomensurável dedicação.

Em nome de todos os que leram, o nosso agradecimento por compartilhar essa rica experiência. Que sirva de inspiração para todos e que traga motivação e exemplo para os que passam pelo mesmo desafio.

Clique aqui para ver os outros capítulos da história “Do outro lado…”

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Do outro lado… (8) Concretizando

Nelci Burtet - sexta-feira, 18 de junho de 2010 - 08:59

Depois de ler todos os outros capítulos, o leitor pode estar se perguntando:

- Pô, será que essa mulher nunca se abalou com a situação? Poucas vezes ela falou de emoção, e parece que só foram alegrias. Será que nunca bateu nela, nesse tempo todo, um desânimo, uma depressão, uma recaída lá nas famosas fases do capítulo 4?

Eu respondo:

- Claro que sim!!!

Lembro que uma vez até agi de forma irresponsável. Eu era professora de uma escola, amava dar aula de História, e de um dia pra outro falei pra diretora que não ia aparecer mais por lá. Me mandei da cidade e só voltei uma semana depois. Fui pedir desculpas, mas não voltei a dar aula. O problema não estava na recuperação do Nickolas, que nessa altura já tinha voltado a morar em Curitiba, estava formado, “se virando nos 30″ e se preparando para o concurso da empresa em que ele trabalha hoje. Creio que as tensões vividas no dia a dia vão minando a resistência e uma hora elas explodem. Ou nos afogam. Porque somos racionais e emocionais. Então, apesar de nos acharmos uma fortaleza, temos que reconhecer que precisamos de ajuda.

A psicoterapia faz muito bem. Tem pessoas que pensam que psicólogo é só para os “loquinhos”. É nada! Com o mundo do jeito que está, acho que esta é a profissão de tratamento humano do futuro. Você vai lá, joga pra fora os “bichos” que estão te incomodando, o profissional ouve, de vez em quando faz um comentário, mas na verdade é você que está se ouvindo, é você que começa a concluir que o equilíbrio está dentro de si mesmo e nas atitudes que só o tempo o fará tomar. Foi quase um ano pra chegar a esse nível. Mas cheguei!

Aí, como a maratona tem que continuar, Nickolas foi aprovado no tal concurso, há 8 anos atrás. Só que ele teria que trabalhar na cidade do Rio de Janeiro. Pensa bem… ele já estava a 600 km de onde eu morava. Para o RJ eram mais uns 900 Km, que somados davam 1.500 Km. Longe demais, e ainda por cima a violência da cidade era divulgada constantemente pela mídia. Hesitei muito. Mas ele, com aquela persuasão vampiresca, falava:

- Mãe, você não vai querer que eu fique em casa esperando a morte chegar, né?

Foi meu quarto parto, mas acabei aceitando. E ele foi…

Susto mesmo ele só me deu uma vez, que eu saiba. Ligaram de manhã, que ele estava no CTI de um hospital da zona norte com problema intestinal (vulgo nó nas tripas). Por acaso eu estava em Curitiba naquele dia. Caí da cama e fui direto pro aereoporto. Sabe aquele drama de mãe que o filho tá no CTI, tá mal, pode ser que tenha que fazer ciurgia…??? Nessas horas você encontra pessoas com sensibilidade e consegui embarcar no primeiro avião, direto pro Rio. Com o tratamento o problema foi resolvido, sem cirurgia. Muito bom.

Numa visita que fiz no trabalho do Nickolas, percebi que a tal visão de corredor que eu tinha, com portas, nome escrito na plaquinha, que citei no capítulo 1 e não sabia o final, agora estava se concretizando: saí do elevador, andei por uns labirintos de salas, e… achei o canto dele com o nome escrito. Uh, uh, então era isso! O final era ali. Creio que foi um final feliz, porque acredito que o Nickolas está profissionalmente realizado.

Por falar em feliz,  quando ele estava entre o céu e a terra, sempre pedi pra que ele só ficasse aqui se fosse para ser feliz. Por isso, já perguntei a ele: Nickolas, você é feliz?

Na próxima semana, não percam o último capítulo da história!!!

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Do outro lado… (2) Ayrton Senna

Nelci Burtet - sábado, 8 de maio de 2010 - 16:46

Depois dos primeiros socorros prestados no hospital da cidade onde aconteceu o acidente, Nickolas precisava ser removido para Curitiba, mas com o edema cerebral ficava difícil.

Amigos e parentes chegavam para fazer companhia e dar apoio. Ainda não acreditava no que estava acontecendo. Na hora do choque, o pensamento que nos vem à cabeça é “daqui a pouco isso tudo vai terminar”. Na verdade, a esperança de um milagre é o que nos sustenta. O mundo lá fora continuava e outra tragédia, agora de nível mundial, ceifou a vida do ídolo Ayrton Senna. Era o ídolo do Nickolas também. Comecei a pensar na dor da mãe dele: seria a mesma que eu estava sentindo e vivendo? Acho que era maior, porque ela não tinha mais nenhuma esperança e meu filho ainda respirava. Naquele dia eu até escrevi uma carta pra ela, que nunca mandei e ainda está comigo:

“Mãe NEIDE,

Sei da tristeza de todo o Brasil pela perda do ídolo que orgulhou nosso país. Mas a maior dor, com certeza, é aquela que estamos partilhando: você, pela separação definitiva de seu filho; eu, pela angústia de saber que o meu filho, de 18 anos, está lutando numa UTI para viver. Tenho esperança de que se recupere pois o entreguei a Deus e a todos os que puderem fazer algo para devolvê-lo a mim. Ayrton não teve essa chance, mas pedi também a ele que ajude, lá do alto, alguém que torcia por ele e que agora precisa de sua força. Mãe Neide, console-se em mim, que também sofro, e ore por ele, que estarei orando pelo Ayrton, para que ele esteja num lugar feliz.”

Era preciso esperar…

Aliás, numa situação como essa, a única coisa que se tem a fazer é esperar. A paciência que nunca tivemos se impõe sobre nossa vontade e não há nada que apresse qualquer solução. No primeiro momento, o que a gente quer é que a pessoa esteja viva. Só depois, com o tempo, ficarão evidentes os maiores desafios que a nova situação impõe…

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Do outro lado… (1) Big Bang!!!

Nelci Burtet - sexta-feira, 30 de abril de 2010 - 21:50

30/04/1994, exatamente 16 anos atrás - pô, só agora me dei conta que foi no século passado – 6 horas da manhã toca o telefone:

- triiiimmm …..
- É da casa dos pais do Nickolas?
- É a mãe dele. O que aconteceu? -
mãe tem sexto sentido, já sabia que vinha bomba.
- É que aconteceu um acidente com o carro que ele estava, mas não machucou quase nada e ele já está num bom hospital.

É SEMPRE ASSIM: DIZEM QUE NÃO FOI QUASE NADA.

Nickolas havia completado 18 anos no dia 27/04 e vindo para a casa da família, no interior do PR, no final de semana anterior. Ele estudava em Curitiba e tinha iniciado o curso de Engenharia Civil na UFPR. Naqueles dias, tinha ido com o pai para o sítio e estava filmando a vacinação do gado, quando uma vaca ligou o “efeito ventilador” e… pof… arremessou um projétil direto na filmadora. Ele reclamou e disse que não gostava de fazer aquilo. Foi a última vez mesmo, porque subir na mangueira do gado não dá mais, né?

Voltando… nesse final de semana fatídico (mas nem tanto), tinha ido com o amigo com quem morava para a casa dos pais dele, em outra cidade do interior do PR. Saíram para dar uma volta de carro (era uma Parati), ele no banco de trás, SEM CINTO, capotou e voou. Aí danou-se…

Nossa viagem até o hospital durou horas, nem me lembro. Cheguei, só perguntei se o Nickolas estava internado lá e, mesmo sem conhecer o hospital, fui subindo rampa, cruzando corredores com portas e mais portas. Parecia que já conhecia tudo aquilo, pois sempre tive “visões” de que encontraria meu filho após andar por um corredor com muitas portas, e em alguma delas veria o seu nome. E não é que na UTI, no suporte do soro, estava lá o nome dele escrito em letras grandes? O pior é que eu não via como seria o final (guarde isso, que vou voltar ao assunto).

Ele estava inconsciente, mas eu sabia muito bem o que estava acontecendo. E queria acreditar: “essa bomba não vai detornar!” O pior é que detonou.

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Do outro lado… (introdução)

Nelci Burtet - quinta-feira, 29 de abril de 2010 - 09:46

Engraçado… As pessoas se comovem assim que vêem um cadeirante, mas poucos se preocupam em pensar: “o que sente quem está do outro lado da cadeira de rodas?” Com certeza lá estarão pessoas que amam muito quem está sentado, que também levaram um susto quando a lesão aconteceu, e que tiveram de passar por um processo de adaptação, sem dó e nem piedade.

Mãe por exemplo: tem um filho lindo, com recém completados 18 anos, forte porque foi amamentado até um ano e três meses, inteligente (foi o orador da turma do prezinho), aprovado de primeira no vestibular, e blá, blá, blá… De repente…

Por isso, como mãe de um cadeirante, resolvi escrever minhas experiências. Quem sabe sirvam para outras mães entenderem que a superação é mais ou menos a mesma na maioria dos casos. Sou uma mãe revoltada? Não, não, não… Meu filho ficou melhor depois de tudo isso, mais querido, mais próximo, vitorioso e hoje posso dizer que sou muito feliz.

E assim, com a permissão do pessoal do MÃO NA RODA, começo aqui a escrever a epopéia de Nickolas e sua turma. Toda semana haverá um novo episódio revelando mais experiências e emoções.

Não percam o primeiro capítulo: BIG BANG!!!

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