Vivendo a vida
Nickolas Marcon - sexta-feira, 14 de maio de 2010 - 22:43
“Antes o que eu mais queria era levantar dessa cadeira, mas hoje eu quero fazer tantas outras coisas antes de voltar a andar…”
Personagem Luciana da novela ‘Viver a Vida’

Lateral Esquerda
Mande um email pra gente: maonarodablog
@gmail.com
Cadeirante, carioca, adora filmes trash e pedalar sua handbike
Andante, canta, dança e sapateia. Ainda não consegue empinar uma cadeira de rodas e se interessa por acessibilidade na web.
Cadeirante, festeira e atualmente descobrindo a desgraça que são as calçadas do Centro do Rio
Cadeirante, engenheiro civil, quer ser presidente do Brasil para fazer rampa em todo meio-fio
Cadeirante, paulistano bom gourmet e piloto profissional (de autorama)
Conteúdo Principal
Nickolas Marcon - sexta-feira, 14 de maio de 2010 - 22:43
“Antes o que eu mais queria era levantar dessa cadeira, mas hoje eu quero fazer tantas outras coisas antes de voltar a andar…”
Personagem Luciana da novela ‘Viver a Vida’
Bianca Marotta - quinta-feira, 6 de maio de 2010 - 13:55
Ontem me deparei com a seguinte mensagem de Flavia Cintra (@Flavia_Cintra_) no seu twitter:
“Que coisa “esquisita”! Faz alguns meses que ninguém me pergunta mais se a Luciana voltará a andar… O que será que aconteceu? ; )”
Fiquei feliz da vida quando li esse twitt. O que eu suspeitava realmente aconteceu: as pessoas conseguiram enxergar a pessoa Luciana além da sua cadeira de rodas.
Ano passado, quando soubemos que a nova novela das oito teria uma personagem tetraplégica, começamos a nos preparando para muitas cenas meladas e dramáticas, e nosso maior medo era o de que a personagem passasse por algum tratamento miraculoso no final da trama e voltasse a andar. Isso sim seria um prejuízo enorme para todos nós que brigamos por inclusão social e acessibilidade. Quando soubemos que Flavia Cintra estava encarregada em dar consultoria aos autores da novela e à atriz Alinne Moraes, ficamos mais tranqüilos. Mas ainda assim, cabreiros.
Por questões óbvias, passei a acompanhar a novela e a cada dia que passava me surpreendia mais com a maneira com que o assunto ia sendo abordado e a trama sendo desenvolvida. Sei que logo após o acidente da personagem, a maioria absoluta de espectadores queria que Luciana voltasse a andar. Mas com o desenrolar da novela, desconfiava de que esse desejo do público estava lentamente sendo deixado de lado. E com a mensagem deixada por Flavia no seu twitter, minhas suspeitas só se confirmaram. O que vemos agora são espectadores querendo que Luciana fique com Miguel, case, tenha filhos e seja feliz. Ou seja, de certa forma esqueceram que Luciana é tetraplégica, a deficiência deixou de ser “o” problema e o público conseguiu entender que é possível continuar vivendo a vida após uma lesão medular.
Não sou noveleira, não curto assistir novelas, é o tipo de narrativa que não me agrada muito, (prefiro seriados, hehehe), mas como co-autora de um blog que fala sobre cotidiano de pessoas com deficiência e inclusão social, só tenho a dizer que a novela tem contribuído e muito para que o tema seja levado ao grande público e perca a áurea de bicho de sete cabeças que sempre teve.
Tenho que dar o braço a torcer, os roteiristas de Viver a Vida e toda sua equipe fizeram um belo trabalho! Parabéns!
Cris Costa - terça-feira, 27 de abril de 2010 - 14:45
Antes tarde do que nunca, né? Tarde não só porque a novela está quase chegando ao fim, mas também porque a Luciana já mudou de cadeira e agora usa uma motorizada. Ao menos não é uma cadeira elétrica, rs. Mas não queria deixar de falar um pouquinho sobre a cadeira da personagem, mesmo que superficialmente.
Enfim, como muitos já sabem é uma M3, atualmente fabricada pela Ortobras. Acho ela bonitinha e infelizmente não vou pode opinar tecnicamente a respeito dela, porque meu conhecimento técnico é quase nulo e não tive a oportunidade de testá-la. Mas o Christian falou um pouquinho dela no post sobre a Reatech.
A M3 hoje é uma das melhores cadeiras nacionais (se não é a melhor). Ela tem um design bem moderninho e bacana e também possibilita alguns ajustes que outras cadeiras monobloco não permitem. O que é bom, pois com o tempo você poder sentir necessidade de mudar algo na cadeira, e na M3 algumas alterações são possíveis.
Seu modelo básico está custando em média R$ 3.400. Quem quiser uma igualzinha a da Luciana vai ter quer desembolsar mais uns R$ 250,00 pelo encosto rígido e outros R$ 2.500 pela rodas X-Core. Sim, as rodas da cadeira que a personagem usa são importadas, de fibra de carbono e custam essa “pechincha”. Mas quem não quiser desembolsar essa grana toda, tem como opção as rodas de liga leve (veja foto abaixo) que custam um pouco menos: R$ 1.200. Infelizmente não sei dizer se essas rodas de liga leve são boas e se não empenam faciltamente, mas pelo menos são um pouco mais baratas. Ah, a cadeira também tem opções de cores que aumentam um pouquinho mais o seu preço. No caso da Luciana, a cor é violeta e você pagaria mais R$ 80,00 por ela.
Ou seja, quem quiser a cadeira da Luciana vai ter que desembolsar a bagatela de R$ 6.230. Só chorando, né? Mas pra quem pode e não tem como importar uma, vale a pena. Entre as que temos por aqui, é o que há de melhor.
Mas, pra mim, a pergunta que não quer calar é: porque diabos ainda não desenvolveram um método mais eficaz que essa cordinha pra dobrar o encosto???
Obs: Os preços citados são uma estimativa, podendo variar para mais ou para menos dependendo da loja ou site.
Bianca Marotta - quinta-feira, 15 de abril de 2010 - 13:53
E aconteceu o tão esperado confronto entre as personagens Ingrid e Teresa na novela Viver a Vida*.
Confesso que a cena me decepcionou um bocado. Não pela atuação das duas, que considerei excelente. A hipocrisia e o preconceito de Ingrid me deixaram com muuuuita raiva. Ai, que vontade de pular no pescoço daquela mulher!
Parabéns para Natália do Valle que está interpretando muito bem essa mãe super protetora, controladora e alienada. Mas… eu esperava mais de Teresa. Em alguns momentos ela defendeu Luciana, mas quanto mais Ingrid falava, mais ela baixava a guarda. Não entendi quando ela disse: “Ninguém sabe se a Luciana vai voltar a andar” em resposta às acusações de Ingrid sobre a sexualidade dela. Como assim, Teresa? É esse seu argumento? Uma pessoa questiona a sexualidade da sua filha, só porque ela é cadeirante e você responde de forma a quase dar razão à preocupação dela?
Sinceramente, eu esperava mais. Esperava uma lição de moral na dona Ingrid, esperava mais esclarecimento de Teresa em relação à sexualidade da filha, esperava mais argumentos que desbancassem Ingrid e suas acusações sem embasamento. O capítulo terminou com Teresa calada e com uma expressão de derrota no rosto.
Só que eu tenho fé no Manoel Carlos. Até então ele e sua equipe vinham me surpreendendo com a maneira como estavam abordando o tema. E como em tudo que é novela o bandido leva uma lição, creio que aqui não será diferente. Vamos aguardar os próximos capítulos. Estou ansiosa!
* Pra quem não acompanha, Teresa é mãe de Luciana que ficou tetraplégica e Ingrid é mãe de Miguel, o atual namorado de Luciana. Ingrid é completamente contra o namoro dos dois e depois de ter dito isso com todas as letras para a cadeirante Luciana, teve que enfrentar a ira de sua mãe.
Bianca Marotta - quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 - 22:46
Mais uma vez a novela Viver a Vida nos dá material para escrever um post aqui. Que bom, né? Confesso que tenho ficado surpreendida com o andamento da trama.
Mas vamos ao que me motivou a escrever este texto. Pra quem não assistiu ao capítulo de hoje, Helena e Marcos resolvem fazer uma festa de boas vindas para Luciana, que acaba de se mudar pra casa amarela. Todos os amigos presentes, badalação total, coisa fina! Eis que me aparece, no meio da festa, outra cadeirante trazida pela médica Ellen. A cena em que as duas são apresentadas, me fez lembrar um assunto que já foi abordado aqui no blog.
Bem a tal da cadeirante convidada, Camila, chegou à festa acompanhada de seu namorado. O que já despertou certo espanto em Luciana. Tipo assim: “alou? Cadeirante namora???” Logo em seguida Camila conta que ela e o namorado acabaram de juntar trapinhos, ou seja, “casaram”. Espanto número dois. “Como assim??? Cadeirante casa??? Eu tenho esperanças???” Foi quase isso que a personagem Luciana disse em resposta.
Na mesma hora me lembrei de um post escrito pela Cris. É impressionante como as pessoas ainda se surpreendem com o fato de cadeirantes namorarem, casarem, terem filhos, enfim, viverem! Não estou criticando a cena da novela, acho que ela foi muito bem colocada, essa reação ocorre com mais freqüência do que se imagina.
E espero sinceramente, que a novela continue mostrando até o seu final como as pessoas continuam vivendo suas vidas, mesmo após uma lesão medular.
Ah! E leiam o post da Cris. É hilário.
Nickolas Marcon - quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 - 21:49
Essa tá quentinha: acabou de ser exibida a cena em que a Luciana, personagem cadeirante da novela “Viver a Vida”, tenta ir ao shopping comprar algumas roupas acompanhada pela mãe e uma amiga. Já na loja, ela se depara com uma situação vivida por todos: a dificuldade de se encontrar uma loja com provadores acessíveis. Como não consegue fazer a cadeira passar na porta do provador, desiste da compra. A atriz que representa a mãe dela completa: “vocês perderam 3 clientes”.
Depois dos comerciais, passa uma nova cena da personagem chegando numa loja que tinha provador acessível. Nem precisa dizer que saiu cheia de sacolas… :-)
Tomara que isso sirva de exemplo para que alguns arquitetos e designers de interiores melhorem a acessibilidade dos provadores das lojas…
Cris Costa - segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 - 12:53
Outro dia, lendo uma coluna de TV de um jornal, li que o item mais procurado pelos telespectadores na novela Viver a Vida é a cadeira de banho usada pela personagem Luciana. Aí, resolvi buscar, nos alfarrábios da minha memória, a cena da novela que mostrava a tal cadeira. Me lembrei que tinha achado a cadeira bonitinha, mas era o tipo de modelo que não me agrada, com as 4 rodinhas pequenas e com o assento como se fosse o tampo de um vaso sanitário. É questão de gosto mesmo, conheço muita gente que usa esse modelo e adora. Eu prefiro ter uma cadeira que fique fixa no chuveiro e com um assento mais estável, que facilita não só na hora da transferência, mas também durante o banho. Mas esta é apenas a humilde opinião desta que vos escreve.
Mas então, ontem estava procurando opções de cadeira de banho pela internet, e dei de cara com a tal cadeira da Luciana. Bom, pelo menos é muito parecida. A cadeira é fabricada com tubos de PVC que segundo o fabricante, Anthros Medical, é mais prático, leve, não enferruja e fácil de se lavar. Achei bem bacana a proposta, mas como já disse não é meu modelo preferido.
Tentei achar algum representante aqui no Brasil que venda a cadeira mas não achei. Nos sites americanos ela é vendida em média por U$ 220,00. Nem imagino o preço que cobrariam aqui por uma cadeira importada e usada pela Luciana!
Mas pra quem ficou curioso, segue o link do site do fabricante. É em inglês:http://www.anthrosmedical.com/
E pra quem não viu ou quer rever a cena, é só clicar no link abaixo. Aliás, a cena me lembrou do primeiro banho de chuveiro depois de algumas semanas tomando banho no leito. Sensação maravilhosa mesmo!!!
Bianca Marotta - terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 - 10:45
Flávia Cintra é consultora de inclusão e dá palestras em grandes empresas sobre os direitos das pessoas com deficiência. Ultimamente é mais conhecida por ser a pessoa que tem ajudado a atriz Alinne Moraes a interpretar, da forma mais real possível, a personagem Luciana da novela Viver a Vida.
Além de tudo isso, Flávia também é mãe de gêmeos e assim como nós tem um blog próprio. No seu blog, ela transcreveu uma entrevista, que achamos muito bacana e resolvemos reproduzir aqui também. Leiam e visitem o blog da Flávia!
. . .
A história da Luciana pode mudar vidas?
“Claro. Tem gente em casa achando que se a pessoa perde os movimentos, a vida acaba. E o pior: a família acredita. Começa a tratar a pessoa como inválida. Minha sorte é que, em 1991, quando sofri o acidente, na minha família ninguém nunca duvidou de que eu poderia, apesar das dificuldades, ter as minhas conquistas”.
Como você ficou tetraplégica?
“Foi num acidente de carro. Eu voltava com meu namorado de uma viagem pra Serra da Bocaina, um lugar lindo. Era feriado prolongado. Na estrada, depois de uma curva, tinha uma moto e um corpo no chão. Meu namorado foi desviar do corpo e acabou passando por cima da moto, perdeu o controle do carro e a gente capotou. Foi muito rápido e eu estava usando cinto de segurança – senão, não sei o que teria acontecido. Fui socorrida pela ambulância que vinha resgatar a vítima do acidente anterior. Meu namorado, graças a Deus, teve só escoriações leves”.
O namoro acabou logo depois?
“Nós ainda namoramos por mais um ano e pouco e depois terminamos, por outras questões. Talvez, mesmo se eu não tivesse sofrido o acidente, esse namoro teria acabado. Ele era mais velho: eu tinha 18 e ele tinha 30 anos. Ele era afetivo, parceiro, até hoje tenho um carinho enorme por ele. E ele foi fundamental na época.”
Quem mais foi fundamental?
“Minha família. Minha irmã mais nova foi tão presente que, aos 11 anos, decidiu a profissão que iria seguir: fisioterapia”.
E como vocês pagaram a infra-estrutura hospitalar?
“No primeiro momento, fiquei num hospital particular em São Bernardo do Campo, o lugar mais próximo do acidente. Para isso, meu pai se virou, porque a gente não tinha plano de saúde. Ele vendeu os dois carros que tinha e conseguiu resgatar um dinheiro que estava preso no Plano Collor. Depois, passei a frequentar a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). Eu morava em Santos, não tinha carro, e vinha fazer reabilitação em São Paulo com a ambulância da prefeitura”.
Toda semana?
“Todo dia! Minha mãe parou a vida dela. Pediu licença no emprego para cuidar da filha e me acompanhava em tudo. A gente superou essa fase sem ajuda de mais ninguém. Vivíamos com o salário de professora da minha mãe. Meu pai ajudava como podia. O acidente nos reaproximou. Na dor, a gente se uniu”.
Quanto tempo durou o período de dor?
“Dor física, uns três ou quatro meses. Dor emocional durou mais – acho que um ano. Não um ano chorando, mas um ano de luto, de reelaboração”.
Luto?
“Sim, porque de uma hora pra outra, você passa a viver numa condição que você nunca previu e nunca planejou. E começa a se perguntar: ‘Por que isso foi acontecer comigo?’. A gente vive numa cultura católica forte. Fiz dez anos de terapia pra me livrar disso. O mundo gira em torno da culpa, do pecado e da punição”.
E como saiu do luto?
“Entendi que estar nessa nova condição não é castigo é uma fatalidade. Eu não estava sendo castigada por nada. Eu passei por uma situação fatal que gerou consequências”.
Na novela, a gente sente a angústia da Luciana, na horizontal. Como foi pra você?
“Eu passava todo o meu tempo chorando pelas coisas que eu não podia mais fazer: andar na rua, dançar, correr, ficar ofegante de cansaço físico, jogar vôlei na praia, sentir o pé afundando na areia… Essa sensação de sentir o pé afundando na areia com o peso do corpo é uma que até hoje eu sinto uma saudade”.
Quando começou a acreditar na sua recuperação?
“Eu ainda estava na AACD fazendo reabilitação e, em uma das sessões de terapia ocupacional, pedi para a terapeuta uma peça de adaptação para eu segurar o batom. Como ela era uma alemã brava, ela me deu o batom, colocou o espelho na minha frente e perguntou: ‘Qual é a dificuldade?’. Nessa hora me dei conta de que não tinha tentado! Consegui passar na frente dela e chorava: de medo dela e de alegria de ter conseguido! Daí comecei a fazer uma lista de tudo o que eu podia fazer”.
Como ficou seu lado afetivo nesses anos em cadeira de rodas?
“Eu tive vários namorados até casar e ter filhos”.
Onde conheceu seu ex-marido?
“No trabalho. Eu era chefe dele, quando fui vice-presidente do Instituto Paradigma, em 2006. Felizmente, foi a presidente da empresa quem o contratou (risos)”.
É diferente a paquera de um cadeirante?
“A paquera não, mas a deficiência seleciona quem vai te paquerar. Porque o cara está vendo que eu estou na cadeira de rodas e, se ele vem falar comigo, já vem sabendo que eu não quebrei o pé”.
Mais alguma diferença?
“Tem: é a falta do bumbum. O bumbum tem uma apelo sexual muito grande, no Brasil. Se você está sentada o tempo todo; o cara não vê o bumbum. Daí você tem que usar outros recursos: explorar pernas, colo, braços. O bumbum ele só vai ver depois que a coisa foi para ‘os finalmente’. O bumbum é o prêmio depois que você cria intimidade”.
Você sente prazer, no sexo a dois ou mesmo sozinha?
“Eu tenho uma característica particular: a minha lesão foi incompleta e, por isso, recuperei a minha sensibilidade total. Existem pessoas que não recuperam, mas elas também sentem prazer com o outro. Um amigo meu fala que o orgasmo acontece entre as orelhas - no cérebro – e não entre as pernas”.
Como foi a gravidez?
“Maravilhosa! Fiquei grávida no susto. A gente planejava para um ano depois e aconteceu. Eu nem sabia que podia ficar grávida! Estava me preparando pra casar e tivemos que antecipar tudo. Fui morar junto. Ele queria acompanhar a gravidez e ela foi tranquila e saudável”.
Ser cadeirante te impediu alguma coisa?
“Até o sétimo mês, foi tudo normal. Daí eu comecei a ter desconforto. Minha barriga era gigante e comecei a ficar muito mais tempo na cama. Ficava sentada… Eu tinha seguro médico, mas ele não cobria a Maternidade São Luís. E a UTI neonatal deles era uma coisa que me preocupava, porque eu precisava – eram dois prematuros a caminho. Liguei lá, falei: ‘Minha situação é essa. E estou falida de grana e queria pagar em dez anos’. Marquei uma reunião com o diretor clínico, Alberto D’Aurea. Ele me ouviu e no dia seguinte me disse que estava tudo ok. Perguntei: “Mas onde eu assino, quanto vai ser por mês?’. Ele respondeu: “Não, você não vai pagar’”.
Quais as principais adaptações de uma casa para um cadeirante?
“É colocar rampa no lugar de degrau, ter portas mais largas e um banheiro espaçoso para poder entrar e se mexer”.
Como você se locomove no dia a dia?
“Eu não dirijo, mas tenho uma pessoa que dirige pra mim”.
E o que falta no mundo lá fora, pra quem é cadeirante?
“Acessibilidade. Se eu não tenho carro, como ando na rua? Com ruas esburacadas, guias não rebaixadas? Como subo no ônibus? Como vou de metrô? Como é nas empresas, para receber funcionários? Se temos acesso a tudo isso, a gente promove o convívio, e o contato tira a ideia de que ser cadeirante é o fim do mundo”.
Você se acha forte?
“Não sou frágil. E minha força não é privilégio meu. Anos antes disso acontecer comigo, eu pensei: ‘Se eu perdesse os movimentos, eu morreria’. Mas quando perdi, morrer nem passou pela minha cabeça! A gente não sabe do que é capaz! A gente só descobre quando a vida te põe à prova. Você não sabe o quanto você é poderosa, você só sabe na hora que enfrenta uma situação difícil e você tem que superar. Aí você descobre o quanto é forte”.
Como a família pode colaborar?
“Permitindo que a pessoa experimente, tente fazer as coisas sozinha. Porque vira automático! Você diz: ‘Quero água’ e já vem o copo de água. E não é por mal. É que o comportamento do cuidar fica condicionado. Cuidar é necessário, mas se passa do limite, vira uma situação de subestimar a pessoa deficiente”.
Mas é difícil saber o limite.
“Lógico que é! A pessoa tem que observar. Se a pessoa consegue cortar o bife sozinha, deixe-a. Não a trate como criança. Se ele não consegue amarrar o sapato, amarre pra ele. Ou sugira que, para ser independente, passe a usar um sapato que não precisa amarrar”.
E com relação aos amigos?
“Eles também acabam ficando superprotetores. A grande dica é sempre perguntar. E a convivência vai te dando as respostas”.
Financeiramente, você se considera estável?
“Ainda não. Eu pago todas as minhas contas e vivo com dignidade”.
Consegue guardar dinheiro?
“Não, mas preciso! Tenho dois filhos. E não quero que falte nada pra eles. Meu único medo na vida é de eles precisarem de alguma coisa que eu não possa dar”.
Eduardo Camara - quarta-feira, 2 de dezembro de 2009 - 11:07

Não costumo assistir novela, mas não podia deixar de ver como a personagem tetraplégica de Viver a Vida está sendo retratada. Poxa, me surpreendi muito!
Tudo bem que as coisas estão meio aceleradas na reabilitação da personagem, mas até dá para entender,
né? Seria difícil conseguir ajustar o tempo da novela com o de uma reabilitação que dura, no mínimo, alguns meses.
Mas só pelos detalhes que estão sendo mostrados já no hospital, acho que vem coisa boa por aí. Ainda é cedo, mas seguindo a linha atual, creio que finalmente vão mostrar em uma novela das 8 o que realmente acontece após uma lesão medular séria, coisa que até agora só foi feita em Malhação (Sim! A novelinha já teve até mais de um personagem cadeirante) e também em História de Amor, uma novela das 6 onde o personagem de Nuno Leal Maia ficou paraplégico.
Tanto em Malhação como em História de Amor, os personagens cadeirantes conseguiram se reabilitar (o que não significa voltar a andar) e, depois de enfrentar uma série de problemas do cotidiano e da reabilitação, continuaram a “viver a vida” (não pude evitar o trocadilho!). Não eram personagens protagonistas e nem estavam no horário nobre, então é provável que vocês nem se lembrem deles. Agora, na novela das 8, a oportunidade é única!
A novela pode mostrar a dureza da reabilitação sem pieguice, pode levantar a bandeira da acessibilidade e também mostrar que muitas vezes a dificuldade na adaptação à nova condição de vida está mais no convívio com as outras pessoas do que na deficiência em si.
Claro que se fosse a vida real eu torceria para Luciana volta a andar. Mas ao contrário de muita gente que assiste a novela, torço para que a personagem Luciana, interpretada por Alinne Moraes, continue tetraplégica.
Lateral Direita