Vagas pra quem?
Cris Costa - terça-feira, 23 de agosto de 2011 - 09:32
Outro dia recebemos um email de um leitor mostrando uma situação inusitada em um shopping onde um carro parou atravessado em frente vaga de deficientes travando os carros que estavam estacionados nas vagas. Daí veio uma discussão entre nós sobre as vagas marcadas. O Nick já falou sobre o assunto, mas como é algo que atormenta constantemente a alma dos cadeirantes resolvi falar mais um pouco sobre o assunto.
Sabemos que muitos shoppings são uma zona mesmo e não ligam se as vagas são respeitadas ou não. Pra que né? Dá trabalho, o cliente que parar ali inadequadamente vai reclamar, situação chata, então deixa. Mas alguns shoppings estão adotando uma estratégia bem interessante de colocar as vagas reservadas junto a área VIP, mas cobrando o preço normal. Esquema que ajuda e muito a evitar os caras de pau. Nisso me lembrei que fui ao Shopping Leblon e lá no andar onde ficam as vagas marcadas fica um moço “cuidando” para que não sejam mal usadas. Achei bacana. Mas porém, ah porém… Quando fui estacionar, logo depois veio um carro com um casal e uma criança de uns 6 anos e estacionaram na vaga marcada. Fiquei sem entender nada.
Como sempre, não me agüentei e perguntei pro moço:
- Moço, assim… não vi nada de “incomum” naquela família, por que eles pararam aqui?
- Ah porque o shopping também permite que famílias com crianças parem nessas vagas.
- Mas moço, eles podem parar em qualquer lugar, um cadeirante não…
- Ah, mas deficiente tem prioridade, fica tranqüila!
- Mas moço, tem muito mais famílias com crianças no shopping do que cadeirantes, se chegarem cinco famílias e pararem nas vagas e ficarem todas ocupadas e depois chegar um cadeirante? Como fica a prioridade?
- (cri… cri… criii)
Pois é meu povo, comofaz? Com tantas exceções aparecendo, todo mundo pode, todo mundo tem direito e quem realmente precisa, como fica? A vaga marcada é mais larga por um motivo simples: espaço. E não é porque cadeirantes são gordinhos. Pra entrar no carro com a cadeira, esse espaço se faz NECESSÁRIO. Pensem: As vagas comuns são mega espremidas. Quem nunca teve que se contorcer pra conseguir sair do carro pois a porta mal abre? Então tenta fazer isso com uma cadeira de rodas. Inviável, né?
Sei que é praticamente impossível conscientizar as pessoas disso. Já disse algum “ólogo” (Freud? Foucault? Raulzito?) que a única forma de conscientizar as pessoas é fazer com que elas vivenciem o problema. “Temo” ferrado, né? Como fazer alguém querer vivenciar uma bagaça dessas? Já que não tem como, vou apelar pra imaginação e tentar algumas associações:
A situação real é: você é cadeirante, chega no shopping todo disposto a se divertir e fazer umas compritchas. Chega no estacionamento, se dirige pra onde tem as vagas reservadas, chega lá, pimba: tudo ocupado. Você olha e vê que a maioria dos carros não é pra quem precisa e ainda vê uma dondoca saindo de sua SVU sem a menor cerimônia.
Então…
Pense, você comeu aquela “maonese” estragada e um prato inteiro de toucinho. Bateu aquela cólica fenomenal e você sai correndo procurando um banheiro. Teoricamente não tem outro lugar que você possa resolver o tsunami que está prestes a acontecer. Chegando no banheiro, o que acontece? Todas as cabines estão ocupadas. Supondo que vc tenha visão raio-x, você nota que as pessoas que estão na cabine estão: escovando os dentes, lendo um livro, falando no celular. E você, que precisa do troninho fica na mão, sem poder usar o local que foi reservado para esse fim. Legal, né?
A sensação é mais ou menos essa. Você se sente completamente rendido, sem direito a resposta ou ação. A lei não é clara em relação as vagas, não existe punição e os shoppings preferem não se indispor com os clientes, então não se envolvem com a questão. E nem vou falar de consciência das pessoas porque ai já é demais, né? Por isso segue a briga (o que deveria ser direito) de quem realmente precisa com os manés, sem noção e com as novas exceções que aparecem a cada dia. Fico imaginando o dia em que pessoas que usam aparelho odontológico também vão precisar usar as vagas… Ô dó!







