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Órteses e adaptações para o dia-a-dia

Christian Matsuy - quarta-feira, 5 de maio de 2010 - 15:08

Um dia desses estava eu conversando com o Eduardo e do nada ele me pergunta:

- “Christian, a Bianca está perguntando como você mexe o mouse. Você usa aqueles do tipo trackball*!?”
- Eu respondo: – “Não, eu utilizo um modelo bem básico de mouse sem aqueles formatos anatómicos e me viro muito bem!”

*Trackball é esse dispositivo que a esfera fica virada pra cima e tem um tamanho maior, veja a foto abaixo:

imagem de um mouse trackball

Trackball: esfera virada para cima e botões grandes facilitam uso

Deixem-me explicar melhor, pois você também pode estar se perguntando o que tem de errado em movimentar um mouse. Eu sou um tetra “alto” (lesão C4/C5), o que me tirou os movimentos das mãos e punhos. Devido a isso, são necessárias algumas adaptações (nada de absurdo no meu caso) para se utilizar um mouse e teclado e obter um bom rendimento.

É claro que eu não tenho a destreza de uma pessoa com movimentos totais de punho e mãos, mas acho meu desempenho bastante acima do normal e me permito até jogar online de vez em quando. Nos primórdios da informática, os mouses não eram nada ergonômicos. Eram peças bem retangulares e sem nenhuma curvatura, mas com o tempo eles foram se moldando cada vez mais às palmas das mãos, e aí eu comecei a sofrer. Percebendo isso, consegui comprar 4 unidades do modelo com que mais me adaptei e usei por cerca de 10 anos.

Mouse antigo: formato retangular

Mas a tecnologia vai mudando e os mouses foram ficando velhos. Dos quatro, consegui reformar e fazer dois, até que não deu mais para continuar. Chegara a hora de eu me adaptar com um modelo de mouse que estivesse em linha. Após inúmeras visitas em lojas de informática e sites na internet, encontrei um modelo que me propicia um bom desempenho. Uma outra coisa importante é deixar os objetos em posições estratégicas, assim estarão sempre ao seu alcance com deslocamento mínimo das mãos e braços.

O mouse é deslocado apenas com o peso da mão

Atualmente existem equipamentos de tecnologia assistiva que solucionam muitos casos (a mocinha da novela usa vários deles), mas na época em que sofri a lesão, não havia nem sombra desses equipamentos. Então o que pode ser feito foi adaptar o que existia. Mais uma vez, as terapeutas ocupacionais (T.Os) colocaram a mão na massa.

Em se falando de teclados,  também foi a mesma coisa. Apesar deles apresentarem uma vida útil bem maior, fui fazendo testes com vários modelos. Essa parte deu menos trabalho, e a dica é tentar encontrar no mercado um teclado que tenha pressão de toque compatível com a sua força, além de bom espaçamento e tamanho das teclas. Teclas de atalho, que minimizam o uso do mouse, também são uma boa característica.

Para a digitação e também para apertar botões de todos os tipos, utilizo uma órtese com  ponteira. Realmente, hoje eu não sei o que seria de mim sem ela, pois me permite fazer muitas coisas. Depois de diversos testes, cheguei à conclusão de que a melhor ponteira para meu caso é um lápis novo (sem apontar) e uma dessas borrachinhas que se usam na extremidade do lápis. Testei esses lápis que já vem com a borracha embutida, mas elas duram pouco e esfarelam um bocado. Notem que minha ponteira pode ser adquirida em qualquer papelaria, ou seja, se por acidente esse lápis quebrar,  sumir (sim, já aconteceu), ou a borracha gastar, é fácil comprar outra. As T.Os costumar fazer essas ponteiras, na maioria das vezes, com um material moldável termoplástico ou alumínio que você não vai achar na papelaria da esquina.

Órtese e ponteira utillizada para digitação

Já a órtese, foi fabricada na oficina da AACD e me custou 40 reais. Se eu precisar trocar as tiras de couro ou o velcro, eles cobram em média 20 reais. Existem outros modelos tipo luva, mas essa barra estabilizadora foi a com que mais me adaptei e tenho um desempenho superior a 80 toques por minuto.

A ponteira também serve para usar o celular

Outra utilização da ponteira: controles remotos

Essa mesma órtese pode ser utilizada para alimentação, trocando a ponteira por um garfo ou colher com cabo redondo. Em último caso, entorte o cabo.

Ponteira sendo usada para digitar no teclado

Ponteira sendo usada com um telefone de teclas

Gravei esse pequeno vídeo para demonstrar melhor como a órtese funciona:

É complicado também encontrarmos soluções prontas que atendam a todos, haja visto que cada deficiência requer um tipo de adaptação de acordo com o grau de força e mobilidade de cada pessoa. O que pode ser ótimo pra mim, pode ser péssimo pra você. É nisso que as T.Os são especialistas e elas tentam deixar a adaptação o mais adequada e personalizada possível para cada pessoa.

Por último, uma dica para quem utiliza qualquer sistema Windows®: se você pressionar cinco vezes a tecla SHIFT, é habilitado um recurso de acessibilidade importantíssimo para pessoas que só conseguem digitar uma tecla por vez. Esse recurso trava as teclas Shift, Alt e Ctrl até o próximo toque. Um exemplo: Para digitar o sinal de @ teoricamente precisaríamos manter o SHIFT pressionado e teclar o 2. Com o recurso habilitado, você tecla SHIFT, solta, pressiona o 2 e pronto! Uma de cada vez! Se precisar desabilitar o recurso, basta pressionar Ctrl e Alt juntos. Como elas são coladinhas uma sobre a outra, basta dar uma “dedada” mais nervosa que vai! Aparecerá perto do relógio do Windows um símbolo indicando o status da tecla pressionada e um bip sonoro é emitido a cada utilização.

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Luciana, por favor, continue tetraplégica!

Eduardo Camara - quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 - 11:07

Foto da Luciana, personagem de viver a vida

Não costumo assistir novela, mas não podia deixar de ver como a personagem tetraplégica de Viver a Vida está sendo retratada. Poxa, me surpreendi muito!

Tudo bem que as coisas estão meio aceleradas na reabilitação da personagem, mas até dá para entender,
né? Seria difícil conseguir ajustar o tempo da novela com o de uma reabilitação que dura, no mínimo,  alguns meses.

Mas só pelos detalhes que estão sendo mostrados já no hospital, acho que vem coisa boa por aí. Ainda é cedo, mas seguindo a linha atual, creio que finalmente vão mostrar em uma novela das 8 o que realmente acontece após uma lesão medular séria, coisa que até agora só foi feita em Malhação (Sim! A novelinha já teve até mais de um personagem cadeirante) e também em História de Amor, uma novela das 6 onde o personagem de Nuno Leal Maia ficou paraplégico.

Tanto em Malhação como em História de Amor, os personagens cadeirantes conseguiram se reabilitar (o que não significa voltar a andar) e, depois de enfrentar uma série de problemas do cotidiano e da reabilitação, continuaram a “viver a vida” (não pude evitar o trocadilho!). Não eram personagens protagonistas e nem estavam no horário nobre, então é provável que vocês nem se lembrem deles. Agora, na novela das 8, a oportunidade é única!

A novela pode mostrar a dureza da reabilitação sem pieguice, pode levantar a bandeira da acessibilidade e também mostrar que muitas vezes a dificuldade na adaptação à nova condição de vida está mais no convívio com as outras pessoas do que na deficiência em si.

Claro que se fosse a vida real eu torceria para Luciana volta a andar. Mas ao contrário de muita gente que assiste a novela, torço para que a personagem Luciana, interpretada por Alinne Moraes, continue tetraplégica.

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