Joana Roquette - sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 - 18:01

No período de férias entre dezembro do ano passado e janeiro desse ano resolvi ir a Miami, acompanhada da minha mãe, para visitar minha irmã, que mora lá há alguns meses, e aproveitar para fazer uns passeios e algumas comprinhas “básicas” no paraíso comercial dos brasileiros.
Então, seguem aqui as minhas observações sobre a viagem, que talvez sejam úteis a quem deseja conhecer Miami/Orlando.
Vou limitar os meus comentários às cidades de Miami e Orlando (para onde também fui por alguns poucos dias), já que tive sérios problemas com a companhia aérea (TAM), o que talvez possa até render um post em separado, mas que deixaria a estória um tanto quanto confusa.

Cheguei a Miami de madrugada, no dia 23/12, e logo percebi que o aeroporto é perfeitamente adaptado para cadeirantes, como não poderia deixar de ser. Minha irmã conseguiu emprestado um carro de um amigo, tipo jipe, e recomendo, a quem puder, alugar um carro por lá, já que essa parece ser a melhor opção para se locomover na cidade, porque as distâncias são grandes, e, embora a frota de ônibus pareça 100% acessível, os ônibus de lá são extremamentes lentos. Certamente há locadoras que alugam carros adaptados na Flórida e adianto que praticamente todos os carros hoje comercializados nos EUA são automáticos.
Usei uma única vez o ônibus, cuja passagem é gratuita para deficientes, e fiquei muito bem impressionada com o sistema de adaptação utilizado por eles, muito mais simples e provavelmente menos oneroso que o utilizado no Brasil. Se trata de uma rampa que fica “escondida” no assoalho do ônibus e que o motorista aciona quando necessário, com a porta do ônibus aberta. A inclinação da rampa é bem suave e permite a entrada da cadeira com grande facilidade. Além disso, o motorista se encarrega de prender as quatro rodas da cadeira ao chão, com cintos próprios, o que garante maior segurança no trajeto. Como eu havia dito, os ônibus são bem lentos por lá. Assim, para percorrer uma distância de cerca de 10 kms (aproximadamente 22 quadras), demoramos cerca de 30 minutos. É uma boa alternativa de transporte, é claro, mas tudo depende do tempo do qual você dispõe para ir e vir dos lugares que deseja visitar.

Também usei o que lá eles chamam de Metromover (eu apelidei de “trenzinho”), que é como um mini metrô ao ar livre, gratuito para qualquer pessoa. A entrada no Metromover também é bem tranquila e o vão entre a superfície e o assoalho não passa de uns 10 a 15 centímetros, perfeitamente viável pra quem está acostumado com o metrô do Rio, por exemplo. Pena que o Metromover cubra poucas estações em Miami e não permita um tour por toda a cidade, mas já quebra um galho, dependendo do lugar onde a pessoa se hospede. Não cheguei a utilizar o metrô propriamente dito, pela facilidade que tinha de usar o carro que minha irmã pegou emprestado, mas acho que a mesma preocupação com a acessibilidade/infraestrutura que eles têm em relação aos ônibus e ao Metromover, eles devem ter também com o metrô convencional (Nota do Eduardo: Sim, todas as estações do metrô são acessíveis!)
Sobre as calçadas e meio-fios, não há do que reclamar. Não vi um lugar sequer em que não houvesse rampa adequada para a subida e descida da cadeira. E ainda que em certas esquinas não existam sinais de trânsito, os motoristas educadamente param para ceder passagem aos pedestres, como deveria acontecer em qualquer parte do mundo…
Em termos de acessibilidade, portanto, achei que tanto Miami quanto Orlando vão muito bem, embora Orlando seja uma cidade um pouco diferente do que estamos acostumados por aqui. As avenidas que cortam a cidade são imensamente largas, o que pode tornar um pouco mais complicada a vida do cadeirante, já que para atrevessar uma dessas avenidas é necessária uma boa dose de paciência entre os sinais que fecham e abrem a todo tempo.

Aliás, em Orlando quase não se vêem pedestres nas ruas, é como é na Barra (pra quem mora no Rio, fica fácil visualizar). Por isso, lá é muito recomendável o aluguel de um carro, mais do que em Miami, apesar de a infraestrutura permitir a locomoção de cadeirantes pelas calçadas e meios de transportes.
Fiquei em um hotel em Orlando, chamado Deluxe Extended Stay Lake Buena Vista, em um quarto adaptado para pessoas com deficiência. É um pequeno apartamento com equipamentos de cozinha e mobiliado, mais indicado até para hospedagens por longos períodos de tempo. O banheiro da suíte é bastante grande e no box (com banheira) há um banco para o qual se faz a passagem para o banho. Não achei a banheira muito apropriada para fazer a passagem, mas como eu já havia comprado uma cadeira de banho própria para banheiras, não tive grandes problemas. Fica a dica para quem pensa em comprar uma “cadeira de banho” dessas, bastante útil para esses casos. A cadeira parece mais um banco longo, em que duas pernas ficam na parte de dentro da banheira e as outras duas na parte de fora (com ventosas nas quatro) e é desmontável. Comprei nos EUA mesmo e não sei se existe no Brasil para vender. De qualquer forma, aí segue o link para quem se interessar: http://www.1800wheelchair.com/asp/view-product.asp?product_id=1070
O outro lado da viagem, não tão agradável, segue em outro post…
Nota do Mão na Roda: a Joana tirou até foto de um provador de roupas acessível, ainda raro aqui no Brasil! Luciana da novela Viver a Vida que o diga.
Cris Costa - terça-feira, 22 de setembro de 2009 - 09:04
Esses homens loucos e seus transportes acessíveis. Em Miami o que mais tem é opção de transporte acessível. Incrível, né? Mas se soubesse como seria, teria alugado um carro. Pelo que vi da cidade, muitas coisas ficam distantes. Pra quem vai ficar mais de 2 dias e estiver disposto a passear bastante, vale a pena. Não só é fácil alugar um carro adaptado, como você ainda aluga com GPS (alguns lugares tem GPS em português), aí fica molinho de circular pela cidade. Só vale ficar atento aos limites de velocidade, pois em muitos lugares o limite é de 30milhas/h (uns 50km/h). Mas com certeza é mais barato do que ficar zanzando de taxi. Até porque tem uns taxistas que parecem ter saído de uma sessão de vodu. Algumas vezes rezei por minha vida, para não ser raptada e ter meus órgãos vendidos. Neuroses de quem viaja sozinha à parte, sinceramente, acho o aluguel de carro uma ótima opção. Se não, a melhor. Veja apenas com o Hotel o quanto eles cobram pela diária do estacionamento.
Ah, mas lá não tem ônibus adaptado??? Tem sim. Todos naquele estilo de ônibus que abaixa e desce uma rampinha. Tudo bem simples, sem manutenção cara e que não quebra. O problema dos ônibus é que são poucos, não passam por muitos lugares interessantes (só alguns shoppings) e passam de 30 em 30 minutos. Alguns tem um intervalo menor, de 15 minutos, mas não circulam por todas as ruas. Não achei uma opção muito interessante.

E tem os taxis. Muitos deles. Mas se essa for a sua escolha, se prepare para se deparar com os motoristas mais bizarros que já viu na sua vida: desde cubanos usando chapéu Panamá e escutando música dos anos 50, passando por brasileiros te oferecendo muamba, ou sexagenários maconheiros, até os voduzeiros que já mencionei acima, os quais não faço a menor idéia de onde vem. Não entendia uma palavra do que diziam. Além de enfrentar essas figuras, prepare-se para gastar. Nada em Miami é perto. É capaz de gastar U$ 80,00 dólares (ida e volta) só pra ir a um shopping. Depende de onde está hospedado, claro. E tem muitos taxis adaptados. Tipo uma mini-van, no qual você entra no carro por trás (uiiii) sem precisar sair da cadeira. Eu achei bem legal, sempre que podia, pedia um desses, não é difícil de conseguir. Certifique-se apenas de que o taxista sabe pra que serve aquela mala grande, vazia e com uma rampa no meio. Peguei um daqueles vodus que não fazia a menooooooor idéia do que fazer, nem onde encaixar os ganchos pra segurar a cadeira. Uó! Sinceramente, vale pensar com carinho na possibilidade de alugar um carro.
E claro, Miami é um bom lugar para se passear pelas ruas. Principalmente em South Beach. É bem acessível, rampas por todos os lados, tudo bastante convidativo a um passeio ao ar livre. Tanto pelas avenidas quanto pela orla.
Cris Costa - segunda-feira, 21 de setembro de 2009 - 09:46
Miami é uma cidade bem legal, principalmente pra quem quiser fazer umas comprinhas. Mas o mais importante: pra quem é marinheira de primeira viagem solo, como eu, é extremamente acessível e fácil de andar sozinha. Não achei muitas atrações na cidade, mas dá pra fazer bastante coisa. Meu programa favorito ficou sendo passear em uma rua chamada Lincoln Road. Uma parte dela é fechada para carros, então você tem uns 4 ou 5 quarteirões pra circular tranquilamente. Tem muitas lojas famosas (Gap, Banana Republic, Oakley, entre outras), além de charmosos restaurantes e bares. À noite você encontra algumas boates bastante badaladas. Pra quem ficar hospedado em South Beach, vale a pena passear por lá.

Ainda na linha das comprinhas, tem alguns Shoppings como o Aventura Mall e o Ball Harbour Shops. Esse último, pelo menos no meu caso, é só pra visitar mesmo. Lá estão as lojas das grifes mais caras do planeta, mas vale um passeiozinho. Quem sabe você não esbarra com alguma celebridade por ali?
Pra quem gosta de Outlets, tem dois: O Dolphin Mall e o SawGrass. São bem legais, mas um pouco distantes. Pra quem for pegar um taxi, prepare-se para desembolsar uma boa grana pra chegar até eles. Também tem o Bayside Mall , mas me desaconselharam ir lá, pois tem muito batedor de carteira. Preferi não arriscar, e não fui. E um passeio que também vale fazer é ir à famosa rua Ocean Drive, que fica de frente para a praia, e tomar uma bebidinha no News Café.
Para quem gosta de atrações com animais, tem o Seaquarium, com shows de golfinhos e baleia. E se você desembolsar U$ 200,00, pode nadar com os golfinhos. Confesso que achei meio caidinho o local, mas até que valeu. Só fica ruim pra tirar fotos, pois a cadeira fica na altura do vidro, e não acima como o resto da platéia. Aí, as fotos saem assim ó:

Ah, sim e o tempo de você bater a foto é inversamente proporcional ao tempo que os bichinhos pulam. Resultado: Muita água nas fotos e pouco golfinho.
Se esses lugares todos são acessíveis? Em Miami existe uma coisa incrível: lei de acessibilidade que funciona. Demorei a entender esse conceito, mas isso é assunto para outro post. Andei tranqüila pelas ruas da cidade. Claro que não é perfeito, algumas calçadas são um pouco inclinadas, mas só. Nem com as rampas eu tive problema. E quando achava que estava cansada e não ia ter força, pedia uma ajudazinha e ficava tudo bem. Ah sim, e os banheiros adaptados? Até os restaurantes que ficam dentro dos shopping são obrigados a tê-los. Ninguém passa aperto por ali.
Uma dica importante: leve um dicionário básico de espanhol. En la ciudad de Miami, no se abla português ou english. Es todo cucaracho.
Links Uteis:
http://www.aventuramall.com/
http://www.miamiseaquarium.com/
http://www.balharbourshops.com/
http://www.newscafe.com/
Cris Costa - sábado, 19 de setembro de 2009 - 09:01
Pois é, achei que era hora de me testar (coisa de gente doida mesmo, devo ter resolvido isso durante uma crise de TPM) e viajar sozinha. Hora de conhecer meus limites. Tudo bem, ano passado viajei pra Salvador sozinha, mas infelizmente, a cidade não é muito acessível e não pude fazer muita coisa, apesar de ser uma cidade linda. Mas dessa vez queria ir um “pouquinho” mais longe e para um lugar onde soubesse que poderia andar tranquila e não ficar preocupada com acessibilidade. Nem pensei muito. Por questões de tempo de vôo, “tempo” ($$$) e idioma, lá fui eu pra Miami, a cidade mais cucaracha do mundo. Como seria apenas uma semana, achei que era melhor ficar só pela cidade mesmo, e deixar pra ver o Mickey numa próxima oportunidade. Foi muito bom poder fazer o que eu quisesse, na hora que quisesse e se quisesse. Sem culpa. A viagem era toda minha!
Foi tudo muito tranquilo, desde o vôo, o hotel até os passeios. Só a volta que foi um pouquinho estressante, mas nada de mais. Sei que já falei disso aqui antes, mas vou repetir: a gente nunca sabe o nosso limite. Nunca achei que fosse chegar numa cidade sozinha e sair zanzando, olhando tudo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ok, num lugar acessível isso é fácil de fazer, mas conheço muita gente que não tem problemas de mobilidade e que não colocaria o nariz pra fora do hotel se não estivesse acompanhada. Pois bem, lá fui eu, feliz e saltitante peruar por South Beach.
Ao mesmo tempo que ficava feliz por poder andar pelas ruas tranquila, me batia uma tristeza de não ter as mesmas facilidades na minha própria cidade. Tristeza e vergonha. Quando perguntava por lá, se algum lugar tinha acesso, e me respondiam “Claro que sim, é a lei. Tem que ter. Vai tranqüila”, não entendia o que aquilo queria dizer, e ainda me espantava quando chegava ao local e descobria que realmente tinha acesso por todos os lados. Doido não? Mas era assim mesmo. As vagas marcadas para deficientes são respeitadas. Tudo bem que sob a pena de uma multa de U$ 250,00. Era uma sensação estranha ter tanta liberdade e a tranqüilidade de saber que não ia ter problemas. Uma pena que aqui as coisas sejam tão diferentes.
Foi uma experiência de independência única, e com certeza muito importante. Já tô matutando minha próxima viagem. Muitos se espantaram por eu ter "coragem" de viajar sozinha. Não vejo desssa forma. É muito fácil viajar pra uma cidade acessível. Difícil é morar no Rio de Janeiro.